EDITORIAL: Sejamos realistas, exijamos o impossível

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e o ministro das Finanças de Grécia, Yanis Varoufakis
O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e o ministro das Finanças de Grécia, Yanis Varoufakis
REUTERS

A parábola foi contada pelo ministro das Finanças grego numa entrevista à BBC, na sexta-feira passada.

“Suponha que um amigo seu vinha ter consigo e lhe dizia que tinha dificuldades para pagar o empréstimo da casa, por causa de uma redução nos rendimentos, depois de perder o emprego, por exemplo. O seu amigo tem uma ideia brilhante para resolver o problema: conseguir um cartão de crédito e usar o dinheiro para fazer os pagamentos da dívida durante os meses seguintes”. Yanis Varoufakis devolve então a pergunta à jornalista da BBC, que o questionara sobre a recusa da Grécia em aceitar mais uma tranche do resgate da troika: será realista dar um cartão de crédito ao endividado, como se fosse uma tábua de salvação? Será realista mergulhá-lo numa espiral infernal de endividamento, a solução proposta para “o que é essencialmente um problema de insolvência”?

“Este é o problema que a Grécia tem enfrentado nos últimos cinco anos. Os nossos parceiros europeus e o Governo grego anterior têm estado a protelar e a fingir [que não se trata de insolvência]”, disse o ministro das Finanças grego, que é também um reputado economista.

Mas não é preciso um doutoramento em Economia para concluir que a Grécia está insolvente (isto é, que é incapaz de pagar as suas dívidas), uma realidade que ninguém em Bruxelas quer aceitar. O economista francês Thomas Piketty, que recusou no início deste ano a Legião de Honra, disse-o de forma categórica, no rescaldo das eleições que deram a vitória ao Syriza na Grécia. Para reembolsar a dívida grega, que corresponde hoje a cerca de 200% do Produto Interno Bruto (PIB), seriam necessários 50 ou 60 anos, numa conjuntura sem inflação – uma impossibilidade prática. “Não é realista, nunca aconteceu na História”, garantiu Piketty.

Não é o único a dizer que o rei vai nu. “Se a troika tivesse sido realmente realista, teria reconhecido que estava a exigir o impossível”, acusa o norte-americano Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, num artigo escrito no New York Times no final de Janeiro.

É irónico que o lema libertário do Maio de 1968, “sejamos realistas, exijamos o impossível”, sirva hoje como uma luva, não ao Syriza e ao Governo de coligação grego, mas à UE e à troika. As propostas do Executivo grego não são, como pretende Passos Coelho, “um conto para crianças”; ficção, mas do género dos filmes de terror, é a cura de austeridade que tem servido para justificar o sofrimento infligido aos povos do Sul da Europa, apesar de todas as evidências de que o remédio está a matar o doente.

O perdão parcial da dívida, parte da solução para o “pesadelo grego”, como lhe chama Krugman, esbarrou no entanto contra a tecnocracia europeia, encerrada nos seus dogmas. Agora, até o Executivo da Grécia parece ter recuado nessa exigência. Como avisava o prémio Nobel da Economia, o problema dos planos do Syriza não é estarem fora da realidade, “é não serem suficientemente radicais”. Mas ir à raiz do problema (que é o que “radical” queria dizer antes de o termo ter sofrido a má publicidade de que hoje goza) é capaz de estar para além das possibilidades de qualquer Governo actual, encerrado na atmosfera asfixiante das políticas TINA, “There Is No Alternative” (Não há alternativa).

O termo cunhado por Margaret Thatcher nos anos 1980 tem sido brandido por todos os que nos governam. Esta política da inevitabilidade, que glorifica as leis dos mercados e naturaliza o estado de excepção em que a Europa está mergulhada, vai buscar apoio recorrente aos tratados europeus, convertidos em Bíblia sagrada do neo-liberalismo.

Tomemos por exemplo a regra que limita o défice público a 3% do PIB, primeiro adoptada pelos Governos de Mitterrand, e mais tarde incluída no Tratado de Maastricht. A história da origem deste número mágico, revelada pelo jornal Le Monde e recordada na semana passada pelo Diário Económico, é aterradora. O número foi inventado “em menos de uma hora, nas costas de um envelope”, por um economista francês, em resposta ao pedido de Mitterrand, que procurava uma norma que soasse a “ciência económica” para poder recusar mais dinheiro aos seus ministros. Um por cento era inatingível, dois continuava a ser muito pouco. Três, “um número que fazia pensar na Trindade”, foi a solução retida, confessou o economista anos mais tarde.

Hoje, este número absurdo, que o próprio economista admitiu não ter qualquer base científica, é erguido na Europa como parte da tábua dos mandamentos económicos, eterna, inquestionável e imprescritível.

É em nome desta e de outras regras que os nossos dirigentes políticos prosseguem aquilo a que o filósofo francês Jean-Claude Milner, citado por António Guerreiro, chama “uma política das coisas”: “uma política que já nada decide e apenas admite, implicitamente, que tudo passou a ser inevitável”. “O que os governantes propõem aos governados está inscrito na ordem das coisas e estas decidem em lugar dos homens”, conclui com a habitual perspicácia o cronista do Público.

Hoje, exigir o impossível é reclamar que a política deixe de servir as coisas e volte a servir os homens, resgatando a realidade confiscada pelos nossos governantes.