Escolha as suas informações

Dentro da grande fortaleza americana na Europa

  • O centro das operações
  • Cuidados intensivos
  • Esta vida americana
  • Amores errantes
  • Marcas em volta
  • O centro das operações 1/5
  • Cuidados intensivos 2/5
  • Esta vida americana 3/5
  • Amores errantes 4/5
  • Marcas em volta 5/5

Dentro da grande fortaleza americana na Europa

Dentro da grande fortaleza americana na Europa
Reportagem exclusiva

Dentro da grande fortaleza americana na Europa


04.11.2022

O sargento-chefe Ricardo Galván, mestre de carga do 37º Esquadrão de Transporte Aéreo, mais conhecidos como Blue Flies, ou As Varejeiras.Foto: Rui Oliveira

Em linha reta, a maior cidade americana no estrangeiro não dista mais de 100 quilómetros do Luxemburgo. É aqui que fica a base aérea de Ramstein, enclave militar dos EUA na Alemanha. Viagem ao mundo que o Tio Sam construiu aqui ao lado, no preciso momento em que a guerra está de volta à Europa.

RICARDO J. RODRIGUES (texto) E RUI OLIVEIRA (fotos), em Ramstein

A capitão Emma Quirck e um C-5, os maiores cargueiros da Força Aérea dos EUA.
A capitão Emma Quirck e um C-5, os maiores cargueiros da Força Aérea dos EUA.
Foto: Rui Oliveira

Emma Quirck, 26 anos, é bem capaz de apostar que poucas pessoas gostem tanto de viver em Ramstein como ela. “Os meus pais também eram filhos de militares, como eu. Eles conheceram-se aqui quando estudavam no liceu. Casaram-se e fizeram uma comissão em Ramstein, por isso vivi neste lugar dos 10 aos 12 anos. E sempre quis voltar à Europa”, diz a capitã da 521ª Asa de Operações de Mobilidade Aérea dos Estados Unidos. “Cheguei há um ano, só eu e a minha cadela, e foi a melhor coisa que fiz. Adoro estar aqui.”

Quirck é um dos 54 mil cidadãos norte-americanos que vivem no entorno de Kaiserslautern – e que todos na região tratam por K-Town. Mais de metade deles são militares, os outros vieram por arrasto. Esposas e filhos, civis que providenciam serviços à base, trabalhadores de empresas que se instalaram neste lado do Atlântico para trazer o gosto de casa a toda esta gente. Mas, no centro de tudo, estão as tropas – e em nenhum outro lugar elas são tão visíveis como aqui. Num raio de 20 quilómetros há guarnição do Exército em Kaiserslautern, o hospital militar em Landstuhl e a base aérea de Ramstein, que é a maior estrutura militar dos EUA fora do país.

A unidade da capitã Quirck é responsável pelos grandes cargueiros que estão estacionados em Ramstein, os C-5 (os maiores de todos, e que os militares tratam por Fred) e os C-17 (cuja alcunha é Horse, ou Cavalo). São Boeings militares de transporte de carga, e é essa a vocação da Base Aérea de Ramstein. Se é preciso levar tropas, armas, material médico ou assistência humanitária para algum lado, é daqui que ela descola. Mas a 521ª Ala de Operações de Mobilidade Aérea é apenas um esquadrão forasteiro, que também tem assento aqui. Os anfitriões de Ramstein são a 86ª Ala de Transporte Aéreo.

“Somos o quartel-general da Força Aérea americana para todos os assuntos que se passem na Europa, em África e no Médio Oriente”, diz o coronel Robert Firman, que é a voz dos donos da casa. “Não nos tem faltado trabalho nos últimos anos”, graceja. “Mas não podemos deixar de dizer que andámos tanto tempo a fazer da China a nossa prioridade e depois veio a realidade mostrar-nos que não podemos deixar de olhar para a Europa. Veja-se o que se passa neste momento com a invasão russa da Ucrânia.”

O coronel Robert Firman é a voz de Ramstein. Tem raízes luxemburguesas - e um enorme sentido de humor.
O coronel Robert Firman é a voz de Ramstein. Tem raízes luxemburguesas - e um enorme sentido de humor.
Foto: Rui Oliveira

Firman não quer dar uma voz demasiado americana à guerra que corre hoje a Leste. “Qualquer ação dos Estados Unidos decorre inevitavelmente no quadro da NATO, e é segundo essas ordens que estamos a operar”, diz o coronel Firman. Há um outro facto que não deixa de ser verdade: é que o comando aéreo da Organização do Tratado do Atlântico Norte também tem sede em Ramstein. “A NATO não está envolvida no conflito mas apoia o lado ucraniano com armamento, logística e partilha de informações”, explica Firman. “É nisso e nada mais do que isso que Ramstein está envolvida, o que não quer dizer que não tenhamos muitos outros trabalhos em mãos.”

Quando se começa a perceber todas as operações que decorreram ao longo das décadas em Ramstein, compreende-se a sua importância. A Base tem afinal 70 anos de história, foi levantada a seguir à II Guerra Mundial, foi um ponto central de alguns dos mais importantes conflitos a que o planeta assistiu. A guerra do Golfo e a do Kosovo, a invasão do Iraque, a mobilização e evacuação de tropas para o Afeganistão passaram todas por aqui. Nestes 12 quilómetros quadrados de terra, decide-se grande parte do mundo.

1

O centro das operações
Copiar o link


Reunião de uma das tripulações de Ramstein, antes do embarque.
Reunião de uma das tripulações de Ramstein, antes do embarque.
Foto: Rui Oliveira

Do lado materno, a família do coronel Firman tem raízes luxemburguesas. “Eram agricultores extremamente pobres, que emigraram para o Minnesota no início do século XX. Chamavam-se Schmidt”, conta. Nas várias comissões que tem feito em Ramstein, aliás, o militar teve oportunidade de investigar as origens e conhecer alguns primos que sempre viveram na capital do Grão-Ducado. “Toda a gente aqui vai visitar o Luxemburgo a uma altura ou outra. Está apenas a uma hora e meia por estrada e é um lugar verdadeiramente encantador. Mas também há outra coisa importante que nos faz ir lá. O ano passado, a importância dos armazéns da NATO em Sanem foi fulcral, por exemplo”, diz a alta patente da Força Aérea.

Com a retirada das tropas americanas do Afeganistão em 2021, milhares de refugiados tiveram de ser evacuados de Cabul e, antes de seguirem rota até aos Estados Unidos, o ponto de paragem era precisamente Ramstein.

O coronel Robert Firman lê o Contacto no seu gabinete em Ramstein.
O coronel Robert Firman lê o Contacto no seu gabinete em Ramstein.
Foto: Rui Oliveira

“De repente, e num curtíssimo espaço de tempo, tivemos de evacuar 34 mil pessoas em absoluta aflição. De um dia para outro, tivemos de montar uma cidade que acolhesse toda este gente na nossa base”, lembra Firman. A Operação Allies Refuge começou a 15 de agosto, assim que a capital afegã caiu nas mãos dos Talibã. Nas duas semanas seguintes, com o aeroporto de Cabul cercado e os militares americanos a terem de reforçar o contingente militar, milhares de intérpretes, funcionários de embaixadas, afegãos com pedidos de asilo e vistos aprovados para embarcarem para os Estados Unidos, partiram em desepero. Há um consenso entre os militares que estavam nessa altura na base: se recolher toda essa gente foi tarefa dura, acolhê-la não foi menos complicado.

O Luxemburgo deu uma boa ajuda. De Sanem vieram 520 enormes tendas, e em cada uma delas cabiam 26 almas. Também vieram fogões e sistemas de aquecimento, e a montagem da nova cidade de Ramstein aconteceu em tempo recorde. “Lembro-me que gastávamos 200 mil garrafas de água por dia, o que dá bem para ter uma ideia do que estava a acontecer aqui”, diz o coronel.

Esses dias também ficaram marcados na cabeça do sargento-chefe Ricardo Galván, mestre de carga do 37º Esquadrão de Transporte Aéreo, mais conhecidos como Blue Flies, ou As Varejeiras. “As pessoas pensam muitas vezes que estamos concentrados no transporte de soldados e armamento, mas poucas coisas nos marcam mais do que o socorro daqueles que estão verdadeiramente aflitos. Aí percebemos logo que estamos a mudar o mundo”, diz.

Galván guia o caminho para a pista e entra num dos Boeing C-130, cuja alcunha é Hércules, que o seu Esquadrão opera. É ele que define as equipas que viajam para cada missão. “Chegamos a levantar 20 aviões por dia e é normalmente em situações humanitárias que isso acontece”, explica. Provavelmente por isso, os dias afegãos ainda lhe estão bastante vivos na cabeça. Quando a carga é humana, um Hécules tem capacidade de transporte de 150 passageiros, em média. Naqueles dias, os aviões descolaram de Cabul com mais de 800 pessoas a bordo.

“Vinham mulheres grávidas, houve um parto a bordo, vinha gente ferida e muita gente desesperada”, recorda ele. “Aterrar aqui era um alívio.” Os refugiados passavam por um processo de triagem. Alguns eram alojados nas grandes tendas vindas do Luxemburgo, esperavam pela papelada e pela boleia que os levasse em definitivo para solo americano. Outros seguiam caminho para o grande hospital militar que existe aqui ao lado. Em todo o lado, era uma roda viva.

2

Cuidados intensivos
Copiar o link


Flyn Benjamin Funck tinha nascido há menos de 24 horas quando uma equipa de enfermeiros entrou na sala para fazer os exames de rotina.
Flyn Benjamin Funck tinha nascido há menos de 24 horas quando uma equipa de enfermeiros entrou na sala para fazer os exames de rotina.
Foto: Rui Oliveira

Os corredores do Hospital Militar dos EUA em Landstuhl andam calmos por estes dias. É um enorme edifício construído em 1953 e que alberga dois mil funcionários, entre médicos, enfermeiros e auxiliares. É aqui que são socorridos os soldados americanos feridos em combate na Europa, África ou Médio Oriente. E também os que adoecem, ou sofrem acidentes. Quando as tropas americanas são mobilizadas para cenários de conflito, é certo e sabido que anda um mundo de gente a correr de um lado para o outro. Mas os tempos são tranquilos, e isso permite uma rara visita ao maior hospital norte-americano que existe fora do país.

Flyn Benjamin Funck tinha nascido há menos de 24 horas quando uma equipa de enfermeiros entrou na sala para fazer os exames de rotina. O pai, Derrick Funck, é militar em Ramstein e por isso toda a família é assistida aqui. “Temos sorte, porque a casa está vazia então temos todos os cuidados e atenções”, comentava Veronica, a mãe do bebé. A unidade de cuidados neonatais, ainda assim, é uma das que têm sempre ocupação garantida. Landsthul serve afinal um universo de 205 mil beneficiários, entre veteranos, reformados, refugiados, civis americanos, os militares e as suas famílias.

O Hospital Militar dos EUA em Landstuhl.
O Hospital Militar dos EUA em Landstuhl.
Foto: Rui Oliveira

“Desde a última primavera tornámo-nos também um centro de trauma regional para a rede hospitalar alemã”, diz Brad Rittenhouse, diretor de trauma do hospital. “É importante e contribui para a integração no país que nos acolhe.” Se houver um acidente de carro nesta zona do país, por exemplo, é aqui que as vítimas são acolhidas. “Na evacuação dos refugiados afegãos em 2021 não tínhamos mãos a medir, porque chegou muita gente ferida”, suspira Rittenhouse. “E um grande número dos casos eram de crianças.”

Existem mais de 40 especialidades médicas a serem tratadas aqui. De cardiologia a psicologia, de neurologia a cirurgia reconstrutiva. E o objetivo, dizem os militares, é continuar a crescer. As obras para a construção de um novo hospital estão prestes arrancar e a previsão é que estejam concluídas em 2027. Em superfície, é amaior obra projetada na Alemanha para os próximos anos. Custará mil milhões de dólares, e 85 por cento da conta é paga pelos Estados Unidos.

Mas Landsthul cumpre outro papel importante além do socorro. As instalações são também sede do Centro Europeu de Simulação Médica das Forças Armadas dos EUA, ou seja, é aqui que as equipas médicas são treinadas para prestarem auxílio no terreno aos militares que estão em situação de combate. “Também damos esta formação à polícia alemã e outras forças militares da NATO”, diz Kirk Giles, o coronel que comanda as operações nesta unidade.

Numa sala que imita um hospital, há manequins que são usados para formação. “Esta é a Ronda, aquela é Vicky, este aqui é o Al”, graceja Giles. Todos os bonecos têm um nome. Através de um iPad, outro dos formadores, Mehdi Naciri, vai introduzindo complicações médicas que obrigam a exercícios diferentes. Há bonecos com ferimentos de bala, outros com membros despedaçados por bombas ou minas, há até uma mãe em trabalho de parto.

Ao lado das salas de formação há um centro onde se treinam percursos de obstáculos que simulam situações de combate. “Apagam-se as luzes, temos tiros, manequins em agonia e tentamos criar cenários próximos daqueles que os soldados e enfermeiros de combate vão ter de enfrentar no terreno. Numa sala contígua, está montado um hospital de campanha, igual aos que as tropas levantam perto dos cenários de guerra. Agora têm uma série de macas com manequins que perderam pernas e braços, mas podem ser adaptados a outras condições. “Já estive em vários conflitos reais e penso que este simulacro é bastante próximo das condições que encontramos”, diz a sargento Elena Chung.

Com a guerra na Ucrânia, e apesar de não haver envolvimento americano, reforçam-se os treinos de NBC – Nuclear, Biological and Chemical Training. “Temos de estar preparados para qualquer hipótese e não tenha dúvida de que estamos”, atira o coronel Giles. Explica que, num cenário de guerra nuclear, aquelas tendas teriam de estar isoladas, e o pessoal médico equipado com fatos de proteção especial, e os cuidados com as queimaduras seriam alvo de escrutínio constante. “Estamos preparados, sim, mas nem me quer passar pela cabeça que alguém possa disparar uma arma atómica. Seria demasiado terrível”, remata.

3

Esta vida americana
Copiar o link


As ruas da Base Aérea de Ramstein.
As ruas da Base Aérea de Ramstein.
Foto: Rui Oliveira

Sparky, o cão, veio visitar hoje os miúdos de uma das escolas primárias que existem na base aérea de Ramstein. Na verdade, a mascote do corpo de bombeiros que existe instalações militares é incarnada por um soldado de 20 anos originário do Oklahoma. Daí a uns minutos há de estar a contar-nos porque gosta tanto de viver na Europa. “É que eu aqui posso beber antes dos 21, fui à Oktoberfest e tudo”, ri. Não se lhe identifique o nome para que não sofra consequências pela sinceridade. E a verdade é se nota que o rapaz adora o seu trabalho: “Os miúdos passam por um simulacro de incêndio, aprendem o que devem fazer numa emergência e raios me partam se Sparky, o cão, não ajuda a tornar aquilo que é assustador num jogo divertido.”

As crianças são omnipresentes em Ramstein. Dentro das instalações militares, a oferta de ensino vai da creche ao secundário. E, ainda que a maioria dos militares viva fora da base, há algumas centenas de soldados e famílias a residir nas instalações. Como James Grabinsky, que ocupa uma das pequenas moradias que ali existem com a sua mulher e os três filhos – de 8, 7 e 2 anos. Há semanas que anda a montar as decorações de Halloween no relvado em frente a casa.

Há teias de aranha e esqueletos, abóboras e balões com figuras demoníacas. “Ah, é que eu sou da costa Leste dos Estados Unidos e nós somos tradicionalmente muito comprometidos com as decorações de Halloween e Natal. Daqui a uns meses, se passarem aqui, vão ver isto cheio de luzes, isso posso garantir-vos,” diz. Durante uns anos, os Grabinsky viveram em Kaiserslautern. “Também armávamos esta parafernália toda e tínhamos quase excursões de alemães a virem tirar fotografias da nossa casa”, conta, e desmancha-se a rir.

Os sinais da vida americana estão um pouco por toda a parte.

Dentro da base de Ramstein há um centro de bowling e um campo de golfe. Há duas igrejas, e uma dela oferece serviços católicos, evangélicos, judaicos e islâmicos. Há também uma grande piscina interior, dois postos dos correios, uma clínica dentária, uma estação de serviço aberta 24 horas, restaurantes e bares.

E depois há um enorme centro comercial, o KMCC – Kaiserslautern Military Community Center. Tem lojas de roupa militar e civil, cabeleireiros e ourivesarias e uma praça de alimentação decorada com camuflados e onde assentam praça as mais conhecidas marcas americanas – do Taco Bell ao Dunkin’ Donuts, do Charley Cheesesteaks ao Popeye’s Louisiana Kitchen.

Como hoje há um treino de formação para vários membros da Força Aérea, a United Service Organization (USO) decidiu organizar-lhes um barbecue. É um associação sem fins lucrativos que organiza uma série de iniciativas para reduzir as saudades que os militares têm de casa. “Servimos café e bolos antes de eles embarcarem nos aviões, criamos jogos para os seus filhos quando eles têm de esperar no aeroporto e fazemos umas belíssimas churrascadas”, diz Amanda Rymer, que anda a levar hambúrgueres e cachorros quentes de um lado para o outro. A USO é maioritariamente formada pelas mulheres e maridos dos militares destacados em Ramstein.

A praça de restauração do centro comercial.
A praça de restauração do centro comercial.
Foto: Rui Oliveira

E hoje estão verdadeiramente contentes por lhes darem este gosto de casa. A fila vai engrossando junto à grelha e toda a gente elogia o petisco. “Isto até parece que é 4 de julho”, grita ela. O feriado nacional dos Estados Unidos, afinal de contas, comemora-se a grelhar carne sobre carvão.

Dentro da base é também produzido um jornal semanário, o Kaiserslautern American. É feito por duas mulheres de militares, a norte-americana Jennifer Green-Lanchoney e a alemã Gina Hutchins. “Não fazemos jornalismo de investigação nem nada que se pareça”, diz a primeira, “mas tentamos contribuir para que os americanos percebam o sítio onde vivem.” Além das notícias militares, há uma agenda com os principais eventos da região, roteiros dos lugares que podem visitar aos fins de semana e alguns artigos que explicam as políticas locais. “A base aérea de Ramstein não é território americano, como se fosse uma embaixada”, explica Gina Hutchins. “Aqui vigoram as regras alemãs e, para o bem e para o mal, é preciso que os militares conheçam o país onde vivem.”

4

Amores errantes
Copiar o link


Foto: Rui Oliveira

Ramstein está localizada numa das regiões mais isoladas da Renânia-Palatinado e, também por isso, a presença americana é indisfarçável em toda a região. “Às vezes temos queixas de cidadãos alemães por causa do ruído dos aviões, ou porque alguém está a cortar o relvado em frente de casa ao domingo ou vão despejar o lixo à noite, quando isso é proibido aqui”, conta Roberto Costa, o chefe do German-American Community Office. É luso-alemão, filho de portugueses de Santo Tirso e o seu trabalho é reforçar as ligações entre os alemães e os americanos na região.

“Há uma parte política, que é por em contacto os presidentes da câmara com os comandantes da base. Às vezes é complicado porque estes cargos militares mudam a cada dois anos. Nós damos o aconselhamento político do que está em marcha e foi acordado previamente entre as partes”, explica agora no seu gabinete em Kaiserslautern. E depois há um trabalho mais comum, e que lhe ocupa verdadeiramente os dias: dar resposta a todas as dúvidas que os cidadãos dos Estados Unidos têm quando se mudam para aqui.

Roberto Costa é chefe do German-American Community Office. É filho de portugueses de Santo Tirso e o seu trabalho é reforçar as ligações entre os alemães e os americanos na região.
Roberto Costa é chefe do German-American Community Office. É filho de portugueses de Santo Tirso e o seu trabalho é reforçar as ligações entre os alemães e os americanos na região.
Foto: Rui Oliveira

“Há problemas muito técnicos, que são as renovações dos vistos, a validade das cartas de condução, as regras para abertura de um negócio”, diz Costa. Desde que abriram, em 2003, assistiram 50 mil pessoas e essas questões compunham a maioria dos casos. Mas depois acontecem coisas extraordinárias: “Houve uma mulher que era filha de uma militar americana e de um civil alemão. Ela nunca tinha conhecido o pai e ajudámo-la a localizá-lo. Depois, veio até à Alemanha e acabaram por conhecer-se. Ela enviou-nos um e-mail de agradecimento e tudo. E foi muito bonito. Temos de ver que os americanos estão presentes em Ramstein há 70 anos e por isso há muitas histórias de amor e separação, também.”

Truman Goodwin, que toda a gente conhece por Goody, é uma lenda viva de Ramstein. Tem 87 anos, chegou à Base Aérea em 1961 e, segundo as suas próprias palavras, sentiu-se imediatamente em casa. “Percebi que queria ficar aqui uns tempos e então comprei um carro. Eu era obcecado por motores e fiz-me logo amigo de um mecânico da aldeia, passava quase todo o meu tempo livre com ele”, conta agora no escritório da sua casa em Ramstein, decorado com bandeiras e medalhas militares, fotografias dos seus dias na tropa, armas e balas. Tem três quadros na parede, assinados por três presidentes americanos: Obama, Trump e Biden. São três Lifetime Achievement Awards, condecorações pelos seus serviços prestados à nação.

Truman e Waldtrout Goodwin ainda se tratam por 'babe'.
Truman e Waldtrout Goodwin ainda se tratam por 'babe'.
Foto: Rui Oliveira

Nesses dias que passava na oficina, Goody via passar uma miúda alemã chamada Waldtrout. “Sempre que eu passava, ele buzinava”, conta ela. “Eu tinha 15 anos e ele 28, mas apaixonei-me logo. Casámos em 1964, quando eu fiz 18, e nunca mais nos largámos.” Ainda hoje, aliás, tratam-se um ao outro por “babe”. Por causa do trabalho dele, tiveram de fazer comissões na Califórnia e na Holanda, mas o objetivo sempre foi voltar a Ramstein. “Estamos aqui há 47 anos sem interrupções”, conta Goody. “E é aqui que hei-de terminar os meus dias.”

Ele e Waldtrout viram o mundo mudar a partir de Ramstein. A queda do muro de Berlim e o 11 de Setembro (“a partir desse dia”, conta Goody, “as regras de entrada na base apertaram e os Cadillacs dos soldados passaram a ter matrículas alemãs, para não serem reconhecidos“), o nascimento dos seus três filhos e a sua incorporação nas Forças Armadas. “Trabalhei na base até à reforma e agoro continuo a ir lá todos os dias conversar com os marines que estão hospitalizados em Landstuhl”, diz. Goody é uma lenda de Ramstein, sim. Da base, do hospital e da aldeia.

5

Marcas em volta
Copiar o link


Uma festa de música country na aldeia de Ramstein.
Uma festa de música country na aldeia de Ramstein.
Foto: Rui Oliveira

Seria difícil imaginar Ramstein sem os americanos, e Ralf Hechler é o primeiro a assumi-lo. O presidente da câmara local é peremptório. “Há um estudo que aponta que a nossa região ganha anualmente 2,3 mil milhões de euros por causa da presença americana. Ao contrário do resto do país, aqui não há virtualmente desemprego. Se os americanos saíssem de Ramstein a região levaria três décadas a levantar-se.”

Nem tudo são rosas – e isso Hetchler também admite. “Como mais de metade dos militares vive fora da base, a especulação imobiliária é enorme e a população local nem sempre consegue viver aqui”, diz. O cinturão populacional à volta da base vai-se alargando com os anos e isso obriga à criação de novas infraestruturas. “Todos os dias passam 15 mil carros pelo centro da povoação a caminho da base. Temos cinco creches, porque há muitos miúdos. Investimos 18 milhões para construir uma central de aquecimento a biodiesel. Somos um lugar pequeno, e depois afinal não somos.”

Antes da Base abrir, havia dois mil habitantes em Ramstein. Hoje são 15 mil. “Isso também nos permite outra margem de manobra”, diz o autarca. “Enquanto os outros municípios desta zona da Renânia-Palatinado recolhem meio milhão de euros em impostos sobre a habitação, nós conseguimos sete milhões.” O problema, insiste ele, são as casas. “Os planos de ordenamento do território não nos permitem construir mais, apesar de sentirmos que devíamos ter habitação social e a custos controlados para fixar a população. Há muita gente a viajar de longe para vir aqui trabalhar, e isso não faz sentido.”

O comércio nas aldeias que rodeiam a Base mostra bem que estamos na Pequena América. Quem atravessa o povoado de Landstuhl não pode deixar de reparar nos dentistas, cabeleireiros e salões de unhas americanos, decorados com a respetiva bandeira, mais os bares que parecem saloons e restaurantes que servem galinha com waffles. Na aldeia de Ramstein, um homem chamado Andreas Hausmann abriu um hotel e chamou-lhe American para receber os que se querem sentir em casa. “Antes dos militares, se houvesse hotéis aqui eles seriam sazonais – e apenas para gente que vinha comprar ou vender produtos. A minha família está nesta terra há quatro gerações e sabemos como eles mudaram tudo. Os nossos miúdos aqui, mesmo os alemães, jogam futebol, sim, mas também basebol. Ao fim de 70 anos, somos uma mistura de duas culturas.”

Em 2007, e depois de alguns visitas aos Estados Unidos, Hausmann decidiu abrir um restaurante que se tornou icónico em Ramstein, o Big Emma. “A minha ideia era servir grandes porções, como acontece nos Estados Unidos da América. Faço isso com hamburgueres, claro, mas também com os panados e os joelhos de porco, que são tipicamente alemães.” Também produzem a sua própria cerveja. A clientela é 60 por cento americana.

Às quintas feiras, no Big Emma, é noite de música country. Vem uma banda que é meio alemã e meio americana cantar como se estivesse no Sul dos Estados Unidos, e uma multidão de gente coloca chapéus de cowboy, envia as mãos nos bolsos e começa a dançar passos ensaiados e numa cadência perfeita. O grupo vai engrossando, a coreografia que tinha começado com meia dúzia de atrevidos torna-se em multidão de quase três dezenas de meticulosos bailarinos de country. “E sabes que mais”, atirava Hausmann entre dois goles de cerveja, “não está nem um único americano na pista. São todos alemães.”

Foto: Rui Oliveira


O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Autoridades e fontes militares, citadas pela Reuters, garantem que a base iraquiana a norte de Bagdad foi atingida e que três elementos da Força Aérea do país ficaram feridos. O quartel fica a menos de 80km de uma base norte-americana.
Há 75 anos começava a escrever-se o derradeiro capítulo da II Guerra Mundial. Entre os soldados norte-americanos que enfrentaram a última investida do III Reich nas Ardenas havia milhares de soldados com nomes como Botelho, Encarnação, Gomes, Santos ou Silva. Rapazes de origem portuguesa, que deram o corpo e a vida pela libertação da região – e que a História foi votando ao esquecimento. Esta é a história deles.