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Em Bruxelas a política também se faz fora de portas
Mundo 5 min. 27.05.2019 Do nosso arquivo online

Em Bruxelas a política também se faz fora de portas

Em Bruxelas a política também se faz fora de portas

Foto: Telma Miguel/Contacto
Mundo 5 min. 27.05.2019 Do nosso arquivo online

Em Bruxelas a política também se faz fora de portas

Enquanto que dentro do Parlamento Europeu centenas de jornalistas esperavam os resultados do voto dos europeus este domingo, fora do Hemiciclo, em Bruxelas, várias ONG’s e startups faziam um outro tipo de campanha.

Domingo, dia 26  de maio, foi um dia atípico dentro do edifício Paul-Henri Spaak - onde se situa o hemiciclo de Bruxelas do Parlamento Europeu. Centenas de jornalistas esperavam os resultados do voto dos de 360 milhões de europeus, na zona em frente, numa praça exterior conhecida como Esplanada, apresentava-se aos passantes uma outra forma de fazer política. Distribuídos por quiosques, organizações não- governamentais (ONG) e startups mostravam projetos de democracia que não terminam nas urnas.

O The Good Lobby (o Lóbi Bom, em português) é uma startup cívica que nasceu em 2015 para representar os interesses dos cidadãos, colocano-os acima dos interesses corporativos. Jesse Colzani ostenta o título de 'legal matchmaker' (casamenteiro jurídico, em inglês) e explica que o seu trabalho é colocar a sociedade civil em contacto com grandes firmas internacionais de advogados, que trabalham numa base pro bono (não remunerada) em causas civis. O The Good Lobby (TGL) opera com financiamento privado, de entidades como a Open Society (fundada pelo multimilionário George Soros). Mas é também uma parceira do Parlamento Europeu, com a qual organismo fez a campanha anti-abstenção "this time I am voting" (desta vez eu vou votar, em português). O fundador do TGL é o professor de Direito e ativista político Alberto Alemanno, uma figura que Jesse Colzani assegura ter um papel de destaque na democratização das instituições europeias. 

À espera de receber a notícia do aumento de eurodeputados da extrema-direita, Colzani acha que não há motivo para pânico. "Mesmo em Itália, os populistas cresceram apoiados na difusão das redes sociais, mas chegaram ao seu limite de crescimento. Porque na verdade têm slogans, mas não têm um projecto". Uma das iniciativas que o TGL tem em mãos é a de criar um mecanismo automático que leve à expulsão do Parlamento Europeu de um partido viole o Estado de Direito no seu país de origem. 

"9,6 milhões de eleitores espanhóis viram provavelmente desinformação ou mensagens de ódio no WhatsApp". Esta é uma das conclusões da investigação da Avaaz, uma plataforma responsável por petições transnacionais populares, sobretudo contra a multinacional Monsanto. Há três meses, a Avaaz iniciou um projeto sobre desinformação nas eleições europeias. Cerca de trinta pessoas pessoas trabalharam na investigação que foi paga com doações de 40 mil contribuidores e que desmascarou uma rede de contas da extrema-direita que tinha como alvo eleitores europeus nas redes sociais. A investigação foi notícia em jornais como o The New York Times e o The Guardian. O projeto focou-se nos seis maiores países europeus, pelo que Portugal e Luxemburgo ficaram de fora, o que não significa que os Estados mais pequenos estejam imunes ao fenómeno. No geral, "a desinformação sofisticou-se muito. Já não há propriamente mentiras. São verdades distorcidas, o que as torna mais difíceis de reconhecer e desacreditar. Há sobretudo a criação de narrativas, muito para criar divisão e incitar ao ódio e que rapidamente ultrapassam fronteiras", diz Martyna Dominak, uma das responsáveis da Avaaz. 

O WhatsApp está cheio de memes erróneos, "50% dos quais são sobre os migrantes e refugiados. Aparecem num país e uns meses ou um ano depois chegam a outro país. São difíceis de travar", acrescenta. Uma das grandes vitórias da equipa da Avaaz foi ter-se encontrado com responsáveis do Facebook e Twitter, em Silicon Valley há algumas semanas. "Levámos pessoas que foram vítimas de ataques motivados pelas campanhas de desinformação. Neste momento, estas duas redes sociais estão a tentar criar uma prática de 'correct the record' (repor a verdade)", acrescenta. Esse, é de momento, o maior objetivo deste projecto, salinta  Martyna Dominak. 

A Talos é uma ONG que nasceu há um ano e meio, composta essencialmente por estudantes que querem "fortalecer a democracia na União Europeia" para lá das eleições. Balint Zoller, um jovem adulto de origem húngara e nacionalidade alemã, explica que o Talos ajuda os cidadãos a utilizar ferramentas para que as suas petições se tornem efetivas. Os candidatos registam-se no site para obterem aconselhamento legal e técnico, "porque as ferramentas existem, são é muito difíceis de apreender". No seu pouco tempo de vida, o Talos já conduziu cerca de uma dezena de campanhas em várias áreas.

Já a Union of European Federalists (UEF) não nasceu nesta nova época de startups. "Foi fundada após a II Guerra Mundial por Altiero Spinelli", explica Paolo Vacca, secretário-geral desta organização. Spinelli foi um dos fundadores daquilo que é hoje a União Europeia e não é por acaso que um dos edifícios do Parlamento Europeu em Bruxelas ostenta o seu nome. Paolo Vacca é defensor de uma união cada vez mais forte, de "uma verdadeira federação de Estados", ao contrário das aspirações nacionalistas em crescimento no continente. 

"Queremos um Parlamento Europeu mais poderoso. Em todas as áreas realmente importantes os Estados-membros não conseguem fazer nada sozinhos". Só que, "num PE mais fragmentado vai ser difícil encontrar projectos políticos que levem a Europa para a frente", lamenta Paolo Vacca. 

O Forum of European Muslim Youth (FEMY) - (Fórum Europeu da Juventude Muçulmana, em português) - , plataforma que agrega 31 organizações de jovens muçulmanos em 24 países europeus, representa uma verdadeira contracorrente. Abdul Samil, um dos seus representantes, está bem consciente disso, do "elefante na sala" que dá voz às aspirações de jovens muçulmanos num Parlamento Europeu onde a  extrema-direita tem conquistado mais lugares. Um crescimento que tem sido feito à custa do incitamento ao ódio contra os migrantes e muçulmanos. Mais ainda, Abdul Samil é inglês e está na posição duplamente desconfortável de defender uma União Europeia que o seu país quer largar. "Há muitos cenários pelos quais é possível lutar. Ainda não se sabe o que vai acontecer em muitos aspetos. E mesmo com o Brexit, nós ingleses temos que lutar por uma Europa melhor e mais inclusiva". Mesmo com a extrema direita a entrar pela porta grande e o Reino Unido perto da saída de emergência.

Telma Miguel