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E depois do adeus
Mundo 8 min. 29.09.2021
Eleições na Alemanha

E depois do adeus

Eleições na Alemanha

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Eleições na Alemanha

E depois do adeus

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Após 16 anos de reinado de Merkel, a Alemanha acordou esta segunda-feira vulnerável, dividida. E confusa. Os alemães distribuíram os votos por todo o espectro político numa tentativa de eleger aquele que será o próximo governo da República Federal. As negociações pós eleitorais prometem ser duras e demoradas.

São quatro e meia da tarde em Berlim. Depois de vários dias pintados de nuvens escuras, o sol regressou à capital alemã. As temperaturas subiram aos 26 graus, os parques encheram-se. Este domingo, o clima deu um incentivo extra na afluência às urnas.

Rita Couto, jovem portuguesa a morar na Alemanha há quase uma década, está a sair do local onde foi exercer o seu direito de voto.“Vou ter de ir a casa e voltar. Disseram que tenho de trazer outro papel, este não basta. É a burocracia do costume”, comenta de ombros encolhidos. Na manhã do dia seguinte, mais calma,confessa ao telefone:”votei nos Verdes, porque têm uma mulher à frente e pelas circunstâncias (climáticas) em que estamos”.

Ao final do dia, o Partido Social-Democrata (SPD) seria considerado o vencedor das eleições parlamentares alemãs, que marcaram o fim da era de Angela Merkel, com 25,7% dos votos. Já a aliança conservadora CDU/CSU, liderada por Armin Laschet, conseguiu com 24,1% dos votos, o pior resultado da sua história. Os Verdes ficaram em terceiro lugar com 14,8%, seguidos pelo partido liberal FDP com 11,5%.

“Temos mandato para formar governo. Olaf Scholz tornar-se-á chanceler”, apressou-se a reagir no domingo à noite o secretário-geral do SPD, Lars Klingbeil. Pouco depois do encerramento das urnas, o candidato social-democrata Olaf Scholz disse que o resultado é um “sucesso”, que conseguiu o melhor resultado desde Gerard Schroder e que os alemães desejam-no para chanceler da Alemanha. Apesar da curta vantagem do SPD, os democratas cristãos (CDU) afirmaram que têm condições para formar governo, tudo dependendo das alianças que conseguir alcançar. “Nós vamos fazer tudo para podermos formar um Governo dirigido pela aliança CDU/CSU”, disse Laschet.

Ainda vai demorar até que as negociações entre partidos terminem, sobretudo com os Verdes e com os liberais do FDP. Em 2017, segundo a agência Lusa, as negociações com vista à formação do Governo prolongaram-se durante mais de 200 dias. Mas Olaf Scholz, líder do SPD disse esta segunda-feira que o processo de formação do próximo Governo vai ser rápido e que os alemães querem os democratas-cristãos na oposição. “Vamos ser rápidos. Vamos conseguir um Governo antes do Natal”, disse Scholz, numa conferência de imprensa na sede nacional social democrata, em Berlim.

Sven, engenheiro informático alemão na casa dos 40 anos comenta as eleições enquanto termina a sua refeição num restaurante vietnamita. “Eu votei o que a maioria deste distrito vota, Verdes. Para mim foi uma surpresa os Sociais Democratas (SPD) afastarem a União Democrata-Cristã (CDU) de cena, mas ao fim ao cabo eles são muito parecidos”.

No estado de Berlim, os Verdes conquistariam nas legislativas mais 8,5% dos votos do que em 2017, a CDU perdeu 5,8%. Mas a nível regional, nas eleições para o senado de Berlim, a vitória também foi dada pelo SPD, cuja candidata era a ex-ministra federal Franziska Giffey, um resultado não muito apreciado pelas gerações mais novas e progressistas. Em 2020, 55% da população berlinense tinha menos de 45 anos de idade, sendo que 32% de toda a população da capital alemã tinha idades compreendidas entre os 25 e os 45 anos.


“Ja” à expropriação
Em Berlim, são várias as reações às eleições deste domingo, mas a capital tem motivos para celebrar: o referendo para expropriar as propriedades de grandes empresas imobiliárias foi aprovado

Ryan della Sala, ativista argentina, artista performativa e membro da organização Midragntas, um projeto para ajudar migrantes queer nos seus processos de integração, lamenta o resultado de 4.9% e a perda de 30 lugares no Bundestag (parlamento alemão) pelo partido da Esquerda (Die Linke). “Isto não é nada bom. Porque eles costumam ajudar muitos ativistas, colectivos, latinos através da Fundação Rosa Luxemburgo”, comenta.

No extremo oposto, a Alternativa para a Alemanha (AfD) ficou em quinto lugar, quando em 2017 conquistou o terceiro e se transformou na principal força da oposição. “É um bom resultado para a democracia, mas tem um sabor agridoce. A AfD vai entrar pela segunda vez no Bundestag e, por isso, passará a receber financiamento para a sua própria fundação, a Desiderius Erasmus Stiftung. Todos os partidos parlamentares têm a sua própria fundação, e agora a extrema-direita terá a dela, um dos seus velhos sonhos”, escreve o jornalista de investigação Ricardo Cabral Fernandes, fundador do Setenta e Quatro e especialista no estudo da extrema-direita. “Tudo dependerá dos resultados finais, mas a AfD poderá receber pelo menos 80 milhões de euros. (...)Vai certamente ganhar uma nova relevância europeia”, lê-se na sua página de Facebook.


Colectivo de artistas engana extrema-direita alemã com empresa fictícia de distribuição de flyers
Uma empresa de distribuição de flyers fictícia conseguiu levar avante uma burla ao partido da extrema direita na Alemanha impedindo a distribuição de milhares de panfletos.

Constantin Baar, um alemão de Berlim des 28 anos, mostra-se desiludido com os resultados. “O meu irmão vota conservador, os meus pais votam ao centro. Sinto que as coisas não vão mudar muito. Esperava uma Berlim mais verde, ou até mesmo a Alemanha.Houve algumas mudanças, mas precisam de ser mais profundas. Mas os eleitores alemães são todos tão velhos...”, desabafa.

Mas a desilusão estende-se também a quem não é alemão e não pôde votar. “O resultado das eleições alemãs não aparenta conseguir responder às mudanças sociais e ecológicas que são necessárias hoje, tanto na Alemanha como no resto do mundo”, comenta Teresa Lorena Machado, de 25 anos que recentemente se juntou ao movimento municipalista de Berlim.

“Resta saber que forma tomará a agenda no que toca a assuntos como acolhimento e integração de pessoas refugiadas – assunto particularmente importante devido às atuais tensões no Médio-Oriente – ou à capacidade de realmente problematizar as alterações climáticas na esfera política internacional”. A coordenadora de projetos sociais considera “certo que a presença e peso dos Verdes na coligação terá implicações positivas na transição socio-ecológica necessária, mas a predominância do partido SPD implicará sempre um compromisso com a capitalização económica”.

Martyna Linartas, acordou esta segunda-feira com “um misto de sentimentos”. Nasceu na Polónia há 31 anos, mas a família mudou-se para a Alemanha quando tinha apenas dois. Está em Berlim desde 2014 e é estudante de doutoramento em Ciência Política. Em part-time, trabalha para os Verdes, partido do qual é membro.

“Por um lado, alcançámos o melhor resultado da História do partido. Os Verdes nunca chegaram aos 15%. Mas desde o início, afirmávamos que queríamos um chanceler verde, queríamos tornar-nos um governo climático, sendo o partido mais forte”, comenta adiantando que se encontra “seriamente preocupada”.

“Estou realmente a perguntar-me o que se passa com as pessoas. Mesmo na nossa vila, onde 130 pessoas morreram com o desastre das cheias, a maioria das pessoas votou no SPD e na CDU com cerca de 28% cada. Não compreendo isso”, desabafa. Quanto à possível coligação não podia ser mais clara: “agora vamos entrar em conversações de coligação com o SPD e a FTP, o Partido Liberal Democrático.

Ryan della Sala, da Midragntas considera que “não podemos ter justiça climática sem justiça social”. E adianta “isso é algo que os Verdes não consideram e talvez porque a Esquerda não cobriu o assunto do clima a sério, muitos dos eleitores votaram agora nos Verdes. Mas a agenda tem de se focar nas alterações climáticas de uma perspectiva interseccional”.

Para Gonçalo Gomes, jovem de 35 anos que mora na Alemanha há seis, “o grande vencedor é sem dúvida Olaf Scholz, que conseguiu ressuscitar o SPD”. Por outro lado, aponta que “a coligação CDU/CSU acaba a perder quase 9% o que é um péssimo resultado para ambos os partidos. Também é interessante ver que os extremos: Die Linke à esquerda e o AfD à direita, perderam bastante eleitorado. A Alemanha é um país moderado e quer moderados no poder”, comenta.

Trabalha como analista e gestor num banco, é natural de Lisboa e em 2019 foi o candidato do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) no círculo eleitoral da Europa, nas eleições Legislativas de 6 de outubro. Para Gonçalo, Angela Merkel, que não foi uma figura consensual no início, fez-se consensual através de uma “gestão forte, um enorme humanismo, capacidade de liderança, honestidade e diria até, bravura”.

Na sua opinião, foram três os momentos-chave na vida de Merkel enquanto Chanceler: a abertura da Alemanha a um milhão de refugiados, a crise financeira de 2008 e a manutenção da Europa pós-brexit. “Cada um destes momentos, por razões diferentes, mostrou um lado de Merkel, capaz de lidar com as maiores adversidades e isso ecoará na memória não só dos alemães, mas de muitos europeus e cidadãos do mundo”, escreve por e-mail.

Considera “difícil prever o que será a Alemanha pós-Merkel, neste cenário em que não sabemos com certeza quem e como irá liderar o país. A combinação de possíveis alianças é grande, mas não me admiraria ver uma coligação Social-Democrata/Verdes, aparecer de alguma maneira”.

Os desafios para o próximo governo “são enormes”: “uma economia pós-pandemia, se é que podemos falar em “pós-pandemia”; uma eventual nova vaga de refugiados, com todos os desafios políticos, sociais e económicos que isso traz; uma liderança europeia que precisa da Alemanha como guia e líder. Será interessante assistir, não só à nova configuração da liderança do novo governo, mas também aos escolhidos para liderar em cada uma dessas áreas, começando pela economia e negócios estrangeiros”, completa. 

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