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Diversidade alimentar no mundo é cada vez menor
Mundo 3 min. 15.01.2020

Diversidade alimentar no mundo é cada vez menor

Diversidade alimentar no mundo é cada vez menor

Foto: AFP
Mundo 3 min. 15.01.2020

Diversidade alimentar no mundo é cada vez menor

Estudo que acompanhou a evolução dos hábitos alimentares durante meio século nos vários continentes concluiu que o que se come é cada vez mais igual nas diferentes regiões do mundo.

Em 2002, a McDonald’s abandonava a Bolívia depois do fracasso nas vendas dos seus produtos naquele país sul-americano. Com uma forte cultura ancestral ligada à natureza, os bolivianos encaram a comida como um ritual que conecta o ser humano às suas raízes. Em 2017, o La Vanguardia explicava que a sociedade daquele país não assume a alimentação como algo que se possa realizar de forma rápida e que a derrota da estratégia da multinacional norte-americana que tem 36 mil lojas em todo o mundo era de esperar num país em que a cozinha é algo que se vive com paixão.

Mas o fracasso da McDonald’s na Bolívia é a antítese do que se passa no resto dos países com uma alimentação cada vez menos diversa e cada vez mais homogénea. Esta é a conclusão de um estudo citado pelo El País que foi publicado na revista científica Nature e que mostra uma crescente convergência entre o que comem as populações da América do Norte, da Europa e da Ásia Oriental. Na China, por exemplo, com a redução da pobreza, o consumo de carne aumentou oito vezes. As mudanças têm sido mais tépidas no Sudeste Asiático e na América Latina. Em África, especialmente na África subsariana, as pessoas ainda comem tão pouco e tão mal como há 50 anos.

Esta investigação a cargo de um grupo de cientistas trata os dados sobre o consumo de 18 grandes grupos alimentares em 173 países entre 1961 e 2013. A maior parte da informação analisada provém de relatórios alimentares produzidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. As conclusões do estudo, agora publicadas na Nature Food, mostram grandes mudanças ao longo de cinco décadas na maioria dos países.

"Parece haver uma convergência parcial na dieta global", afirmou ao El País o investigador da Universidade de Kent, no Reino Unido, James Bentham. "Caracteriza-se por um consumo relativamente maior de alimentos animais (carne, leite, ovos...) e açúcares, mas também por um consumo crescente de vegetais", acrescentou.

O estudo revela ainda que existem duas tendências que coexistem de forma paralela. Nos países densamente povoados do leste asiático, com uma alimentação tradicionalmente baseada em vegetais, tem havido um crescimento explosivo no consumo de carne. O caso mais proeminente é o da China. A proporção de quatro grupos alimentares em 1961 era a seguinte: 57% da dieta de cereais, 21% de raízes ricas em amido, como a batata, 2% de carne e 1% de açúcares. Até 2013, a mudança foi dramática: os cereais, particularmente o arroz, representam 47% da dieta, os tubérculos caíram para 5%, a carne subiu para 16% e os açúcares duplicaram.

Por outro lado, nos Estados Unidos, onde o consumo de carne é ainda elevado houve uma redução de produtos à base de carne em quase 20%. Na verdade, a maior redução relativa na proporção de carne e, paralelamente, a maior crescimento do consumo de legumes verifica-se em seis países anglo-saxónicos embora esta seja uma tendência global.

"Países como os EUA e o Reino Unido afastaram-se do consumo extremamente elevado de carne, ovos e leite, embora ainda tenham uma dieta que provoca obesidade. Entretanto, a China passou de uma dieta que causava desnutrição para uma dieta que gera sobrenutrição, aumentando assim rapidamente as taxas de obesidade. Como resultado, o índice de massa corporal média dos homens chineses subiu de 19,8 em 1975 para 24,8 em 2016, de acordo com o projeto de pesquisa de saúde NCD-RisC envolvendo alguns dos autores do estudo.

As três principais regiões onde menos mudanças houve são o Sudeste Asiático, onde a dieta alimentar ainda depende de cereais, particularmente do arroz, ou a maior parte da América Latina, onde predominam os tubérculos amiláceos. Mas é a África subsariana que vive uma realidade dramática onde a única mudança, como sublinham os autores do estudo, foi para pior: “Agora têm problemas tanto com a desnutrição como com a sobrenutrição. Portanto, enquanto muitos não têm nada para comer, outros absorvem calorias suficientes ou em excesso, embora de má qualidade.

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