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"É como estarmos mortas, apenas a respirar"
Mundo 10 min. 25.08.2021
Testemunhos

"É como estarmos mortas, apenas a respirar"

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"É como estarmos mortas, apenas a respirar"

Foto: AFP
Mundo 10 min. 25.08.2021
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"É como estarmos mortas, apenas a respirar"

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
São refugiados afegãos que vivem no Luxemburgo. Contam o que viveram e sentiram nestes dias em que os taliban retomaram o poder no Afeganistão. Por razões de segurança e para evitar eventuais represálias sobre as suas famílias mantemos o seu anonimato. Dizem que se a comunidade internacional nada fizer o país vai viver uma “catástrofe”.

Cada vez que ouve a sirene de um carro da polícia fica em sobressalto e pensa que os taliban estão a chegar. Quando ouve os vizinhos falar, por momentos, pensa que está a ouvir pashto e que os guerrilheiros fundamentalistas estão à sua porta. São pesadelos que vive acordada. Porque Sara, nome fictício, vive no centro da cidade do Luxemburgo, há três anos. Mas as memórias desta jovem de 27 anos, da infância e juventude, que passou no Afeganistão, estão tão presentes que, por vezes, chegam até si em pleno centro da Europa. Não usamos o seu verdadeiro nome, nem do seu marido, porque a organização humanitária que nos deu os seus contactos assim o pediu. “É essencial manter o anonimato, caso contrário os taliban poderão encontrar as suas famílias no Afeganistão”, explica uma das dirigentes desta organização. Já aconteceu no passado. Também não podemos dizer a sua província de origem porque é a única afegã dessa região no Grão-Ducado e facilmente seria identificada. O terror desta organização fundamentalista não tem fronteiras.

“Já não tinha um lugar seguro”

Sara veio para o Luxemburgo em 2018 “porque a insegurança foi ficando pior de dia para dia e já não tinha um lugar seguro para estar” por ser uma ativista dos direitos das mulheres. Conseguiu o estatuto de refugiada no Grão – Ducado.

Licenciada em Economia trabalhava para o ministério do Comércio afegão. “A situação era muito difícil e por isso decidi sair do Afeganistão. Embora os taliban não estivessem no poder na cidade, estavam sempre presentes”, descreve.

Sara trabalhava mas perdeu a conta às vezes que recebeu ordem dos seguranças para sair do edifício por ser mulher e não ser seguro estar no escritório por estarem em alerta de segurança. “Mesmo quando o exército norte-americano estava no país os taliban continuavam ativos. As pessoas não podiam viver em liberdade”, relata.

Uma cidade à beira da catástrofe

Imagens da televisão Al-Jazeera mostram membros dos talibã no palácio presidencial, em Cabul, após a tomada de poder no Afeganistão.
Imagens da televisão Al-Jazeera mostram membros dos talibã no palácio presidencial, em Cabul, após a tomada de poder no Afeganistão.
Foto: AFP

Nos últimos dias Sara e o seu marido João (nome fictício) viram um pesadelo tornar-se real. “A situação agora é muito mais perigosa”, relata João. “A amnistia geral que foi anunciada pelos taliban não é verdadeira. Há dois dias os taliban mataram sete pessoas da etnia hazaras e já tinham assassinado outras 12”. Quando lhe pergunto se acredita que os taliban estão diferentes não tem dúvidas em responder: “Não! Eles não mudaram! É só para enganar a comunidade internacional! Se fosse verdade porque é que eles mataram estas pessoas da comunidade hazaras? Eles estão a matar muitas pessoas e essas notícias não aparecem na televisão porque eles controlam os meios de comunicação social”, acrescenta.

“A situação é muito perigosa para as mulheres que participaram em atividades de defesa dos direitos das mulheres, para quem trabalhou com as organizações internacionais e também para as suas famílias”, sublinha . “Nos primeiros quatro dias que os taliban chegaram a Cabul as mulheres ficaram aterrorizadas e não arriscam sair à rua. Porque há vinte anos quando eles dominavam a cidade fizeram muito mal às mulheres”. A capital está um caos. “O sistema bancário está completamente bloqueado. Existem centenas de mulheres empreendedoras que perderam os seus negócios. Não têm dinheiro porque os bancos estão fechados e não têm comida porque o país está bloqueado. Estão todos em perigo. É um inferno! Se a situação continuar assim as pessoas vão morrer de fome porque tudo está parado. Em breve teremos uma grande catástrofe humanitária”, alerta João.

Mulheres estão fechadas em casa

Os taliban dizem que as mulheres “só podem sair à rua acompanhadas pelos maridos, pais ou irmãos e só podem mostrar os olhos”. João não tem dúvidas que será impossível para as mulheres trabalhar. “Eles dizem que as mulheres podem trabalhar, mas as regras que impõem tornam impossível fazê-lo. Se Sara quiser trabalhar, num escritório, por exemplo, tenho que estar presente. Mas não é permitida a presença de mais nenhum homem na sala em que ela trabalha. Mesmo na educação das raparigas eles anunciam que elas têm que aprender em edifícios separados e só podem ser ensinadas por mulheres, casadas. Como é que é possível imaginar que a população pobre do Afeganistão vá construir edifícios separados e contratar professoras casadas, se elas não existem em número suficiente? Infelizmente perdemos tudo para as mulheres e raparigas! É terrível!”, sublinha.


Vídeo. Afegãos entregam bebés a soldados pelo muro do aeroporto de Cabul
Desde a tomada de poder pelos talibãs que o caos se instalou no aeroporto da capital do Afeganistão, com uma multidão de pessoas a tentar sair do país.

Sara tem apenas um irmão e três irmãs. “Se todas as minhas irmãs quiserem sair de casa, para ir à escola ou à universidade têm que ir acompanhadas, mas apenas há um irmão por isso é impossível fazê-lo.”

A traição da comunidade internacional

João, diz que a “comunidade internacional deveria ter feito tudo diferente. Se estavam cansados de estar no Afeganistão deveriam ter começado a negociar com os taliban há muitos anos atrás, quando lá estavam centenas de milhares de tropas internacionais, e poderiam ter deixado que chegassem ao poder político, mas sem controlarem o poder militar. Há milhões de pessoas em risco. Neste momento eles já controlam os serviços de informação e sabem todos os que colaboraram com a comunidade internacional e podem ir a suas casas o que é terrível e muito perigoso. Podem encontrar qualquer pessoas em qualquer parte do mundo”, acrescenta este afegão que vive no Luxemburgo.

Sara tem conseguido falar todos os dias com a sua família, mas prevê que daqui a algum tempo será impossível porque os cartões de telefone estão esgotados no país. “Nem sequer consigo enviar dinheiro porque os bancos foram fechados. O Afeganistão está completamente bloqueado e daqui não conseguimos fazer nada para ajudar”, diz .


Caos no aeroporto de Cabul. 12 mortes confirmadas
O aeroporto da capital tornou-se o refúgio de milhares de pessoas que tentam, por todos os meios, abandonar o país, agora liderado pelos talibãs.

“A maioria das pessoas está desesperada e em perigo. Cabul tem capacidade para dois milhões de pessoas e neste momento estão sete milhões na cidade”, sublinha João. “A maioria deles são pessoas que estavam a trabalhar com as forças da comunidade internacional e que vieram de todo o país. É intolerável que as pessoas gozem com as pessoas que tentam sair do país agarrados aos aviões, porque têm que escolher entre uma morte fácil e uma morte terrível às mãos dos taliban. No passado os taliban apedrejaram muitas pessoas até à morte e todos receiam que possa voltar a acontecer. Mesmo que haja uma pequena esperança de conseguir fugir é melhor do que não ter nada”, desabafa.

O que é que podemos fazer? “Espero que o Luxemburgo ajude as pessoas que estejam verdadeiramente em perigo no Afeganistão trazendo-as para o país”, apela Sara.

“Os taliban tem uma forma muito fácil de saber quem colaborou, percorrem todas as ruas dando doces às crianças e perguntando em que casas vivem as pessoas que trabalharam com estrangeiros e assim descobrem-nos”, acrescente João.

Mulheres serão as mais atacadas

Sara começou a trabalhar como ativista dos direitos das mulheres porque viu “muitas mulheres a terem problemas com os radicais, que as proibiam de fazer atividades desportivas, de trabalhar, de cantarem e dançarem. Era muito difícil para as mulheres que não podiam fazer quase nada. Se eu conseguir ajudar duas, três ou dez pessoas tenho a responsabilidade de o fazer, mas não é fácil. Na minha província uma rapariga não podia fazer nenhuma atividade desportiva. Se uma ou duas raparigas começarem a fazer desporto as pessoas diziam que não eram muçulmanas.”

Agora com o regresso dos taliban ao poder tudo vai voltar ao passado.

Quanto ao quotidiano das mulheres no Afeganistão “está para além do que qualquer pessoa possa imaginar”, sublinha João.

“Quando estamos nessa situação em que não podemos fazer nada é como se apenas respirássemos, não é viver verdadeiramente. É como estarmos mortas e apenas respirar”, sublinha Sara. “Não podemos sair, não podemos fazer nenhuma atividade, não podemos estar ativas nas redes sociais, não podemos ouvir música, nem sequer chegar à janela”, acrescenta. “Para estas pessoas estúpidas e radicais só vir à janela já tem um significado. Estamos completamente destruídos e não consigo sequer imaginar como será para a minha mãe e para as minhas seis irmãs”, afirma João. E “não se trata apenas da minha família, são milhões de mulheres e raparigas que estão em causa. Ganhamos tantas coisas nos últimos anos, dos Estados Unidos e dos países da União Europeia, estamos tão agradecidos por esta ajuda, mas de repente perdemos tudo em três dias e voltámos cerca de vinte anos ao passado. As mulheres agora perderam tudo”.

“Se eu fizesse um grande esforço talvez conseguisse trazer a minha família para cá, mas e todas as outras que ficariam no país? O importante é mudar o país. Atualmente há um grande número de jovens que são ateus e quando forem reconhecidos podem ser mortos imediatamente”, alerta.

“Na província de Farah quando os taliban entraram na cidade começaram a correr e a matar pessoas sem sequer perguntarem nada, para que todos tenham medo e não façam nada”.


TOPSHOT - US President Joe Biden speaks about the Taliban's takeover of Afghanistan from the East Room of the White House August 16, 2021, in Washington, DC. - President Joe Biden broke his silence Monday on the US fiasco in Afghanistan with his address to the nation from the White House, as a lightning Taliban victory sent the Democrat's domestic political fortunes reeling. (Photo by Brendan Smialowski / AFP)
Biden diz que "caos" após retirada das tropas era inevitável
Em entrevista ao canal ABC News, o Presidente americano revelou que os militares dos EUA podem permanecer no Afeganistão depois de 31 de agosto.

Sentem-se traídos pela comunidade internacional porque “esta não é a forma de fazer as coisas: criar uma jovem democracia, criando esperança nas pessoas e de repente dizerem que se vão embora, porque estão cansados. Então porque vieram para o nosso país? Quando assisti à conferência de imprensa do presidente Joe Biden esperava que ele assumisse a responsabilidade e pedisse desculpa pelo erro e anunciasse novas ações para assegurar a segurança das pessoas. Fiquei surpreendido porque nada disso aconteceu e com o facto de ele ter dito que a missão era retirar a al- Qaeda, mas eles continuam a ter uma forte presença no Afeganistão. Se a missão era apenas matar Osama bin Laden, não havia necessidade de enviar tropas, nem gastar triliões de dólares. Agora deixam tudo para trás. Sentimos que fomos esquecidos pela comunidade internacional.” E o problema não será apenas no território do Afeganistão. “Quem sabe o que podem fazer a outros países como já fizeram no passado?, questiona.

Quanto à conferência de imprensa dos taliban diz que “mentiram da primeira à última palavra, dizendo que estavam mudados, que as mulheres poderiam trabalhar e que a imprensa e as minorias teriam liberdade, pedindo às pessoas que não deixassem o Afeganistão. Mas isto é só para enganar os media e a comunidade internacional. Porque quando as câmaras se desligam eles vão de rua em rua à procura das pessoas que trabalharam para as organizações internacionais e as mulheres ativistas para as matar. Se eles estivessem a dizer a verdade porque é que mataram vinte pessoas da etnia hazaras”, acrescenta. “Eles pararam um homem na rua e perguntaram-lhe o nome e mal se aperceberam que era da etnia hazara mataram-no. Esta é a realidade. Eles nunca mudarão. O nosso último presidente Ashraf Ghani a única frase verdadeira que disse foi:” Sim os taliban mudaram. Tornaram-se piores e mais radicais.”, sublinha João.

“Porque eles esperaram durante vinte anos o que fez com que ficassem furiosos e com uma raiva interior que agora têm que pôr cá para fora matando as pessoas e fazer tudo o que querem. É um regime bárbaro, como se viva há 300 anos, como se estivéssemos a viver no ambiente da Guerra dos Tronos. Não há lei nacional. Em cada região há um comandante que toma todas as decisões”, afirma João. “Eles destruíram os sonhos de milhões de afegãos”.

Neste momento, depois de trabalhar em diversos projetos para ajudar refugiados, João, 28 anos está a relançar um restaurante na capital luxemburguesa, que tinha começado a funcionar pouco antes do confinamento e, que na altura, teve que encerrar.

Sara está a aprender línguas e quer fazer um mestrado em economia na Universidade Luxemburgo. Já existe uma pequena comunidade de afegãos no Luxemburgo, que cresceu a partir 2015.

Sara diz que não pode regressar ao país, porque a sua vida está em risco. Só por terem saído para viver num país não muçulmano podem ser mortos.

Mas João espera que a comunidade internacional faça alguma coisa para que o regime mude e possa, um dia, regressar à sua terra natal. 

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Gustavo Carona, médico anestesista e intensivista no Hospital de Matosinhos, correu o mundo em missões humanitárias. Esteve no Afeganistão em diferentes momentos. O acontece actualmente não o surpreende, apenas a forma. O futuro parece condenar este país às trevas do passado. Onde ficam os direitos humanos? Noutro lugar.
As imagens arrepiantes de pessoas a tentarem pendurar-se em aviões a levantar voo no aeroporto de Cabul são apenas um dos sinais do desespero que está instalado no Afeganistão.