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É preciso uma intervenção externa para salvar a Amazónia?
Mundo 5 min. 21.08.2019

É preciso uma intervenção externa para salvar a Amazónia?

É preciso uma intervenção externa para salvar a Amazónia?

Foto: Andre Lucas/dpa
Mundo 5 min. 21.08.2019

É preciso uma intervenção externa para salvar a Amazónia?

Bruno Carlos AMARAL DE CARVALHO
Bruno Carlos AMARAL DE CARVALHO
Cidades inteiras às escuras no Brasil por causa de queimadas na Amazónia. Depois da Alemanha e Noruega congelarem ajudas à preservação da maior floresta tropical do mundo em resposta à inação de Jair Bolsonaro, revista norte-americana sugere, inclusive, intervenção militar internacional para salvar pulmão do planeta.

Podia ser o argumento perfeito para um filme apocalíptico mas aconteceu de facto esta segunda-feira em São Paulo, no Brasil. Milhões de pessoas não contiveram a estupefação com a nuvem que fez anoitecer a cidade por volta das duas da tarde na segunda-feira. As redes sociais foram prova disso mesmo com milhares de partilhas de fotografias que davam conta de uma metrópole completamente às escuras. 

Depois, veio a chuva negra. Apesar de algumas versões que tentavam afastar a hipótese de o fenómeno ter algo a ver com os incêndios que consomem uma larga extensão da Amazónia, o Instituto de Química da Universidade de São Paulo confirmou a presença de reteno, uma substância proveniente de biomassa queimada, na precipitação escurecida pela concentração de fuligem. Os valores detetados pela Universidade Municipal de São Caetano mostram que a água tinha sete vezes mais partículas deste tipo do que o normal. Mas para além do impacto do efeito visual, os meteorologistas alertaram também para os perigos da acumulação deste tipo de poluição no ar, sobretudo para a população mais vulnerável.

O Ministério Público Estadual está a investigar a origem dos incêndios mas Jair Bolsonaro já sugeriu possíveis culpados. De acordo com o Presidente do Brasil, as organizações não-governamentais (ONG) que intervêm na região para defender o ambiente são possivelmente responsáveis. Sem dar qualquer argumento que sustentasse tal tese o chefe de Estado diz o fazem para “chamar a atenção” contra o seu governo. “O crime existe, e isso aí nós temos que fazer o possível para que esse crime não aumente, mas nós tiramos dinheiros de ONG. Dos repasses de fora, 40% ia para ONGs. Não tem mais. Acabamos também com o repasse de dinheiro público. De forma que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro”, declarou o presidente à saída do Palácio da Alvorada ao ser questionado sobre a onda de incêndios na região.

Política de terra queimada

A verdade é que segundo dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazónia concentra 52,5% dos focos de queimadas de 2019 no Brasil. A Globo mostrou que o número deste tipo de fogos intencionais - 72 mil - aumentou 82% em relação ao mesmo período de 2018 e metade localiza-se precisamente na Amazónia. Os ambientalistas acusam Jair Bolsonaro de fazer regredir as políticas ambientais e de apoiar a desflorestação da Amazónia às mãos dos fazendeiros. 

Na semana passada, um grupo de agrários promoveram o “dia do fogo”, no sudoeste do Pará. Várias cidades ficaram também cobertas por densas nuvens de fumo. A ideia, segundo a Folha do Progresso, era chamar a atenção do governo. “Precisamos mostrar para o presidente que queremos trabalhar e único jeito é derrubando. E para formar e limpar nossas pastagens, é com fogo”, afirmou ao jornal um dos organizadores da manifestação. No dia 10 deste mês, a principal cidade da região, Novo Progresso, teve 124 focos de incêndio, um aumento de 300% em relação ao dia anterior. No domingo, deram-se 203 casos. Outra das cidades atingidas foi Altamira, com 194 casos no sábado e 237 no dia seguinte. O artigo da Folha do Progresso denuncia ainda que após a tomada de posse de Jair Bolsonaro o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) parou de fiscalizar as queimadas em Novo Progresso porque as intervenções deixaram de estar acompanhadas pelas forças de segurança.

Mas Novo Progresso não é exceção. O Inpe detetou 5253 queimadas entre 17 e 19 de agosto. Os fogos alastraram, entretanto, a outras regiões da Amazónia e chegaram à Bolívia, ao Peru e ao Paraguai. Este sábado, o aeroporto internacional de Viru Viru, na Bolívia, chegou a ser fechado devido à baixa visibilidade. O aumento da desflorestação da Amazónia e a inação do governo de Jair Bolsonaro levaram a que a Alemanha e a Noruega anunciassem na semana passada o congelamento das ajudas destinadas à preservação da maior floresta tropical do mundo com a maior reserva de biodiversidade do planeta.

Com o hashtag #PrayForAmazonia, milhares de utilizadores das redes sociais apelaram à intervenção imediata na região recordando que representa um risco para todo o planeta, uma vez que este autêntico pulmão vegetal produz 20% do oxigénio do mundo. 

Organizações como a Greenpeace denunciaram a situação e apontam o dedo ao presidente brasileiro. “Quem destrói a Amazónia sente-se alentado pelo discurso e ações do governo de Bolsonaro que, desde que assumiu o cargo, fez um verdadeiro desmantelamento da política ambiental do país”, afirmou Danicley Aguiar, porta-voz da organização no Brasil, através de um comunicado.

Salvar a Amazónia através de uma intervenção militar? 

Com as questões ambientais a assumirem cada vez mais importância para a opinião pública, mais consciente das consequências das alterações climáticas, há quem se questione se o principal pulmão verde do planeta deve correr o risco de desaparecer devido às políticas do atual governo brasileiro. A revista norte-americana Foreign Policy foi mais longe e lançou a pergunta: “Quem vai invadir o Brasil para salvar a Amazónia?”. De acordo com a publicação, é “uma questão de tempo” até que os líderes mundiais se dêem conta de que devem fazer “o que for necessário” para parar Jair Bolsonaro. Uma reportagem do Estado de S. Paulo afirma que “o texto do investigador Stephen M. Walt, da Universidade de Harvard, ressalta que 60% da Amazónia pertence ao Brasil e afirma que as políticas do presidente Jair Bolsonaro têm colocado em risco a maior floresta tropical do mundo, responsável por grande parte da absorção de carbono do planeta. Outro ponto levantado é como líderes mundiais, da União Europeia (UE) à Organização das Nações Unidas (ONU), têm colocado o combate à degradação ambiental no topo de suas prioridades nos últimos anos”. O artigo destaca a pergunta enunciada pela Foreign Policy e refere que “a questão, entretanto, é até que ponto a comunidade internacional estaria disposta a chegar para prevenir, alterar ou reverter ações que podem causar um dano imenso e irreparável ao clima do qual todos os humanos dependem?”, sugerindo que, num futuro próximo, inclusive uma ação militar seria aceitável nesse contexto.

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