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Empresas (e governos) que lavam mais verde
Opinião Mundo 3 min. 11.11.2021
COP26

Empresas (e governos) que lavam mais verde

COP26

Empresas (e governos) que lavam mais verde

Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 11.11.2021
COP26

Empresas (e governos) que lavam mais verde

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Nas ruas de Glasgow grita-se contra o capitalismo. Lá dentro, na COP26, governos, líderes e corporações lavam de verde as mãos negras de combustíveis fósseis

 Há um problema com a cobertura mediática da cimeira do clima COP26, em Glasgow. Há duas cimeiras: a COP26, que junta líderes da ONU, governos e porta-vozes, empresas, patrocinadores e agentes do lobby do capitalismo verde; e a contra-cimeira, em resposta à COP26, onde estão grupos indígenas, activistas, sindicatos, comunistas, eco-socialistas, partidos de esquerda.

O assunto é tão importante que António Costa nem foi, e delegou no ministro do Ambiente a presença em Glasgow. Mas Bolsonaro foi e comprometeu-se em travar o desmatamento da Amazónia, no mesmo dia em que a comunidade de Claudelice dos Santos, no Pará, delegada indígena na COP26, foi atacada por homens armados para arrasar habitações e golpear residentes.

Assinar papéis, meras formalidades. Cá fora, ondas de protesto, meras excentricidades. Os de fora dizem que os líderes não estão a fazer o suficiente, e lutam por um mundo diferente, uma mudança de sistema. Mas nunca nos é explicado como se faz esta luta contra o capitalismo. É produzir menos, travar a ideia de crescimento, consumir menos. Pois, sim, diz o Leonardo Di Caprio que talvez só coma vegan, mas o que é que isso tem a ver com o capitalismo, de facto?

Posso continuar a explorar trabalhadores e empregadas de limpeza na minha fábrica de hambúrgueres de feijão preto porque isso é bom para o ambiente, mas é péssimo para os trabalhadores da minha fábrica. Também nos dizem que temos de produzir e consumir local. Mas não será culpa da família com três filhos não ter poder de compra para consumir apenas azeite orgânico XPTO alentejano enquanto opta por comprar aquele espanhol de supermercado; e posso consumir local, mas os trabalhadores de Odemira não têm quaisquer direitos laborais.

O que é que estas histórias (o hambúrguer, o azeite, Odemira) têm em comum? A legislação e o controlo do Estado, porque são eles que protegem ou não o consumidor em vez de o culpar e punir pelas suas decisões individuais (o saco de plástico, a cotonete, a palhinha), transferindo o ónus para o cidadão em vez de considerar a mudança de todo um sistema.

Enquanto milhares estão nas ruas de Glasgow a expor o conhecimento das comunidades indígenas, ou como as lutas anti-capitalistas podem ser (e serão) a resposta a esta escalada ecocida do capitalismo tardio, Portugal responde com o Secretário de Estado da Energia, João Galamba, a assinar 14 contratos para a exploração, prospecção e pesquisa de minérios, sem avaliação prévia do impacto ambiental. Escuda-se na “lei” (que o permite) e acusa a Quercus (uns excêntricos) de desconhecer a “lei”. É também a "lei" que permite a Bolsonaro continuar a desmatar a Amazónia.

A isto chama-se “greenwashing” (lavagem verde), empresas que antes nos vendiam poliestirenos de petroquímicas agora defendem o “capitalismo verde”. São as mesmas que continuam a investir em combustíveis fósseis, mas também em publicidade sobre um sustentabilidade. Em “White Skin, Black Fuel”, Andreas Malm e [as/os] Zetkin Collective explicam bem este processo, definindo a forma “através da qual o consumismo devorador de gás, o vício dos combustíveis fósseis, o colonialismo e as estruturas de poder racial estão historicamente entrelaçados”.

Não há justiça climática sem justiça social, económica, racial, de género e de classe. Os activistas têm propostas concretas sobre como o capitalismo é a mãe do ecocídio. Mas não é bem isso que temos ouvido: apenas o show eclético e multicultural dos protestos. Como não há ninguém que explique que a extracção de capital da terra é análoga à extracção de capital do trabalho (equivalem-se na mesma medida), e o que estas pessoas defendem é a extinção revolucionária desse modelo, continuamos todos numa interminável novela: os líderes, os manifestantes, os excêntricos, as multas, as emissões de carbono transformadas em vouchers de consumo, uns papéis assinados, a inevitabilidade do sistema.

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