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Emigrantes no Reino Unido fazem contas à vida para poder viajar para Portugal este verão
Mundo 13 min. 08.08.2020

Emigrantes no Reino Unido fazem contas à vida para poder viajar para Portugal este verão

Emigrantes no Reino Unido fazem contas à vida para poder viajar para Portugal este verão

Foto: AFP
Mundo 13 min. 08.08.2020

Emigrantes no Reino Unido fazem contas à vida para poder viajar para Portugal este verão

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Não é só no turismo que se sente o impacto de Portugal ter ficado de fora da lista de países isentos de quarentena obrigatória. O Contacto ouviu vários emigrantes afetados pela medida do Governo britânico. Para muitos, a possibilidade de rever a família este ano pode ficar comprometida.

Ana Manso, 37 anos, preparou-se para dois períodos de isolamento: um, de 15 dias, à chegada a Portugal, e outro, no Reino Unido, que tem mantido o país fora do chamado "corredor aéreo", que permite aos cidadãos provenientes de alguns estados ficarem isentos de quarentena obrigatória. 

Em Lisboa, a cientista fê-lo por dever cívico, como explicou ao Contacto, já que Portugal não exige esse requisito no seu território continental para o Reino Unido - nem para países da UE e do espaço Schengen.

"Como estou a trabalhar de casa, e posso fazê-lo facilmente de qualquer lado, fiquei duas semanas a trabalhar em quarentena em Lisboa", refere. Esses dias passou-os em casa dos pais, cumprindo escrupulosamente o distanciamento - "quarto e casa de banho separados e sem qualquer contacto físico com eles, apenas me deixavam as refeições a porta do quarto". 

Cuidados redobrados que quis ter "pelo facto de haver suficientes casos nos dois lados, que façam com que estar trancada num avião durante três horas, onde muitas pessoas não sabem usar bem a máscara, seja um risco real". 

Depois do isolamento, conseguiu usufruir das três semanas de férias que tinha pedido para o mês de julho e passá-las no Algarve,  "a cumprir as mesmas regras que todos mas partilhando casa e tendo contacto direto com pais e sobrinhos".

Regressada a Manchester, Ana Manso vai poder cumprir a quarentena mantendo-se em teletrabalho e com precauções tomadas de ante-mão. "Deixei o congelador recheado e tenho entregas de produtos frescos todas as semanas".

A possibilidade de poder trabalhar a partir de casa é uma das razões que tem pesado na decisão de muitos emigrantes no Reino Unido de viajarem para Portugal, para passarem as férias junto dos seus, uma vez que no retorno a solo britânico terão de ficar em isolamento 14 dias. 

Marta Leal, 53 anos, vive em Portsmouth e trabalha em sistemas informáticos, é um desses casos. Contou com a compreensão da empresa que acedeu ao seu pedido para trabalhar em casa, quando regressar das duas semanas e meia de férias que marcou, com o marido, para este mês em Portugal. 

Mesmo que lhe "desagrade", considera que estas medidas do Reino Unido - os corredores turísticos, para certos países, e condicionantes para outros - são um mal necessário, que ajudará a garantir mais segurança para combater a pandemia.

Já Maria Gonçalves, a viver em Londres, foi apanhada de surpresa pela decisão do Executivo britânico de excluir Portugal do corredor aéreo. 

 "Marquei férias de 10 a 27 de Julho. Fomos de avião a partir de Stansted. Fui com o meu marido. Sempre estive confiante que o corredor aéreo para Portugal iria ser anunciado no final de junho. Fiquei aterrada com a decisão do Governo de não incluir Portugal", conta ao Contacto. 

No entanto, e apesar das "consequências económicas", a aromoterapeuta, de 41 anos, e o marido decidiram ir. "Porquê? Tinha três consultas agendadas no hospital em Braga que não queria voltar a adiar. O meu marido já não via o filho dele há quatro meses e queríamos também ver a nossa família. Teremos que aprender a viver com o vírus e não ficarmos reféns dele", defende Maria Gonçalves que tem seguido as mesmas medidas sanitárias que seguiria se tivesse ficado no Reino Unido - lavar as mãos constantemente, usar gel desinfetante, manter a distância de segurança e usar máscara em espaços fechados. 

Por outro lado, o contacto com os familiares foi diferente. Além da ausência de beijos e abraços - "o que me custou bastante", admite - procurou manter a distância de segurança mesmo com a família, limitar a visita a amigos e evitar espaços com muita gente. 

As férias em Portugal permitiram à aromoterapeuta estabelecer também algumas comparações entre países . "Senti-me muito mais segura em Portugal do que cá. Nas zonas onde estive (Braga e Peniche) toda a gente respeita o uso de máscara e a distância de segurança. Existe desinfetante em todos os espaços comerciais. Ao contrário, aqui só usa quem quer e ninguém é impedido de entrar onde quer que seja sem máscara. A propagação do vírus é feita por quem cá ficou, basta ver os números das últimas semanas", considera.

De volta ao Reino Unido, e apesar de não concordar com a medida aplicada pelo país aos que tenham partido de Portugal, já a está a cumprir, adiantando sentir-se bem e "sem sintomas" de covid-19. 

Fazer quarentena está ao alcance daqueles que podem ficar em teletrabalho. Emigrantes da linha da frente são prejudicados
Fazer quarentena está ao alcance daqueles que podem ficar em teletrabalho. Emigrantes da linha da frente são prejudicados
Foto: José Correia

Sandra Silva vive em Abardeen, Escócia, e também não acredita que a definição de um corredor aéreo para determinados países, excluindo-se outros, seja uma medida segura. "Pelo contrário. As pessoas vão ver isso como um 'free pass'. Não importa as regras impostas se as pessoas não cumprirem com as precauções básicas", diz a development manager, de 42 anos, que cumprirá a quarentena, se ainda se aplicar, em teletrabalho.

Com férias agendadas para setembro e viagem de avião marcada, tem uma lista de procedimentos que irá seguir para reduzir riscos, além das medidas mais sanitárias mais elementares. 

"Tenciono tomar todas as precauções possíveis antes de viajar e durante a viagem, isolar-me quando chegar a Portugal, dado que a minha mãe está num grupo de risco - e por isso não a visitei antes", afirma, não descartando a possibilidade de realizar um teste de rastreio.

Quando falamos de emigrantes regressarem às suas terras, verem as suas famílias, é diferente de eu ir de férias para um país ao qual não tenho ligação nenhuma. E isso, a meu ver, deveria ser ponderado e dado prioridade nestas questões do corredor aéreo

Além das medidas impostas pelo Governo de Boris Johnson para quem chega ao Reino Unido vindo de Portugal - assim como do Luxemburgo, que se encontra igualmente na lista dos países excluídos do corredor - a preocupação com os familiares também é um dos fatores que pesa na decisão de fazer a viagem.

É o caso de Vera Galamba, 40 anos, que ainda não decidiu quando irá de férias, por costumar fazê-lo mais perto da data de viagem. A pandemia mudou as contas e os dias que inicialmente tinha pensado tirar em junho, para visitar os familiares em Portugal, foram adiados e ainda não é certo quando poderão ser gozados.

"Ando há meses a debater a questão, não apenas pela obrigatoriedade de quarentena, mas pelos riscos inerentes a uma viagem de avião. Quando vou de férias fico em casa dos meus pais e ir nesta altura implica colocá-los em risco, o que não quero fazer. Eles são, pela idade e problemas de saúde, grupo de risco", explica.

Há, contudo a possibilidade de ir no final deste mês, altura em que a sua casa estará sem inquilinos, permitindo a distância necessária para não pôr os pais em risco. A questão que se coloca depois é a quarentena e a gestão da situação laboral, em suspenso por causa da pandemia. "Actualmente estou em 'furlough', que é o equivalente ao lay-off em Portugal, e não estou impedida de sair do país, mas posso ser chamada para trabalhar de um dia para o outro. Tenho também ainda bastantes dias de férias para tirar". 

Vera Galamba, que vive em Londres e trabalha num centro de recolha e adopção animal, aguarda por uma revisão dos corredores aéreos a meio deste mês, esperando para ver se Portugal passa a fazer parte da lista de isenções e fazer um plano de férias. Mas tem noção de que mesmo essa possibilidade pode ser novamente alterada "a qualquer momento, como aconteceu com Espanha", ainda que não veja a opção por criar esses corredores de isenção de quarentena como um mecanismo seguro para conter a transmissão do vírus. 

"Comparativamente com Portugal, as medidas tomadas no Reino Unido têm pecado por serem tardias e decididas em cima do joelho. Tem sido uma anedota", lamenta, lembrando que o facto de as pessoas "viajarem de férias para fora do país, como se estivesse tudo normal, vai contribuir para o aumento do número de casos nos países para os quais vão de férias. E, consequentemente, vai contribuir para o aumento de casos no seu país de residência depois de regressarem". 


Entrevista com investigador. Fronteiras da covid-19 "têm mais a ver com interpretações políticas dos factos científicos"
Portugal e o Luxemburgo têm sido considerados zonas de risco pelos seus pares e têm visto serem-lhes colocadas restrições e condições a quem a partir deles viaje.

Ainda assim, Vera Galamba considera que a situação da comunidade emigrante deveria merecer uma atenção especial e não ser colocada no mesmo patamar que as viagens turísticas.

"Quando falamos de emigrantes regressarem às suas terras, verem as suas famílias, é diferente de eu ir de férias para um país ao qual não tenho ligação nenhuma. E isso, a meu ver, deveria ser ponderado e dado prioridade nestas questões do corredor aéreo", defende.

 Quarentena obrigatória não deixa margem para férias em Portugal 

Se para alguns emigrantes ouvidos pelo Contacto, há margem para cumprir a quarentena de 14 dias, para outros essa obrigatoriedade anula os planos feitos, e nalguns casos já adiados de meses passados, para visitar a família. Entre eles estão portugueses que trabalham na chamada linha da frente.

Luís Dias presta cuidados ao domicílio. Acabou por cancelar as férias, por não poder ficar duas semanas extra sem trabalhar.

"Este ano tinha férias no final de maio, cinco dias, e no início de agosto mais cinco. Tive de retirar as férias pois não seria viável economicamente suportar 14 dias em quarentena", afirma. 

Por outro lado, e a apesar de Portugal não estar a impor nenhuma condição a cidadãos que viagem a partir do Reino Unido, o "care assistant", de 38 anos, que vive em Bath, pretende "realizar um teste de despiste do covid 19, antes de viajar".

O governo de Boris Johnson mantém Portugal fora dos corredores aéreos que isentam os cidadãos de certos países de fazer quarentena. Maioria dos emigrantes ouvidos pelo Contacto não acredita da eficácia dessa medida.
O governo de Boris Johnson mantém Portugal fora dos corredores aéreos que isentam os cidadãos de certos países de fazer quarentena. Maioria dos emigrantes ouvidos pelo Contacto não acredita da eficácia dessa medida.
AFP


Grávida de 30 semanas e a trabalhar em contexto hospitalar, Flávia Gama, de 31 anos, a viver em Dereham, Norfolk, tinha previsto vir de férias a Portugal entre 03 e 13 de agosto, mas acabou por desistir.

 "Era impossível ausentar-me do trabalho durante quatro semanas [duas se férias mais as duas da quarentena], tendo em conta que trabalho em contexto hospitalar e os meios já estão escassos, e principalmente estando grávida e começando a minha maternidade no fim de setembro".

As férias serviriam para "mostrar a barriga à família" e para o marido fazer uma cirurgia,  que tinha remarcado depois de cancelarem as primeiras férias agendadas para maio e que agora teve de cancelar novamente.

Particularmente crítica da forma como o Reino Unido tem gerido a pandemia, não considera que a existência de corredores para países com números aparentemente melhores seja garante de segurança, e diz estar mais preocupada com a falta de equipamentos de proteção pessoal nas alas hospitalares, a falta de pessoal e os "obstáculos criados todos os dias, quando tentamos fazer o nosso trabalho", reclama. 

Susana Sá, 44 anos, professora, emigrada em Londres, é doente de risco e também tem queixas semelhantes, sendo "obrigada a voltar à escola em setembro e sem máscara".

Vai com a família - são quatro -, de avião, passar as férias a Portugal, no próximo dia 18 de agosto, depois de ter tido que fazer alterações às datas iniciais.

"Inicialmente iria de 24/07 a 25/08, mas a directora da escola "obrigou-me" a mudar o meu voo por causa da quarentena obrigatória para quem vem de Portugal".

Por ser doente de risco, passará as férias mais recolhida e o marido em teletrabalho, já que não tem tantos dias de férias.

Quem não tem a mesma sorte é Joana Santos. A gestora de marketing de 30 anos, que vive em Martins Heron, Berkshire, acabou por ver o marido partir sem ela num dos fins de semana prolongados que tinham programado passar em Portugal este verão. O outro acabaram por cancelar, devido às novas regras.

"Na primeira viagem o meu marido foi sem mim, na segunda nenhum de nós foi. O meu marido continua a trabalhar de casa, por isso não há problema para ele. Eu não posso fazer quarentena sem perder salário, por isso não pude ir."

Isabel Rodrigues, 30 anos, vive em Southampton e trabalha na área do retalho. Também tinha 15 dias marcados em junho para ir passar as férias a Portugal, com o companheiro. Acabaram por desistir e adiar os planos para 2021. "Decidi não viajar este ano, por causa das novas normas", diz ao Contacto.

Viagem de carro pode ser uma opção, mas esmagadora maioria usa o avião como meio transporte para voltar a Portugal
Viagem de carro pode ser uma opção, mas esmagadora maioria usa o avião como meio transporte para voltar a Portugal
Foto:R


Assim, há quem tenha preferido perder mais tempo e ter feito a viagem de carro e de barco, como Maria José. Residente em Londres, a professora e designer, de 44 anos, viajou com o marido e os três filhos em viatura própria, mesmo tendo já as viagens de avião compradas antecipadamente, primeiro para a Páscoa e depois para as férias de verão.

Com o marido em teletrabalho e uma casa com um jardim grande com piscina, "o que facilita", não espera sair mais que o necessário, em Portugal, antes de voltar ao Reino Unido, desta vez pelo caminho mais demorado. "Vamos regressar de carro, mas faremos a travessia mais longa, de barco, por Santander."

Petição para o Reino Unido incluir Portugal no corredor aéreo reúne 30 mil assinaturas  

 O jornal em língua inglesa com maior circulação em Portugal, o The Portugal News" lançou uma petição  na internet a pedir ao Governo britânico para reconsiderar e incluir Portugal no corredor aéreo com o Reino Unido.

A petição tem como objetivo convencer o primeiro-ministro britâncio, Boris Johnson, a alterar a sua posição de obrigar os passageiros de voos com origem em Portugal a uma quarentena de 14 dias, devido à pandemia de Covid-19, quando chegam ao seu território, e “abrir uma ponte aérea” entre os dois países. 

Mais de 29.900 pessoas já assinaram. O objetivo é chegar às 35 mil assinaturas.

 A enfermeira Joana Ribeiro, a viver há quatro anos, no sul de Inglaterra, também criou em julho a petição “Permita que os imigrantes visitem as suas famílias”.  Com mais de 2.200 assinaturas, tem como objetivo chegar às 2500, no total.

A última revisão à lista de países incluídos ou excluídos dos corredores aéreos com o Reino Unido foi publicada esta sexta-feira, 7 de agosto. Portugal e Luxemburgo mantém-se fora dos corredores e agora juntam-se também, no grupo dos excluídos, Bélgica, Andorra e Bahamas.


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