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Desculpem o espetáculo da ajuda humanitária, a guerra vai começar
Mundo 6 min. 25.02.2019

Desculpem o espetáculo da ajuda humanitária, a guerra vai começar

Desculpem o espetáculo da ajuda humanitária, a guerra vai começar

Foto: AFP
Mundo 6 min. 25.02.2019

Desculpem o espetáculo da ajuda humanitária, a guerra vai começar

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O líder da oposição pediu que a comunidade internacional não negasse à partida uma invasão da Venezuela e o vice-presidente dos EUA anuiu que era hora de agir. Há uns dias, Mike Pence avisou também que havia combatentes do Hezbollah na Venezuela e que os americanos tinham de se proteger

Há semanas, como revela o site de investigação norte americano The Intercept, que aviões militares do EUA têm aterrado na Colômbia, perto da fronteira com a Venezuela, usando como cobertura a chegada de “ajuda humanitária” para os venezuelanos.

Trata-se de 20 milhões de dólares de ajuda, fornecida sobretudo pelos EUA, para ser entregue pelo auto-proclamado presidente interino Juan Guaidó. Uma ação humanitária que mereceu o seguinte comentário do ministro dos Negócios Estrangeiros da Venezuela, Jorge Arreaza, na Assembleia da Organização das Nações Unidas: “ O custo do bloqueio [imposto pelos EUA e a UE à Venezuela] é de 30 mil milhões de dólares e o valor da alegada ajuda humanitária é de 20 milhões de dólares. O que é isto? Agredimos, matamos e depois damos-vos um biscoito. É isso que parece que nos andam a fazer”.

Dia 23 de fevereiro foi a data escolhida pelo o auto-proclamado presidente para forçar a entrada dos camiões no território da Venezuela. Depois de uma verdadeira batalha campal que opôs militantes chavistas, milícias e polícia a ativistas da oposição, o balanço é, segundo as autoridades colombianas e a oposição, de mais de 300 feridos e quatro mortos. A oposição também garante que mais de 150 soldados e polícias venezuelanos terão desertado. Um número, no entanto, sem nenhuma confirmação por fontes independentes.

A batalha da ajuda humanitária foi construída há semanas, para daí resultar um desabar do apoio militar ao atual governo da Venezuela ou criar um cenário que justifique perante a opinião pública mundial uma intervenção militar externa na Venezuela.

“É necessário observar como evoluem os confrontos nos próximos dias, e notar se há deserções em massa das forças armadas”, comenta, ao Le Monde, Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio-Vargas de São Paulo.

Para preparar o clima, durante semanas fontes oficiais dos EUA passaram notícias a falar de uma ponte bloqueada, a Simon Bolivar, para impedir a chegada da ajuda humanitária, escamoteando o facto dessa ponte nunca ter estado em funcionamento, desde a sua construção em 2014, e a poucos quilómetros existir uma ponte que estava aberta. E também que nunca o governo dos EUA pretendeu combinar com o governo da Venezuela a entrada desta “ajuda” no seu território.

A batalha de 23 de fevereiro, para além das vítimas reais, foi uma batalha de propaganda que deixa antever ainda mais vítimas reais. Oposição e governo acusam-se mutuamente de terem começado os atos violentos. Guaidó afirma ser criminoso um governo “usurpador” que queima comida quando o povo passa fome, a televisão governamental passa imagens em que se vê os encapuzados da oposição a incendiarem os camiões no lado colombiano da fronteira. Numa guerra, como dizia alguém, as primeiras vítimas são os factos.

O líder da oposição Juan Guaidó, que encontrou-se na segunda-feira com o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, apelou para que a comunidade internacional considerasse “todas as opções” para derrubar Nicolás Maduro do poder. “Os acontecimentos de hoje [sábado] obrigam-me a pedir à comunidade internacional que mantenha todas as opções em aberto para a libertação da nossa pátria”.

A escalada oratória foi acompanhada por vários responsáveis dos EUA, com o conselheiro de Segurança dos EUA, John Bolton, a afirmar que brevemente Maduro estaria “retirado” na prisão americana de Guantánamo, em território cubano.

No dia 24 de fevereiro, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, acentuou o tom das trombetas da guerra: “estou certo que, graças aos venezuelanos, os dias de Maduro estão contados”. Uma declaração para dizer que se vive uma contagem decrescente para a invasão, poucas semanas depois de ter declarado, à Fox News, ter provas da presença de combatentes do Hezbollah libanês na Venezuela, e que os EUA “tinham o dever de se proteger”.

O velho objectivo dos EUA e a herança pesada de Maduro

Não é a primeira vez que os EUA tentam derrubar os chavistas do poder. “Já em 2002, tinha ocorrido algo semelhante, quando os Estados Unidos apoiaram e reconheceram um grupo de extrema-direita que depôs Chávez, tendo a legalidade democrática sido reposta de imediato pelos militares, acompanhada por uma imensa mobilização popular”, escreveu recentemente o major general português Carlos Branco, militar com missões e comandos na ex-Jugoslávia, Iraque e Afeganistão.

A diferença é que Chávez tinha um capital de esperança e um apoio popular que de longe o atual presidente venezuelano não tem.

Maduro perdeu as eleições para a Assembleia Nacional, tendo ganho as eleições presidenciais, em maio de 2018, com mais de 67% dos votos expressos, que à partida nem EUA nem a UE reconheceram.

O período em que Chávez governou (1999-2013) conseguiu-se uma importante redução da pobreza e o produto interno bruto (PIB) passou de 92 mil milhões de dólares para 482 mil milhões de dólares. O que pode explicar que os chavistas ganharam, nestes 20 anos, 21 das 23 idas às urnas que ocorreram até hoje.

A baixa do petróleo, a crise financeira mundial, o bloqueio económico dos EUA e a gestão de Maduro deixaram como herança uma situação bastante pior. Em 2018, a Venezuela registou o seu quinto ano de recessão económica, com uma contração do PIB que atingiu os 18%, depois de uma queda de cerca de 13% em 2017. O Estado venezuelano não publica dados económicos desde 2015.

Mas calcula-se que, entre 2014 e 2017, a contração do PIB terá atingido 30%, um afundamento da economia comparável à Grande Depressão dos anos 30 nos EUA.

O número de venezuelanos que abandonaram o país é hoje superior a 2,7 milhões de pessoas numa população de cerca de 32 milhões de pessoas.

Mas como relembra o major general Carlos Branco, “o catalisador específico da atual crise foi o telefonema do vice-presidente Mike Pence a Juan Guaidó, manifestando-lhe apoio caso este se autoproclamasse Presidente da República interino, o que aconteceu no dia seguinte, aplaudido de imediato por Washington”. “Para chegarmos onde chegámos na Venezuela concorreram vários fatores. Um observador neutral não pode alijar a responsabilidade de Maduro pelas políticas erradas que deterioram a economia do país e a conduziram ao estado conhecido, mas também não pode omitir as consequências desastrosas provocadas pela redução do preço do petróleo – sobretudo a partir de 2014 – e pelas sucessivas sanções económicas impostas pela Administração Obama, agravadas por Donald Trump. Os desenvolvimentos políticos no Brasil, agora amigo de Washington, terão contribuído decisivamente para que a crise tenha deflagrado nesta altura e não antes”.

Como conclui o militar português, “embora os argumentos para justificar a ingerência na política interna venezuelana se revistam de uma fraseologia benigna (restaurar a democracia, exterminar a tirania, etc.), o que está em causa, como no passado, é a preservação da hegemonia da grande potência”, num país que tem as maiores reservas de petróleo do planeta.

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