Escolha as suas informações

Eleições EUA. Trump com a presidência em lume brando
Mundo 5 min. 07.11.2018 Do nosso arquivo online

Eleições EUA. Trump com a presidência em lume brando

Eleições EUA. Trump com a presidência em lume brando

Foto: AFP
Mundo 5 min. 07.11.2018 Do nosso arquivo online

Eleições EUA. Trump com a presidência em lume brando

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O resultados das eleições de meio de mandato de 6 de novembro dão o controle do Congresso aos democratas: a partir de agora a oposição pode chumbar grande parte das propostas legislativas do presidente e investigar os seus casos. Trump conseguiu, por seu lado, ampliar a sua maioria no Senado, que lhe permite continuar a colocar juízes conservadores no Supremo Tribunal.

Donald Trump não esperou pelos resultados das eleições de meio de mandato, que se realizaram na terça-feira, para declarar, ufano, que as eleições foram “um imenso sucesso”.

Vamos aos factos e depois às interpretações políticas: os republicanos perderam a maioria na Câmara dos Representantes e reforçaram a sua maioria no Senado. Trocando por miúdos: os democratas elegeram mais 27 representantes no Congresso, ficando com 220, contra 194 republicanos; os republicanos elegeram 51 senadores, mais dois do que tinham, ficando com 51, contra 45 dos democratas. E, finalmente, os republicanos perderam sete governadores de Estado para os democratas, ficando o partido de Trump com 25 governadores, contra 23 dos democratas.

Num cenário eleitoral em que, com uma participação muito elevada, em relação às eleições de meio de mandato de 2014, os democratas tiveram mais 8% dos votos que os republicanos, a vantagem foi desigualmente repartida nas duas câmaras.

O que se explica pelas particularidades do sistema eleitoral dos EUA. Enquanto na Assembleia dos Representantes foram a votos a totalidade dos lugares, a nível do senado, só estavam em disputa 35 lugares dos 100 que compõem aquele órgão. Desses, 26 eram lugares de democratas e apenas nove de republicanos; e em zonas em que os democratas tinham perdido as anteriores eleições presidenciais por uma enorme margem. Era quase matematicamente garantido que, mesmo crescendo nos votos, dificilmente os democratas poderiam progredir no Senado.

No entanto, é verdade que, na maioria dos casos, os presidentes perdem bastante nas eleições do meio de mandato e que, no caso de Donald Trump, essas perdas não foram das maiores.

“Hoje, o trumpismo foi encorajado, validado na América Rural”, explicou no canal de televisão MSNBC o analista Steve Schmidt, antigo estratega republicano que deixou o partido por causa do seu extremismo. Mas, há sempre um “mas”, acrescentou Schmidt, o trumpismo foi “repudiado na América urbana e nos subúrbios”. Em conclusão, os EUA estão mais profundamente divididos com o mandato de Donald Trump.

Os resultados das eleições permitem ao presidente continuar a nomear os juízes conservadores para o Supremo Tribunal, dado que essas nomeações dependem só do Senado, mas impedem o presidente de legislar leis à sua vontade.

A porta-voz dos democratas na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, já confirmou a intenção da oposição à administração dos EUA: “Um Congresso democrata vai procurar soluções com que se identifiquem os norte-americanos, estamos todos fartos de divisões”, ameaçando a Casa Branca com restaurar os equilíbrios democráticos e os “contra-poderes constitucionais”.

Esses novos contra-poderes permitem avançar com propostas no domínio da efetivação e alargamento do Obamacare (a cobertura universal dos seguros de saúde), políticas que Trump tentou inviabilizar e que têm o apoio da maior parte dos norte-americanos.

A intervenção da oposição pode ser feita em matéria de investigação ao próprio presidente dos EUA: tanto forçando-o a tornar pública as suas declarações fiscais; como investigando a alegada interferência da Rússia nas eleições presidenciais; e até começando um eventual processo de destituição, praticamente impossível, devido a ser necessária uma maioria de dois terços do Senado para esse efeito. Mas os democratas podem cozer Donald Trump em lume brando até às presidenciais.

Foto: AFP

Vêm aí os socialistas

Estas eleições têm outro dado político relevante: foram eleitas mais de 100 mulheres, a maior parte das fileiras dos democratas. Entre estas eleitas a grande novidade é o crescimento da bancada “socialista” no Congresso dos EUA.

É o ar do tempo: segundo uma sondagem da Galup de agosto, 57% dos eleitores democratas consideravam o socialismo uma ideia positiva, contra apenas 45% que pensavam o mesmo do capitalismo. O número é ainda mais impressionante nos jovens entre os 18 a 29 anos: 51% de todos os jovens norte-americanos achava a ideia de socialismo positiva.

Dos 42 ativistas socialistas que ganharam as primárias democratas na primavera passada, muitos foram eleitos agora para o Congresso. Duas das mais destacadas militantes do Socialistas Democratas da América (DSA) são a mais jovem deputada de sempre eleita no Congresso, Alexandria Ocasio-Cortez, de 28 anos, e a advogada Rashida Tlaib, filha de imigrantes palestinianos de Detroit.

Ocasio-Cortez é filha de uma porto-riquenha, a sua mãe limpava casas, os seus progenitores pouparam todos os cêntimos para conseguir mandar estudar a filha numa escola, mais a norte, e fora do Bronx. Diz-se que nos EUA o código postal pode mudar o nosso destino e assim foi. Este pequeno passo, que exigia que viajasse 40 minutos, todos os dias, até à escola, com um grande esforço, levou-a a licenciar-se em Economia e Relações Internacionais na Universidade de Boston.

Mas uma licenciatura não é garantia, por si só, de uma ascensão social. Voltou ao seu bairro do Bronx e começou a trabalhar como educadora em escolas e no papel de ativista social na comunidade. A crise de 2008, no ano em que os bancos caíram como cartas, foi a tempestade perfeita para muitas famílias. O seu pai, Sergio Ocasio, proprietário de um pequeno comércio, morreu de cancro neste mesmo ano. A doença e a crise levaram a família à beira da pobreza. Alexandria passou a trabalhar 18 horas por dia em restaurantes, como empregada de mesa, para tentar manter o seu agregado familiar à tona de água. 

“Quando a minha família esteve à beira da fome, tive de trabalhar como empregada de mesa. Compreendo o sofrimento da classe trabalhadora dos EUA porque o vivi na própria carne”, recordou a jovem candidata. Foi essa experiência em carne viva que trouxe para a sua campanha. “A nossa campanha apenas transmitiu a mensagem de respeito pela dignidade económica, social e racial para os norte-americanos da classe trabalhadora, especialmente aqueles que vivem em Queens e no Bronx [bairros populares de Nova Iorque]”, repetia a candidata.

Quando decidiu candidatar-se a tarefa era quase impossível: batia-se contra um poderoso congressista democrata que controlava havia mais de 20 anos a sua circunscrição eleitoral. Joe Crowley era considerado o quarto democrata mais poderoso no Congresso dos EUA e era falado para substituir Nancy Pelosi na liderança da bancada do partido. A jovem começou a campanha com um molho de folhetos e contactando os eleitores porta-a-porta. Com a ajuda de dezenas de voluntários conseguiu recolher cerca de 300 mil dólares, uma décima parte do que gastou o seu poderoso opositor. “Nós temos o povo, eles têm o dinheiro”, garantia Ocasio-Cortez num anúncio de campanha. E foi eleita.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Várias vitórias de ativistas de esquerda nas primárias democratas demonstram a radicalização de setores populares e da juventude norte-americana