Escolha as suas informações

Entrevista a Adrian Alsina: “O governo de Madrid ameaçou com tiros caso houvesse independência”
Mundo 7 min. 08.11.2017 Do nosso arquivo online

Entrevista a Adrian Alsina: “O governo de Madrid ameaçou com tiros caso houvesse independência”

Entrevista a Adrian Alsina: “O governo de Madrid ameaçou com tiros caso houvesse independência”

Foto: AFP
Mundo 7 min. 08.11.2017 Do nosso arquivo online

Entrevista a Adrian Alsina: “O governo de Madrid ameaçou com tiros caso houvesse independência”

Para Adrian Alsina Catunha, filho de mãe portuguesa e pai catalão, a Europa tem de acordar. Quando os independentistas voltarem a ganhar as eleições no dia 21 de dezembro tem de haver uma saída que garanta uma resolução para o conflito.

Adrian Alsina Catunha é filho de mãe portuguesa e pai catalão. Trabalhou no Brasil e é responsável de comunicação do maior movimento independentista catalão, organizador das grandes manifestações da Diada (Dia Nacional da Catalunha) que trazem para a rua milhões de pessoas. Apresenta-se como um exemplo de que ser cidadão de uma Catalunha independente é ser alguém que pode ter muitas origens, mas que escolheu a Catalunha como o seu país.

As obras da Sagrada Família vão acabar primeiro do que a conquista da independência por parte dos catalães?

Do ponto de vista metafórico, todas as obras desta grande cidade de Barcelona só podem continuar depois de conquistada a independência.

Dá uma certa ideia que o movimento independentista, depois do referendo do dia 1 de outubro e da greve geral que se seguiu a 3 de outubro, ficou convencido que a independência vinha por magia, e foi apanhado em contrapé com a realidade. A certa altura falou-se, quando se suspendeu a declaração de independência, numa solução à eslovena, mas esquecendo que nesse caso chegou a haver confrontos militares.

O que aconteceu foi exatamente isso, houve uma ameaça direta do Estado espanhol para o governo catalão de que haveria tiros nas ruas.

Houve mesmo essa ameaça direta?

Isso foi o que nos disse o presidente da Catalunha. Foi isso que atirou para trás o que era o plano inicial de declarar e resistir pacificamente. Perante essa ameaça, o governo começou por declarar e suspender essa mesma declaração de independência. E depois declarar mesmo, mas não colocar em prática a resistência pacífica que estava inicialmente prevista ser feita. Foi essa razão que fez o governo atuar desta forma, impedir que houvesse qualquer possibilidade de haver violência nas ruas.

Por que razão isso não foi revelado publicamente?

O presidente explicou isso quando falou na quarta-feira passada, a partir de Bruxelas. É verdade, em qualquer caso, que houve uma certa confusão na reação a essa possibilidade que nós não acreditaríamos ser possível. O que começou sendo uma certa confusão acabou novamente por se esclarecer quando o Estado, como sempre, ao tratar o governo da Catalunha como um governo colonial, o que pretende é conseguir a humilhação absoluta dos catalães, colocando na prisão quase todo o governo legítimo da Catalunha.

Adrian Alsina Catunha é filho de mãe portuguesa e pai catalão. Trabalhou no Brasil e é responsável de comunicação do maior movimento independentista catalão.
Adrian Alsina Catunha é filho de mãe portuguesa e pai catalão. Trabalhou no Brasil e é responsável de comunicação do maior movimento independentista catalão.
Foto: N.R.A.

Não confiaram demasiado na Europa para resolver o vosso conflito com Espanha?

Não sei se confiámos assim tanto. A questão catalã nunca foi uma questão com peso na Europa. Tornou-se uma questão de peso, sobretudo desde o referendo do 1 outubro, quando a comunidade internacional viu, com pasmo, a violência exercida contra pessoas que apenas queriam votar. Este assunto é tão novo, e a UE tem dificuldade em se adaptar a novas situações. Mas nós não desistimos. Embora tenhamos consciência desse imobilismo. Continuamos a tentar mudar essa posição, como o tenta fazer o presidente Puigdemont. Mas temos a consciência de que só com a grande determinação dos catalães e a sua firme mobilização e, provavelmente, ganhando as eleições do dia 21 de dezembro, será possível provar à Europa que afinal Espanha não conseguiu resolver o problema. O que a UE quer é não ter o problema sobre a mesa. Rajoy ofereceu-lhes uma solução, mas visivelmente não o conseguiu fazer.

Mas não lhe parece que a Europa convive bastante bem com estados autoritários dentro da UE e nas suas vizinhanças e é bastante alérgica a abrir uma discussão de alteração de fronteiras no seu seio?

A Europa é essencialmente dominada por cinco grandes países: Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Espanha. Agora com o Brexit restam só quatro. E esses grandes Estados são os grandes financiadores do orçamento europeu e os grandes atores da política europeia. Para esses grandes Estados, nomeadamente a França, a rediscussão das nações na Europa podia ser um problema, dada a sua situação interna e o seu habitual centralismo. A possibilidade de mudança de fronteiras dentro dos países da Europa põe em causa toda a questão simbólica da construção do Estado francês ao italiano. Volto a dizer, como Mariano Rajoy garantiu que resolveria o problema, eles apoiaram-no, acho que a única observação que fizeram foi a de que não queriam mais violência. Por isso, no dia 27 de outubro, em vez de nos depararmos com todo o [artigo] 155 duro, que se tinha aprovado de manhã no Senado, o que Rajoy faz foi aplicar o único que era aplicável sem violência, que foi a convocação de novas eleições.

Acha que estas eleições, com parte dos líderes independentistas presos, são possíveis de ganhar pelos independentistas?

Acho que não são só ganháveis, como o mais provável é que as voltem a ganhar. Os partidos independentistas têm ganho todas as eleições ao longo da história eleitoral da Catalunha. Como ganharam a eleição de 2015.

Tiveram maioria absoluta de deputados, mas não de votos.

Tiveram a maioria de votos. Os partidos independentistas tiveram 48% dos votos, os unionistas ficaram-se pelos 38%. A única forma de dizer que o independentismo não teve a maioria dos votos é contar Catalunya Sí que es Pot como sendo unionista. Ora eles disseram terminantemente que não só eram favoráveis ao direito de decidir, como não queriam ser contados em nenhum dos lados. Logo, os independentistas tiveram também a maioria dos votos. Se tomarmos uma perspectiva um pouco mais histórica, os partidos que defendiam que a Catalunha devia ter mais poderes devolvidos pelo Estado Espanhol sempre ganharam as eleições espanholas. Quando digo sempre, é desde 1980.

Foto: AFP

Com esta mobilização independentista não despertaram o medo de parte da população e tornaram impermeáveis setores importantes da sociedade catalã ao independentismo?

Aqui há várias indicadores que contradizem isso. A sondagem do Centro de Estudos de Opinião mostra que o independentismo sobe mais de oito pontos percentuais nos últimos três meses. Depois nós sabemos que há o nacionalismo espanhol na Catalunha, pode ser 15% ou 20%, que até hoje não se tinha manifestado. Não o tinha feito até agora porque se sentia completamente seguro com o Estado espanhol e a ideia da eternidade de uma Espanha indivisível. Era possível viver na Catalunha como se se estivesse numa bolha absolutamente espanhola. O que aconteceu nos últimos meses é que esse nacionalismo começou a perceber a independência como uma opção que tinha possibilidade de se concretizar. Até aí não tinha acontecido.

Mas essas pessoas têm razão para ter receios com a independência e perderem a sua nacionalidade espanhola ou tornarem-se estrangeiros na Catalunha?

Razão nenhuma. Nós sempre afirmámos que podiam, caso Espanha o permitisse, manter dupla nacionalidade e ter os direitos todos de um cidadão catalão.

É de origem portuguesa?

A minha mãe é portuguesa, sinto-me muito próximo da cultura portuguesa. Penso que a Catalunha é muito próxima de Portugal. Embora tenha plena consciência que durante grande parte do século XX estivemos afastados.

Estamos pelo menos historicamente ligados, quando Portugal e a Catalunha se revoltaram no século XVII. Os espanhóis perante as duas revoltas escolheram concentrar as suas forças na Catalunha.

É verdade. Mas como é um dado histórico com 300 anos, por vezes muita gente ignora-o.

Foto: AFP

O seu pai é catalão?

O meu pai é catalão e imagine só, quando a minha mãe comunicou aos meus avós que se ia casar com um catalão, a resposta do meu avô não foi nada favorável, disse-lhe: “Antes com um preto do que com um espanhol”. Nesses tempos os preconceitos eram outros e, sobretudo, as pessoas em Portugal não conseguiam distinguir as diferentes nacionalidades existentes no Estado espanhol. A minha mãe era de Lisboa, mas a família é da zona oeste de Portugal.

Como é que surge na política catalã?

Eu sempre gostei muito de intervir politicamente. Mas apareço na política a partir da economia e de estudar as políticas económicas, e a partir deste estudo, a necessidade de uma intervenção política aparece claramente. Estudei economia e jornalismo. Comecei a envolver-me na política estudantil na faculdade. Durante algum tempo cheguei a militar na Esquerda Republicana da Catalunha. Depois larguei isso para trabalhar na TV3 e num jornal económico de Barcelona, que entretanto fechou. Cansei-me da situação, estávamos na altura da bolha imobiliária e fui para Madrid para fazer um mestrado. Acabei a trabalhar no Brasil – mal falo nisso, começo a falar com sotaque brasileiro [risos]. Passei um ano lá, a trabalhar como chefe de comunicação da delegação económica de Espanha. E foi no Brasil que me tornei um independentista catalão. Foi a trabalhar para o Estado espanhol que me tornei independentista.

Nuno Ramos de Almeida

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Catalunha. A guerra no paraíso
Um ano e um dia depois do 1 de outubro, em que milhões de catalães votaram sob cargas policiais que deixaram quase um milhar de feridos, a violência voltou às ruas. Os polícias foram pintados de todas as cores e os manifestantes tentaram tomar o parlamento. Aqui fica uma crónica datada de uma guerra que não acabou.