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Diários do pré-covid. Ganga, o rio da morte
Opinião Mundo 5 min. 08.10.2020

Diários do pré-covid. Ganga, o rio da morte

Diários do pré-covid. Ganga, o rio da morte

Foto: dpa
Opinião Mundo 5 min. 08.10.2020

Diários do pré-covid. Ganga, o rio da morte

"‘No photos’, exigiu um ancião que se oferecia, da margem, para nos guiar entre os cadáveres. ", uma viagem pelo rio mais sagrado indiano, relatada pela escritora Filipa Martins.

- Namastê, respondemos.

O rapaz de olhos grandes tocava-nos com as pontas dos dedos, impondo o cesto de plástico encostado à anca. As velas acomodadas em flores laranjas, numa alcofa de folhas secas, são vendidas aos turistas a cinco rupias, duas depois de regatear, e acesas a bordo dos barcos que navegam ao longo da margem do Ganges, durante as cerimónias do início do dia. 

As águas do rio, vindas das enormes montanhas dos Himalaias, têm nascente no Tibete, atravessam o norte indiano e unem-se ao Rio Bramaputra, formando um gigantesco delta na Bacia de Bengala. Assim reza a geografia, as crenças dos hindus são outras. Aquele é um rio sagrado, venerado na forma da deusa Ganga, e as águas pardas já mencionadas no Rigveda, a mais antiga das escrituras hindus, fazem milhões de peregrinos virem a Varanasi em busca da expiação de pecados. A cidade acolhe-os debruçada sobre o rio; o casario de luxo abandonado cresce em escada com desmazelo e à sombra dele toma-se banho, ora-se e morre-se.

O nosso barqueiro tinha um bigode fino e aparado, calças claras e camisa listada e limpa e, na proa do seu pequeno bote, os pés descalços sobre a madeira, figurava como um navegador quinhentista. Negociou a viagem de uma hora ao longo dos ghats, os degraus que ladeiam a margem, com a segurança de um homem de negócios, sem mendigar. Postura erecta, preços fixos, cem rupias até ao ghat da cerimónia, paragem no crematório principal, mais cem rupias para o regresso. Como nós, outros estrangeiros acomodavam-se nos barcos, que largavam as amarras com o automatismo das diversões de feira.   

O nevoeiro do amanhecer baixava sobre os corpos que entravam na água do rio. Um homem repousava ao vento com o tronco ensaboado e os olhos negros contornados pela espuma branca. À passagem dos turistas, acenava. Outros emergiam e submergiam numa contínua oração. Esfregavam-se com energia na água suja e opaca, com atenção aos dentes, às axilas e aos lóbulos das orelhas. As mulheres procuravam conter o espernear das crianças no primeiro contacto com a água gelada e ensaboavam as costas umas das outras com dedicação. Os mais velhos mergulhavam nus, numa consciente indiferença perante os flashes e as objetivas apontadas. Um deles desenhava a pente a barba ruiva, outro analisava o rosto ao espelho, antes do primeiro toque da navalha na pele. Muitos, munidos de cântaros, canecos, garrafas, bidões, levavam consigo a água sagrada do Ganges, purificadora de almas. Dela beberão, dela darão de beber aos filhos e aos familiares à beira da morte, com ela irão cozinhar alimentos ou apenas fazer negócio nas muitas bancas de venda ao longo da margem. Indiferentes, é certo, aos cadáveres deitados, todos os dias, nas águas e aos pequenos ribeiros de excrementos que correm entre o casario até ao rio.

‘Varanasi é a cidade da Índia mais sagrada para os hindus’, o nosso barqueiro tinha um inglês pobre e atabalhoado, ‘acreditamos que quem morre no Ganga terá uma vida melhor na próxima reencarnação’.

Mais à frente, o congestionamento de barcos, tão juntos que os remos se tocavam e os miúdos saltavam, de proa em proa, apetrechados de velas e missangagem na esperança da venda aos turistas. Estávamos prestes a atracar junto ao crematório principal. Pequenas piras consumiam-se quase apagadas, decalcando ossadas ainda incandescentes.  

‘No photos’, exigiu um ancião que se oferecia, da margem, para nos guiar entre os cadáveres. 

Desembarcámos numa encosta de cinzas. Rapazes novos amontoavam os restos mortais de forma mecânica e os cães rosnavam na disputa de ossos queimados, uma bacia feminina ou um peito de homem que, por não arderem completamente, são atirados ao rio. O fogo sagrado era alimentado por barrotes, num altar cimeiro ladeado de pilhas de lenha. Por perto, corpos seminus repousavam exangues ou adormecidos. A dúvida leva os homens a vararem os indigentes deitados nos gahts, durante o período das peregrinações, separando os vivos dos mortos. 

Há regras na morte. A comoção não tem lugar. As mulheres estão proibidas de assistir às cerimónias de cremação porque, ao chorarem, impedem que a alma do morto encontre a paz. Apenas uma rapariga sentada junto às piras escrevia, distraída, uma mensagem no telemóvel. Antes de serem cremados, os corpos são lavados nas águas e colocados a escorrer nas margens. O parente que acende a pira tem por tradição a cabeça totalmente raspada em sinal de luto e, no final da cerimónia, os familiares devem tomar um banho no rio. As crianças até aos cinco anos de idade, os brâmanes, as mulheres grávidas, pessoas que morram picadas por cobras, os tuberculosos e os sacerdotes não são cremados. Em vez disso, são amarrados a uma pedra e atirados às águas. Soltos das amarras, os corpos aparecem à superfície e nas margens as carcaças são devoradas pelos cães, matilhas pouco organizadas que vigiam as escadarias. 

Avistámos o barqueiro, que nos esperava. A promessa de duzentas rupias tornava-o paciente. O sol já estava forte, apesar de encoberto, e aos nossos pés dois homens peneiravam as cinzas em busca de jóias esquecidas pela família dos defuntos ou dentes de ouro. Um vento forte trazia o cheiro a incenso e atiçava as bravas que carbonizavam os membros. De volta ao bote, sacudimos das roupas a morte e chorámos. Ao fundo, os mantras repetidos entre muitos sinos.


  

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