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Eleições brasileiras: Se fugir o bicho pega, se parar o bicho come

Eleições brasileiras: Se fugir o bicho pega, se parar o bicho come

Foto:AFP
Mundo 10 min. 10.08.2018

Eleições brasileiras: Se fugir o bicho pega, se parar o bicho come

Esta semana realizou-se o primeiro debate televisivo entre os candidatos presidenciais. Foi excluído Lula da Silva que lidera as sondagens com o dobro das intenções de voto do candidato seguinte. O mais provável é ser também proibido de ir às urnas e, nesse caso, pode ganhar o deputado Bolsonaro, admirador da ditadura militar. Tudo na mesma semana em que se soube que 63.880 brasileiros foram mortos em 2017. O Contacto falou com jornalistas e académicos que vivem no Brasil sobre o que vai acontecer.

Um dos sound bites que ficaram no ouvido, no debate televisivo de quinta-feira à noite com os candidatos presidenciais brasileiros, foi quando Guilherme Boulos, da extrema-esquerda, se voltou para Henrique Meirelles, do partido do atual presidente Michel Temer, e disse-lhe: "Você não é apenas o candidato do Temer. Aqui nesse debate tem 50 tons de Temer. Aliás, quem diz que quer coisa nova, tem de pensar no que fez no verão passado".

Apesar das sondagens e da confusão dos cenários das eleições brasileiras, que têm a primeira volta a 28 de outubro, o seu resultado dificilmente escapará aos 50 tons de Temer. Como nota o economista Alexandre Andrada, num muito interessante artigo na Intercept Brasil, a prova disso pode ser vista, não nos astros, mas nos boletins macroeconómicos: o Banco Central brasileiro divulga semanalmente o Relatório Focus, que apresenta as expetativas do “mercado” sobre uma série de variáveis económicas e, na sua última edição, lê-se que a instituição espera, para 2018, uma inflação de 4,11%, e de 4% para 2019 e 2020.

O valor científico dessas previsões é nulo, já que os economistas não acertam sequer na inflação do mês atual; costuma, aliás, dizer-se que os economistas são aqueles que explicam amanhã como é que aquilo que previram ontem não se confirmou hoje. Mas isso não significa que estas previsões não sejam significativas. O facto de de uma das principais instituições do mercado projetar uma inflação perto da meta desejada, para os anos vindouros, significa que ela está tranquila em relação ao que poderá fazer o próximo governo brasileiro.

Na chamada República Velha, que durou entre 1889 e 1930, São Paulo era o café e o leite era Minas Gerais, era essa aliança, apelidada de café com leite, que ditava a política do país, com os produtores de café a escolherem os presidentes. Na Nova República, São Paulo é o reino dos produtos e carteiras de ações com derivados, e o setor financeiro elege os seus presidentes. Mesmo quando um outsider ameaça romper com a política do café com leite moderno, ele é obrigado a beijar a mão do “mercado”, afirma Andrada.

O plano A do “mercado” é Alckmin. Além de paulista, e com boa aceitação na zona da avenida Paulista e Vila Olímpia, sede de grandes empresas e bancos, Alckmin tem a sua equipa económica liderada por Pérsio Arida, um dos milionários do “mercado”.  Arida assumiu o controlo do banco BTG Pactual. Nasceu em São Paulo, é doutorado em Economia pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology). Tornou-se conhecido, no início dos anos 80, quando elaborou um plano de combate à inflação, o Plano Cruzado, que serviu como base para o chamado Plano Real (plano lançado em 1994 com o objetivo de estabilizar a economia e baixar a inflação, que passou pela substituição do cruzeiro pelo real). Anos depois de ter trabalhado com o governo de Sarney, voltou à cena no governo de Fernando Henriques Cardoso (FHC), dirigiu o Banco Central e o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES). Quando esteve na direção do Banco Central vieram a lume dados de que teria usado a informação privilegiada que tinha, entregando-a ao banqueiro Fernão Bracher do BBA, instituição financeira que administrava fortunas e que veio a ser incorporada pelo Itaú em 2002. 

Se saiu do governo pela janela entrou no mercado pela porta grande, como prova a sua carreira posterior. Numa entrevista recente, Pérsio Arida declarou ao que vem: “O Estado tem de deixar de ser empresário. O que as pessoas querem e o que o Brasil precisa é de uma economia dinâmica. Para isso, não precisa de intervenção estatal". O que configura o seu apoio a medidas do governo Temer como a entrega das enormes reservas de petróleo e gás natural da Pré-Sal aos grupos multinacionais privados. As suas propostas políticas reproduzem, de uma forma modernizada, o chamado Consenso de Washington (conjunto de políticas neoliberais adotadas pelo FMI e Banco Mundial a partir dos anos 80 do século passado): avançar nas privatizações, abrir a economia à competição internacional e reduzir a regulamentação estatal sobre o funcionamento dos mercados.

Nestas eleições, no caso de o chamado plano A falhar , o “mercado” está claramente disposto a acionar o plano B: Bolsonaro, para manter o seu menu de medidas. As suas declarações, em que garante ser ignorante nos assuntos económicos, podem ser vistas de várias maneiras: a primeira, as suas óbvias limitações cognitivas; a segunda, e mais importante, sinaliza ao “mercado” que toda as coisas que disse ao longo de sua vida parlamentar sobre assuntos económicos, que tendiam para um nacionalismo de certos generais da ditadura militar (Médici e Geisel), são apenas palavras eleitoralistas que não devem ser levadas a sério.

A equipa económica de Bolsonaro é liderada por Paulo Guedes. Um economista doutorado na Universidade de Chicago, berço do neoliberalismo e conhecida como "a Escola de Chicago", que assessorou ditadores como Pinochet. Foi fundador do banco Pactual que está na origem do BTG Pactual, em que está envolvido Aridas, o conselheiro de Alckmin. Guedes é também uma das principais referências do Instituto Millenium, um conhecido think tank ultraliberal. Como escreve o economista Alexandre Andrada na Intercept Brasil,   "a 'agenda Guedes' é a mesma de Arida, mas sob o efeito de anabolizantes".

Voltando ao debate televisivo de dia 9 de agosto, Bolsonaro defendeu a posição dos empresários sobre reduzir direitos laborais, afirmando que o seu posicionamento posição poderia custar-lhe votos: "Todos nós sabemos que o salário do Brasil é pouco para quem recebe, e muito para quem paga. Os empresários têm dito para mim: menos direitos, e emprego, ou todos os direitos, e desemprego".

Quem irá à segunda volta?

Treze candidatos apresentam-se no início. O grupo com possibilidade de passar à segunda volta integra Luiz Inácio Lula da Silva (ou o, por enquanto, vice da sua lista, Fernando Haddad, que o substituirá no previsível impedimento judicial de Lula), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Álvaro Dias (Podemos).

A última sondagem realizada pela Datafolha, antes ainda do fecho da apresentação das candidaturas, dá Lula como vencedor, caso o deixassem ir às urnas. "Preso há dois meses, o ex-presidente Lula (PT) mantém o índice mais alto de intenção de voto para a disputa da Presidência da República entre os pré-candidatos com nomes colocados. Sem o petista, Jair Bolsonaro (PSL) lidera, tendo Marina Silva (Rede) como principal adversária. O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT), fica atrás da candidata da Rede e empata com Geraldo Alckmin (PSDB). Com 30% no único cenário em que o seu nome é testado, Lula fica à frente de Jair Bolsonaro, que tem 17%, e de Marina Silva, que tem 10%. Tanto Geraldo Alckmin quanto Ciro Gomes são indicados por 6% e, na sequência, aparece Alvaro Dias (Podemos), com 4%. Com o petista fora da corrida presidencial e Haddad como candidato do PT, Bolsonaro (19%) lidera, e Marina (15%) surge em patamar próximo. A seguir surgem Ciro (10%), Alckmin (7%) e Dias (4%). Uma fatia de 28% declarou voto em branco ou nulo, e 5% preferiram não opinar. Nesse cenário, Bolsonaro lidera com folga entre os homens (26%, ante 12% de Marina, 12% de Ciro, 7% de Alckmin e 5% de Dias), na faixa dos mais jovens, de 16 a 24 anos (26%, ante 16% de Marina, 5% de Ciro e 5% de Alckmin) e também na posterior, de 24 a 35 anos (28%, ante 17% de Marina, 8% de Ciro e 7% de Alckmin). O presidenciável do PSL também se destaca entre os eleitores com curso superior (25%, contra 12% da ex-senadora da Rede, 12% de Ciro, 6% do ex-governador de São Paulo, 4% de Alvaro Dias, 3% de Haddad e 3% de Boulos), mas é nas camadas mais ricas do eleitorado que a preferência pelo seu nome dispara: tem 13% entre os mais pobres, na faixa de renda familiar de até dois salários por mês, ante 17% de Marina, 9% de Ciro e 6% de Alckmin. Na faixa de renda de dois a cinco salários, Bolsonaro sobe para 23%, já à frente de Marina (13%), Ciro (9%) e Alckmin (8%). Entre quem tem renda entre cinco e dez salários, a distância de Bolsonaro (29%) para Marina (11%), Ciro (17%) e Alckmin (5%) e Dias (7%) é ampliada. Por fim, entre os mais ricos, com renda superior a dez salários, ele alcança (34%), percentual próximo da soma dos índices de Marina (3%), Ciro (14%), Alckmin (10%) e Dias (9%), seus adversários mais próximos", reza o resumo da sondagem da Datafolha, realizada nos dias 6 e 7 de junho.

Essa dificuldade de transformar os votos de Lula em votos do seu substituto é uma das grandes dificuldades para a esquerda brasileira colocar um candidato na segunda volta, segundo analisa, para o Contacto, o jornalista brasileiro António Martins, editor do site Outras Palavras: "O PT lançou um candidato em substituição a Lula (Haddad) que irá às urnas se este for impedido. A tática petista, de enorme risco, prevê fazer a substituição apenas no último pedaço possível, o PT terá até 17 de setembro para substituir Lula, caso este seja impedido, quando faltarão apenas três semanas para a primeira volta. O PT fia-se em estudos, segundo as quais o candidato apoiado por Lula terá um transbordo de votos de mais de 20 pontos percentuais. Nada garante que isso ocorra de facto. Por isso, não está fora de hipótese de uma segunda volta entre Alckmin e Bolsonaro ".

Diferente é a opinião de Esther Solano, professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo no curso de Relações Internacionais e professora do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos da América Latina da Universidade Complutense de Madrid, considerando, em declarações ao Contacto, que a força dos aparelhos do PT e PSDB deve levar a uma segunda volta entre Haddad e Alckmin: "Acho que o PT está garantido na segunda volta. Por enquanto deu certo a estratégia da vitimização política do Lula e do golpe [que derrubou Dilma Rousseff] e da Lavajato, ele tem um patamar de 30 a 35% que é muito alto. A questão é qual é a quantidade de votos que consegue passar para Haddad? Penso que a estratégia do PT está a funcionar, vão conseguir colocar um candidato na segunda volta das eleições, porque conseguiram reestruturar o campo das alianças à esquerda, ao colocar no seu campo o PCdoB,  PSOL e ao neutralizarem o PSB, que já não vai apoiar Ciro. Para mim a grande incógnita não é tanto o PT, mas a direita: qual vai ser o candidato da direita? O Alckmin ou o Bolsonaro? Um tem quase metade do tempo de antena na televisão, a maior parte do dinheiro e o apoio dos grandes media; o outro tem mais apoio eleitoral nas sondagens. Apesar disso, penso que vamos assistir a uma aproximação de força eleitoral entre os dois, à medida que se desenrola a campanha", prevê a professora universitária.

Mesmo com a passagem do PT à segunda volta e da eventual, mas difícil, vitória de um candidato de esquerda, será difícil voltar aos tempos de reformismo brando de Lula, em que o poder dos grandes grupos financeiros e das famílias poderosas não era colocado em causa, ao mesmo tempo que eram usadas as receitas do crescimento económico para minorar a miséria e a pobreza da maioria da população. A desaceleração da economia mundial e o agudizar do clima de violência no Brasil dão pouca margem de manobra para estratégias reformistas. Só em 2017, foram assassinadas 63.880 pessoas.

Nuno Ramos de Almeida


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