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EDITORIAL: Des(união) europeia
Editorial Mundo 5 min. 01.07.2015

EDITORIAL: Des(união) europeia

Por Paula Telo Alves - A leviandade com que os líderes europeus têm estado a lidar com a Grécia faz lembrar uma velha anedota judaica. Dois judeus viajam a bordo do Titanic quando o barco começa a afundar-se. Os dois conseguem lugar num bote salva-vidas, mas um deles chora desesperadamente. “Mas estás a chorar porquê?”, pergunta-lhe o outro. “Por acaso o barco é teu?”.

Por Paula Telo Alves - A leviandade com que os líderes europeus têm estado a lidar com a Grécia faz lembrar uma velha anedota judaica. Dois judeus viajam a bordo do Titanic quando o barco começa a afundar-se. Os dois conseguem lugar num bote salva-vidas, mas um deles chora desesperadamente. “Mas estás a chorar porquê?”, pergunta-lhe o outro. “Por acaso o barco é teu?”.

A reacção de Cavaco Silva à maior crise de sempre na União Europeia não fica longe deste humor absurdo: “A zona do Euro são 19 países, e se a Grécia sair ficam 18”. A tirada vem dar razão a Saramago, que um dia chamou a Cavaco “o génio da banalidade”, mas é sobretudo mais um exemplo da clamorosa falta de visão e solidariedade da UE.

Os ideais de paz e prosperidade da Europa estão a afundar-se, sacrificados às exigências dos mercados. Cenas como as que vimos na Grécia no fim-de-semana, com gente desesperada a tentar retirar dinheiro das caixas multibanco, são imagens do terror económico que a UE é capaz de infligir a quem não se submete ao dogma da austeridade.

A Europa prossegue há anos uma odiosa campanha de diabolização dos gregos. Nunca desde 1930 se tentou alimentar assim o ódio da opinião pública contra um povo inteiro. Os gregos seriam preguiçosos, incapazes de sacrifícios e por isso culpados de todos os males que se abateram sobre o país. Esta narrativa, que ganhou terreno na opinião pública e na maioria dos meios de comunicação, não se dá bem com os factos. O actual governo grego, no poder desde Janeiro, não nega as décadas de clientelismo e corrupção das elites gregas, que pretende combater, mas apesar disso a Grécia foi o país da UE que mais sacríficos fez desde 2010. Nos últimos cinco anos, as devastadoras políticas de austeridade fizeram o país perder 25% do Produto Interno Bruto, mergulhando grande parte da população na miséria. Mais de metade dos jovens estão desempregados e a maioria das pensões de reforma (45%) foram reduzidas a valores abaixo do limiar de pobreza.

Apesar disso, o FMI e a Comissão Europeia exigiram novos cortes nas pensões no ultimato que o Governo grego recusou na sexta-feira. A razão para a recusa? As reformas são “a última rede de segurança para impedir a sociedade grega de se desintegrar totalmente”, disse o ministro das Finanças Yanis Varoufakis, sublinhando que os idosos “são obrigados a alimentar o resto da família”, um cenário tristemente familiar também em Portugal.

Na guerra de propaganda contra a Grécia vale tudo: Juncker já veio dizer que a proposta que levou Tsipras a abandonar a mesa das negociações “não era um ultimato” e não envolvia cortes nas pensões – para ser prontamente desmentido pelos jornalistas Peter Spiegel, chefe da delegação do Financial Times em Bruxelas, e por Marcus Walker, do Wall Street Journal. “Mentiras descaradas”, acusou o correspondente do jornal americano, recordando que esta não é a primeira vez que o antigo responsável do Eurogrupo e actual presidente da Comissão Europeia é apanhado a mentir. “Quando o assunto se torna sério, tem de se mentir”, disse Juncker em 2011.

A maior mentira sobre a situação económica da Grécia foi criada em 2010, quando o FMI foi obrigado a mudar as próprias regras de funcionamento para fechar os olhos ao facto de a dívida grega ser impossível de pagar. Nesse ano também, o FMI enviou um email à Comissão Europeia em que alertava para a terrível devastação económica que o programa de resgaste iria provocar na Grécia: “uma profunda recessão que porá seriamente em perigo o tecido social do país”.

O interesse da população grega nunca foi tido em conta pela ’troika’. Os números mostram que o resgate não serviu para salvar a Grécia, mas sim os bancos: apenas 12% dos empréstimos concedidos ao país foram usados para financiar as despesas públicas. A esmagadora maioria do dinheiro (87%) serviu para pagar os credores europeus.

O fracasso da austeridade está à vista, mas nem a corajosa oposição dos gregos conseguiu até agora travá-la. No início deste mês, um grupo de destacados economistas, incluindo o prémio Nobel Joseph Stiglitz, ex-conselheiro de Clinton e antigo vice-presidente do Banco Mundial, apelou ao fim da austeridade, numa carta publicada no Financial Times. “É errado pedir à Grécia que aceite um programa que demonstradamente falhou, foi rejeitado pelos eleitores gregos e que vastos números de economistas (entre os quais nos incluímos) acreditam que foi mal desenhado desde o início”. No fim-de-semana, até Dominique Strauss-Kahn, o antigo director do FMI, veio fazer “mea culpa”. Só um desejo de vingança contra quem ousou questionar o falhanço das políticas europeias explica a sanha contra a Grécia. Com a mãe de todas as tempestades no horizonte, os líderes europeus fazem finca-pé com pontos percentuais no IVA.

Mas não é só na Grécia que os ideais da Europa se afundam. Na quinta-feira, os líderes europeus recusaram novamente partilhar o fardo dos requerentes de asilo, maioritariamente acolhidos pela Grécia e Itália, fechando os olhos à tragédia humanitária que só este ano fez dois mil mortos no Mediterrâneo. “Se esta é a vossa ideia da Europa, fiquem com ela”, disse o primeiro-ministro italiano ao restantes líderes europeus, acusando-os de falta de solidariedade. “Vocês não merecem chamar-se europeus”, acusou Matteo Renzi.

O governo de Passos Coelho tem sido um dos maiores opositores às exigências da Grécia. À hora a que escrevo, ainda não se sabe se Tsipras chegará a acordo com o Eurogrupo, sem sacrificar as legítimas reclamações do povo grego, mas haverá muitos a torcer pela humilhação da Grécia, esquecendo um aviso com mais de dois mil anos, “De te fabula narratur”. “De que te ris?”, perguntava Horácio numa sátira aos avarentos. “É a ti que se refere a história, apenas com o nome trocado”.


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