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EDITORIAL: Ei-los que chegam!
Editorial Mundo 5 min. 06.05.2015 Do nosso arquivo online

EDITORIAL: Ei-los que chegam!

Editorial Mundo 5 min. 06.05.2015 Do nosso arquivo online

EDITORIAL: Ei-los que chegam!

Cerca de seis mil migrantes foram resgatados no Mediterrâneo no último fim-de-semana e outros sete mil foram travados na Líbia quando se preparavam para embarcar para a Europa.

Cerca de seis mil migrantes foram resgatados no Mediterrâneo no último fim-de-semana e outros sete mil foram travados na Líbia quando se preparavam para embarcar para a Europa. 

REUTERS

Poderia a operação Tritão (da Frontex, a agência europeia para o controlo das fronteiras da UE) com os seus parcos meios, ter conseguido chegar a tempo para salvar 13 mil migrantes de uma só vez? Só no sábado foram 17 as embarcações de refugiados que pediram para ser socorridas e a operação europeia de vigilância do Mediterrâneo – que dispõe apenas de 21 navios, quatro aviões e um helicóptero –, desta vez chegou a tempo de evitar uma nova tragédia humana. Este podia ter sido um fim-de-semana negro, fatal para os migrantes, vergonhoso para a UE, de luto para a Humanidade. Mas foi de esperança(s): uma menina migrante nasceu a bordo de um patrulhador da marinha italiana. A mãe fugiu de um país em guerra, a filha crescerá na Europa prometida.

O último fim-de-semana só não bateu um recorde porque foi ultrapassado pelo de 12 e 13 de Abril, quando 6.600 migrantes foram “repescados”. Nos primeiros quatro meses deste ano já foram resgatados mais de 25 mil migrantes, quase o mesmo número que em 2014 no mesmo período. O que mudou foi o número de mortos e desaparecidos no mar, que cresceu exponencialmente, passando de uma centena para quase dois mil. E o número arrisca-se a aumentar ainda mais dramaticamente, já que com o bom tempo e o estado mais calmo do mar as travessias clandestinas vão aumentar.

E o que faz a UE? Na cimeira de 23 de Abril – convocada à pressa na sequência do naufrágio de 1.200 migrantes num só dia – os 28 decidiram triplicar o orçamento da operação Tritão para 9 milhões de euros mensais até ao fim do ano, aumentar os meios de vigilância e de socorro no Mediterrâneo e alargar a zona geográfica da Frontex no Mediterrâneo. Mas até à data nada foi posto em prática. François Hollande quer destruir os barcos dos passadores antes de zarparem para a Europa, mas nem a ONU nem os países a quem o presidente francês expôs a ideia – como a Rússia – concordaram, para já, com a sugestão. Enquanto isso, Hollande enviou um navio para o Mediterrâneo, a Alemanha enviou dois. Mais nada foi feito. Nem foi discutida, por exemplo, a distribuição dos migrantes pela UE. Como se o problema fosse apenas dos Estados-membro banhados pelo Mediterrâneo, a Itália, Grécia, Espanha e Malta, países que já estão a abarrotar com refugiados, em campos onde aguardam a sua sorte.

A Itália diz que vai preferir os refugiados de guerra em detrimento dos migrantes económicos e dar asilo político aos primeiros, mas apenas se estes o pedirem. Porque para muitos, a Itália deveria ter sido apenas um ponto de passagem, alguns têm família em França, Bélgica, Alemanha ou Reino Unido e é aí que estão a tentar chegar. É por isso que a Itália reivindica há anos que o Tratado de Dublin seja revisto, já que este prevê que os refugiados sejam acolhidos pelo primeiro Estado-membro onde chegam. O presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker criticou as decisões tímidas da UE e defendeu que é urgente falar das “quotas” de migrantes a distribuir pelos Estados-membros. Mas há países que nem querem ouvir falar nisso, nem na reforma do Tratado de Berlim.

Apesar de o Luxemburgo ser dos Estados-membros que menos pedidos de asilo recebe dos países de onde chegam estes migrantes, o primeiro-ministro luxemburguês Xavier Bettel quer criar um grupo para preparar a eventual chegada em maior número de refugiados, caso a UE decida impor quotas. Entretanto, na terça-feira chegaram 45 refugiados sírios ao Luxemburgo, ao abrigo de um acordo com a ONU.

Enquanto a UE hesita, o número de migrantes e de mortos no cemitério do Mediterrâneo vai aumentando. O problema de fundo são as guerras civis nos países de origem dos migrantes, na Síria, Iraque, Líbia e Sudão ou a ditadura sanguinária na Eritreia, e a extrema miséria na Etiópia ou no Mali. Morrer no mar ou chegar à Europa não é apenas um acto desesperado, é a última esperança de quem atravessou o deserto, a selva ou a savana, escapou a animais selvagens e guerrilheiros, percorreu milhares de quilómetros a pé ou num transporte de fortuna em condições sub-humanas.

“Ei-los que partem, novos e velhos, buscando a sorte, noutras paragens, noutras aragens, entre outros povos, ei-los que partem, velhos e novos. Ei-los que partem, de olhos molhados, coração triste e a saca às costas, esperança em riste, sonhos dourados, ei-los que partem, de olhos molhados. Virão um dia, contando histórias, de lá de longe, onde o suor se fez em pão, virão um dia, ou não.” A canção de Manuel Freire, que descreve a emigração lusa nos anos 1960, bem se poderia aplicar hoje à fuga aflita dos migrantes do Norte de África, do Iraque e da Síria para a Europa. Porque afinal, o que faz deles migrantes diferentes dos portugueses que deixavam Portugal há 50 anos, para fugir da guerra e da miséria? É que se nós portugueses não entendermos o seu desespero, o seu sofrimento e até a sua esperança, quem entenderá?

Hoje, a aldeia global é uma metrópole mesquinha, degradante, cruel, sem ética nem valores, em que os moradores do centro (países ricos), no conforto e no calor das suas casas, têm apenas como preocupação adquirir o mais recente brinquedo high-tech, pensando que podem ignorar o grito de sofrimento que vai emergindo dos subúrbios (países pobres), infestados de guerra e de miséria, que frequentemente “o centro” fomentou na “periferia”, apenas para sustentar o seu nível de vida. E quando os subúrbios extravasarem? Não é já o que está a acontecer? Enquanto não prevenirmos as causas, teremos que remediar (e remendar) as consequências. E sabe-se lá que consequências nos esperam. Não é só do futuro dos migrantes que se trata, mas também do nosso.

José Luís Correia


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