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Eleições EUA. Uma bomba relógio
Mundo 11 8 min. 03.11.2020 Do nosso arquivo online

Eleições EUA. Uma bomba relógio

Elementos da milícia de extrema-direita Proud Boy. Num comício a 26 de setembro em Portland.

Eleições EUA. Uma bomba relógio

Elementos da milícia de extrema-direita Proud Boy. Num comício a 26 de setembro em Portland.
AFP
Mundo 11 8 min. 03.11.2020 Do nosso arquivo online

Eleições EUA. Uma bomba relógio

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Teme-se uma noite sem fim, esta terça-feira, em que os contendores não queiram reconhecer os resultados eleitorais e o Trump tente impedir que sejam contados mais de metade dos votos que vão ser expressos hoje.

A cabeleireira Bex tem 43 anos e nunca pensou ter uma arma. Considera-se uma pessoa liberal e de esquerda e pacifista. Mas neste ano de eleições reviu as suas convicções de sempre e comprou um revólver e inscreveu-se na secção de Nova Iorque da Associação Socialista de Armas (com o acrónimo em inglês SRA). “A eleição trouxe-me um angustia e senti que era preciso fazer alguma coisa para defender a comunidade”, disse à jornalista Letícia Duarte da revista piauí. Desde a sua compra e adesão à Associação Socialista de Armas, em julho, ela começou a ter aulas de tiro e de defesa pessoal. Mas mantém essa sua opção em segredo, com medo da reação dos seus amigos mais liberais. “A minha irmã mata-me se soubesse o que fiz”.

Em um contraponto à poderosa Associação Nacional de Armas (NRA), de extrema-direita, a Associação Socialista de Armas (SRA, na sigla em inglês) é uma organização muito pequena, mas que sinaliza uma tendência. Sua missão declarada é “defender o direito da classe trabalhadora de portar armas e manter as habilidades necessárias para defesa pessoal e da comunidade”. Os elementos da associação não confiam na polícia. “Seja quem ganhe as eleições, não vai mudar muita coisa. Temos que proteger nossas famílias, nossos vizinhos.”, declarou um ativista à revista brasileira.

Como nem todos os membros têm acesso a armamentos, por não cumprirem todos os requisitos exigidos para a compra legal de uma arma nos Estados Unidos, a organização também tem apostado no ensino de técnicas de luta corpo a corpo – e em Nova York eles adotaram uma arte marciail russa chamada Systema.


Reportagem EUA. Quando as eleições são um combate de boxe
Aqui somos todos filhos de escravos e somos educados a não confiar nos brancos. A sociedade é dividida porque nos tratam mal e Muhammad Ali é uma inspiração para combater a violência e a injustiça, como aconteceu com Breonna Taylor”, diz um atleta afro-americano.

Em todo o país, a SRA passou de três mil membros, no início do ano, para sete mil atualmente, e aglutina mais de 61 mil seguidores no Twitter. A organização promete “promover uma cultura inclusiva, segura e saudável de armas de fogo na América para combater a cultura tóxica, de direita e de exclusão das armas de fogo” e se define como representante da “classe trabalhadora, progressista, anarquista, socialista, comunista, eco-warrior, libertadora de animais, antifascista, antirracista, anticapitalista, das pessoas de cor e LGBTQ+”.


EUA/Eleição. Autoridades estão preocupadas com ações de violência organizada
A venda de armas bateu recordes nas vésperas das eleições. Temem-se confrontos depois da noite eleitoral.

Uma venda recorde de armas

Na segunda-feira, véspera das eleições, são várias as pessoas no estado de Michigan que se apressam a comprar armas, informa a Sky News. “"Elas nem sabem disparar. Só querem comprar armas, estou a receber cerca de 100 chamadas por dia", contou Bill Kucyk, que é dono de uma loja que vende armas.

As estantes que costumam estar repletas de armas encontram-se agora vazias. "A loja já ficou vazia várias vezes", acrescentou. Os cidadãos do estado de Michigan - um dos que é decisivo para decidir quem vai vencer no colégio eleitoral, devido a balançar historicamente entre democratas e republicanos - estão a adquirir armas por receio de distúrbios no caso de o resultado eleitoral ser contestado, refere a Sky News.

Lexus Lewis, uma jovem mãe, foi uma das que tentou comprar uma arma, que nem sabia bem como a utilizar. À semelhança de muitos outros, confessou à Sky News que decidiu comprá-la por uma questão de segurança e para proteger a família.

Nas últimas semanas, o estado de Michigan mostrou ser um ponto importante para de milícias armadas locais O exemplo mais conhecido é o da descoberta de um grupo que planeava raptar a governadora democrata Gretchen Whitmer, e que  estavam a organuizar um assalto com 200 homens armados a sede do Governo estadual, e a execução da governadora.

Um aumento de procura de armas que começou com a pandemia

A procura aumentou 800%", diz à BBC News Brasil, já em março deste ano, o proprietário da Dong's Guns, Ammo and Reloading, David Stone, cuja loja de armas, em Tulsa, é uma das mais antigas no Estado de Oklahoma, em operação desde 1946.

"É maior até mesmo do que após Sandy Hook, que foi o maior aumento que eu já tinha visto (até então)", diz à BBC News Brasil o proprietário da loja Staudt's Gun Shop, Joseph Staudt, referindo-se ao massacre na escola Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, no qual 20 crianças e seis adultos foram mortos por um atirador em dezembro de 2012.

Logo após aquela tragédia, o então presidente Barack Obama lançou uma campanha para restringir o acesso a armas, o que provocou corrida às lojas por parte de americanos que queriam se antecipar a possíveis proibições.

Staudt afirma que, somente num dia na sua loja, localizada em Harrisburg, no Estado da Pensilvânia, vendeu US$ 35 mil em armas e munição. "Normalmente, costumamos vender entre US$ 3 mil e US$ 5 mil dólares", informa.

Segundo Staudt, ao longo da semana o valor total das vendas superou US$ 150 mil.

"Muitos (dos clientes) estavam comprando sua primeira arma. Não tinham armas de fogo e estavam com medo do que pode acontecer se houver falta de mantimentos e as pessoas entrem em desespero por causa da pandemia. Querem garantir que poderão proteger-se", observa Staudt.


Estados Unidos. Eleitores temem violência pós-eleitoral
No mesmo dia em que o fundador do Facebook alertou para o perigo de confrontos nos Estados Unidos, a cadeia de supermercados Walmart decidiu retirar armas e munições das suas prateleiras. Três em cada quatro eleitores dizem temer atos violentos.

Recentemente, a NRA, principal grupo de lobby pró-armas dos Estados Unidos, divulgou um vídeo que mostra uma mulher armada e em uma cadeira de rodas, falando sobre como sua arma será usada para proteção "quando tudo falhar".

Uma campanha de alto risco

Mas o que essa corrida ao armamento significa para as eleições presidenciais? Como o Presidente Trump está em desvantagem nas sondagens, vem pôr em causa o processo eleitoral e ataca a credibilidade do voto por correspondência, há quem alerte para o risco de caos social e violência nas ruas entre eleitores. 

“Ambos os lados estão com medo de que o outro lado não vá aceitar os resultados. O problema é que os dois lados não acreditam mais no processo em si”, analisa Laire Boine, investigadora na Universidade de Boston à revista brasileira piauí. “O que me preocupa é que coisas que costumavam chocar-nos estão a tornar-se aceitáveis por muita gente, como teorias da conspiração e manifestações racistas. Então, se você acredita em uma teoria da conspiração como o QAnon, e que estão torturar e violar crianças, o uso de armas para defendê-las parece justificado.”


"As novas tecnologias digitais facilitam cair no buraco das teorias da conspiração"
O Contacto entrevistou, em Londres, Matthew Feldman, Diretor do Centre for Analysis of The Radical Right, um organismo que se dedica a investigar as teorias da conspiração e a sua ligação ao extremismo na era das redes sociais.

Nas últimas horas, antes das eleições, Donald Trump e os republicanos subiram o tom de agressividade. No último domingo, 1 de novembro, o Presidente desautorizou o FBI que abriu uma investigação, depois de na passada sexta-feira cerca de uma centena de carros com bandeiras da campanha de Trump terem cercado um autocarro da campanha de Joe Biden e Kamala Harris numa estrada no Texas, obrigando-o a parar. Por precaução, a campanha democrata cancelou alguns comícios programados para aquele dia.

Trump atacou o comportamento dos agentes federais: “Na minha opinião, estes patriotas não fizeram nada de mal. Em lugar de os perseguir, o FBI e a Justiça devia investigar os terroristas, os anarquistas e os agitadores antifa, que incendeiam as cidades dirigidas pelos democratas e ferem o nosso povo”, twittou o primeiro magistrado dos EUA.


Editorial. A guerra civil americana
A velha frase filosófica que a história acontece em tragédia e repete-se em comédia pode ser agora invertida e a tragédia está por acontecer em novembro.

Mas o ataque mais importante do Presidente teve como alvo o voto de correspondência, que aumentou muito devido à pandemia , e que as sondagens afirmam que será usado maioritariamente por pessoas que não vão votar Donald Trump.

Um estudo, publicado no Washington Post em setembro, mostra que cerca de 58% dos americanos que preveem ir votar nas secções de voto estariam inclinados a votar Trump, enquanto mais de 75% dos votantes por correspondência teriam escolhido o candidato democrático. O que significa que no início do escrutínio pode dar vantagem ao candidato republicano, enquanto estão por contar os quase 80 milhões de votantes que escolheram fazê-lo por correspondência, mais do dobro que os 33 milhões que exerceram desta forma o seu direito de voto em 2016.

Nesse sentido, Donald Trump procura criar as condições na opinião pública, para dificultar que sejam reconhecidos esses votos que chegam pelo correio. Depois das declarações do Presidente dos EUA que os votos por correspondência são fraudulentos, os republicanos fizeram ações judiciais, em muitos estados em disputa, para reduzir muito o período, depois de 3 de novembro, em que o voto por correspondência tem de chegar para poder ser contado. Conseguiram os seus intentos no Wisconsin, mas perderam as suas ações na Pennsyvania e a Carolina do Norte.

Num comício no domingo, Trump não perdeu de vista esse objetivo que parece ser aquele que lhe permite uma eventual eleição: “Sabem o que seria verdadeiramente correto? Se o nosso Tribunal Supremo pudesse ter decidido que tudo deve ser contado na noite das eleições (…) em lugar de termos escrutínio que se arrasta durante seis, oito ou nove dias”, afirmou, garantindo que o voto por correspondência é sinónimo de fraude eleitoral.


Mark Zuckerberg teme uma onda de violência depois das eleições nos EUA
O criador do Facebook acha que o país está muito dividido e se não for possível conhecer o vencedor na noite eleitoral a 3 de novembro podem estalar confrontos que cortem o país em dois.

Várias vezes, o atual Presidente repetiu a frase que não admite ser derrotado numa eleição limpa: “O único meio que eles serão capazes de nos bater, é com uma eleição fraudulenta”, declarou em 24 de agosto.

Os republicanos não descansam, e agora empenham-se em anular centenas de milhares de boletins de voto depositados nas urnas drive-in num bastião democrático no Texas, estado que pela primeira vez pode deixar de ser republicano. Recursos similares deverão ser feitos um pouco por todo o país depois de 3 de novembro, caso os resultados sejam taco a taco.


Senado confirma Amy Coney Barrett para o Supremo Tribunal dos EUA
Nomeação representa uma vitória política para o Presidente Donald Trump a poucos dias das eleições presidenciais.

 Donald Trump não escondeu a pressa em fazer nomear e confirmar uma nova juíza conservador para o Supremo Tribunal Americano, Amy Coney Barret, que participou na decisão que impediu a recontagem de votos na Florida, durante o confronto entre Al Gore e George W. Bush, reforça a maioria dos juízes conservadores que poderão dar a vitória na secretaria a Trump.

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Apesar de não haver quaisquer indícios de fraude eleitoral, Trump tem insistido em contestar os resultados, depois ter lançado suspeições durante vários meses sobre a legitimidade do resultado final das eleições, alegando não ter confiança nos votos por correspondência, que este ano bateram recordes, com mais de 100 milhões de eleitores a escolherem esta opção, muito por causa da pandemia.
A velha frase filosófica que a história acontece em tragédia e repete-se em comédia pode ser agora invertida e a tragédia está por acontecer em novembro.