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EDITORIAL: Arautos da Ressurreição
Editorial Mundo 4 min. 08.04.2015

EDITORIAL: Arautos da Ressurreição

POR BELMIRO NARINO - Desde há mais de dois mil anos que milhões de homens e mulheres vivem e se deixam escravizar, vilipendiar, torturar e matar por Jesus Cristo, que por nós se entregou à morte na cruz.

POR BELMIRO NARINO - Desde há mais de dois mil anos que milhões de homens e mulheres vivem e se deixam escravizar, vilipendiar, torturar e matar por Jesus Cristo, que por nós se entregou à morte na cruz.

Mas, passados três dias, ressuscitou. Esta verdade fundadora faz da nossa morte o vestíbulo da Ressurreição. Os homens e mulheres que escolheram a luz e renunciaram às trevas chamam-se cristãos.

A eles incumbe serem portadores da Boa Nova. Muitos cristãos, hoje em dia e sob o nosso olhar, são torturados, decapitados, massacrados pela horda negra dos bandos de assassinos ao serviço do príncipe das trevas. Católicos, protestantes, ortodoxos, réus do mesmo crime: serem portadores da Cruz e da Bíblia.

A família de Cristo chama-se Igreja, que deve ser não um museu mas um farol, um lar para todos.

Infelizmente, nem sempre assim foi ao longo da sua história. No séc. IV, aceitou, das mãos do imperador Constantino, um presente arriscado: o poder. Ora, o poder é uma tentação a que nem todos resistem. Por isso, ao longo de séculos, mesmo para os católicos, Igreja era sinónimo do poder zelosamente guardado pelo Vaticano e a hierarquia. De facto, algumas vezes se amordaçou a boca dos teólogos, para não se aprofundarem certas questões que punham em causa o histórico monopólio. Faltou-lhes um Péguy para entenderem que uma tradição antiga deve ser substituída por outra mais antiga, mais fiel às raízes, radical. A anterior ao tempo de Constantino.

Até que, finalmente, surgiu um homem, Angelo Roncalli , “il Papa Buono”, que convocou representantes de todo o povo de Deus, a verdadeira Igreja, os leigos, o papa, os bispos, sacerdotes e diáconos, para esclarecer este e outros temas de actualidade escaldante. Este encontro universal foi o Concílio Vaticano II, e o “Papa Buono” chamava-se João XXIII. Nele se cumpriu a profecia do grande teólogo contemporâneo, o dominicano francês Padre Congar: “O Papa não está acima da Igreja, o Papa está na Igreja”. Como o bispo de Digne (“Les Misérables”, Victor Hugo), o papa João XXIII, para melhor se encontrar com Cristo, tomou o atalho do Evangelho. Ensinou-nos também que o mandamento do amor – amai-vos uns aos outros – não é caridade mal interpretada, a caridade unilateral para com o objecto amado, mas o amor mútuo, recíproco.

O Papa Francisco também vive e nos mostra o mesmo atalho. Não prega os documentos da Igreja, mas a simplicidade do Evangelho. O que nos leva acima de todas as divisões e subdivisões que fragmentaram a Cristandade. Como se, por algum desígnio misterioso de Deus, fosse preciso dividir os cristãos para juntá-los de novo, numa unidade mais humana e mais fraterna. O programa iniciado por João XXIII é continuado pelo papa actual, Francisco de nome e de espírito. É a simplicidade da origem. Segundo os Actos dos Apóstolos, os que ouviram o discurso de Pedro, no dia do Pentecostes, foram logo baptizados, sem mais exigências. E Filipe baptizou o etíope, após uma instrução muito sumária. Muitas vezes, os que pretenderam proteger o Evangelho, mais não fizeram do que escondê-lo. Para salvaguardar, a todo o preço, a unidade visível, utilizaram-se, por vezes, meios não cristãos.

O que o Papa Francisco, nas pegadas de João XXII, pretende fazer é que, na grande árvore do Vaticano haja lugar para muitos ninhos de opiniões de homens e mulheres sinceros, que é um dos melhores caminhos para verdade. Respeitando a consciência de cada um, como já dizia o Cardeal Newman ao Papa do seu tempo: o vigário de Cristo para mim é a minha consciência.

Cada pessoa é a casa de Deus, repete o Papa Francisco. É bem o papa para o III milénio: mostra a Igreja como uma mãe carinhosa, que ajuda a libertar e a alimentar todos os povos oprimidos. Uma Igreja cósmica. A família universal também abarca a terra e todo o cosmos. A Evolução não tem nada de contrário à Biblia: é o rio humano da criação divina. Einstein ensinou-nos que ciência sem fé é coxa, fé sem ciência é cega.

Através do nosso mundo ferido, retalhado, desfigurado, desvenda-se um cenário de esperança, uma certeza fundamental: “Amamos este planeta em que Deus nos colocou, e amamos a famíiia humana que nele habita, com todos as suas tragédias e ambições”.

O sulco rasgado pelo Papa Francisco está-nos levando a um fórum ecuménico planetário.