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Editorial. A política como arte do impossível
Editorial Mundo 2 min. 10.07.2019

Editorial. A política como arte do impossível

Editorial. A política como arte do impossível

Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 10.07.2019

Editorial. A política como arte do impossível

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
Vendem-nos muitas vezes que a política é a arte do possível. E que qualquer acordo mediocre é melhor que uma divergência de princípios. É desta massa que é feita a atual Europa, em que se promete aos eleitores votarem os candidatos a presidente da Comissão Europeia, mas no fim, o Conselho Europeu resolve mandar fechar esse circo de ilusões e vender os lugares de poder à melhor licitação negocial.

Blanqui esteve preso 37 anos. Na sua última prisão, nas vésperas da Comuna de Paris, escreveu um enigmático texto chamado “A Eternidade Conforme os Astros”. Páginas esquecidas que o malogrado pensador Walter Benjamin comparava a Baudeleire. Aí o homem das muitas conspirações dos iguais remetia para um universo frio e infinito as possibilidades de novas formas de vida e sociedade que triunfassem onde a humanidade tinha tropeçado. “Saberão por certo que o céu obedece às leis da igualdade, e encontra em si mesmo os recursos para escapar à morte. Mas saberão que esse combate da vida contra a morte é um drama que não tem nem começo nem fim, que obriga os que o tomam como modelo a travar um combate indefinidamente repetido, e certo apenas quanto a uma coisa: que nenhum final feliz se encontra no fim do caminho”.


Tusk explica hoje ao Parlamento Europeu processo de nomeações, debate adivinha-se ‘quente’
O presidente do Conselho Europeu vai discutir hoje com o ‘novo’ Parlamento Europeu, em Estrasburgo, o processo de nomeações para os altos cargos da União Europeia, num debate em que deverá ouvir fortes críticas das diversas bancadas.

Vendem-nos muitas vezes que a política é a arte do possível. E que qualquer acordo mediocre é melhor que uma divergência de princípios. É desta massa que é feita a atual Europa, em que se promete aos eleitores votarem nos candidatos a presidente da Comissão Europeia, mas no fim, o Conselho Europeu resolve mandar fechar esse circo de ilusões e vender os lugares de poder à melhor licitação negocial.

Vivemos num mundo em que a paixão tem estado do lado errado da barricada.  

No livro de Slavoj Zizek, “A Europa à Deriva”, encontram-se duas citações da obra de Oscar Wilde, “A Alma do Homem e o Socialismo”: “É muito mais fácil ter-se simpatia para com o sofrimento do que ter-se simpatia para com o pensamento”, acrescentando-lhe uma outra passagem de Wilde em que este defende que o simples horror ao sofrimento e a caridade em relação à pobreza não fazem mais que prolongar as suas causas e aliviar a consciência dos responsáveis por essa situação. “Tentam, por exemplo, resolver o problema da pobreza mantendo os pobres vivos; ou, no caso de uma escola muito avançada, divertindo-os. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. O objetivo adequado é tentar reconstruir a sociedade sobre uma base em que tal pobreza venha a ser impossível. E as virtudes altruístas têm, sem dúvida, impedido a realização de tal desígnio”, conclui o autor de “A Importância de ser Ernesto”.


Ursula von der Leyen apresenta plano para a Comissão Europeia nos próximos 15 dias
Von der Leyen deverá entrar em funções funções a 1 de novembro, um dia depois de o Reino Unido sair da UE.

O drama é que populismos e fundamentalismos têm existido por bom motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats no “Segundo Advento”, “Aos melhores falta convicção, e aos piores / sobeja apaixonada intensidade”. Na sua célebre “Décima Carta”, o filósofo alemão Schelling dizia que a tragédia grega “honra a liberdade humana porquanto consente que os seus heróis combatam contra o poder desmedidamente superior do destino”, e concluía dizendo que “as impossibilidades e limites da arte” exigem a derrota do homem nesse combate. Mas essa derrota afirmaria em si a liberdade humana e as razões de uma revolta.