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Deixou o Irão para viver no Luxemburgo: "Como mulher, é preciso ser muito forte"
Mundo 4 8 min. 24.11.2022
Aida Nazarikhorram

Deixou o Irão para viver no Luxemburgo: "Como mulher, é preciso ser muito forte"

Aida Nazarikhorram vive no Luxemburgo há oito anos.
Aida Nazarikhorram

Deixou o Irão para viver no Luxemburgo: "Como mulher, é preciso ser muito forte"

Aida Nazarikhorram vive no Luxemburgo há oito anos.
Foto: Sibila Lind
Mundo 4 8 min. 24.11.2022
Aida Nazarikhorram

Deixou o Irão para viver no Luxemburgo: "Como mulher, é preciso ser muito forte"

Michael MERTEN
Michael MERTEN
A partir do Luxemburgo, Aida Nazarikhorram está a torcer pelos protestos na sua antiga pátria, o Irão. Ela própria foi detida duas vezes pela polícia da moralidade.

Aida Nazarikhorram ainda se lembra do momento em que deixou o seu país natal, o Irão, para começar uma nova vida no longínquo Luxemburgo, em 2014. Foi mais do que uma simples mudança para outro país com uma cultura diferente. Foi também um ato pessoal de libertação - mesmo se, naquele breve momento, nada mais fez do que deixar um pedaço de pano desaparecer na sua mala de mão.

Este pequeno gesto significou muito para Aida. Porque ao tirar este lenço da cabeça, também atirou fora as grilhetas que até então lhe tinham restringido a vida. E não estava sozinha. "Quando o avião descolou, muitas mulheres retiraram imediatamente o seu hijab", recorda a médica.

"Não tem nada a ver com as crenças das pessoas", sublinha a mulher de 36 anos. O hijab, como é chamado o véu, é algo que é forçado à maioria das mulheres no Irão. Aida gosta do facto de os seus longos cabelos castanhos escuros estarem a soprar no vento bastante suave de novembro no terraço do telhado da sede da sua empresa na avenida da capital, o Príncipe Henri. 

É uma sensação incrivelmente boa quando se está proibido de o fazer, mesmo quando se é jovem. Quando se tem de temer a perseguição por parte das autoridades, se mesmo um só único fio se mostra. 

Aida revela que foi detida duas vezes pela polícia da moralidade durante os seus estudos de Medicina na sua cidade natal de Hamadan, no noroeste do Irão. Ainda hoje lhe parece surreal: "O meu lenço de cabeça era um pouco largo demais ou as minhas calças eram um pouco apertadas demais, era completamente ridículo", conta. 

Os agentes da moralidade levaram-na para a esquadra da polícia. Apesar de os pais terem conseguido tirá-la de lá as duas vezes após algumas horas, ainda tinha ataques de pânico anos mais tarde quando via um polícia na rua. "E depois tive pesadelos durante vários anos, a tentar escapar à polícia de moralidade".

Nova casa no Luxemburgo

Mais tarde, ainda durante os estudos, apercebeu-se de que os sintomas que estava a experimentar eram características clássicas do transtorno de stress pós-traumático. "Estava a experimentar algo que alguém sofre numa zona de guerra ou num desastre natural - só porque fui presa duas vezes", diz Aida. 

Sei quanta coragem e bravura alguém tem de ter para estar disposto a sacrificar a sua vida por este movimento.

Aida Nazarikhorram

"E agora quando vejo a bravura das mulheres no Irão, é incrível, porque como mulher que viveu no Irão, sei o que isso significa. Sei quanta coragem e bravura alguém tem de ter para estar disposto a sacrificar a sua vida por este movimento", afirma.

Aida e o marido Pouyan Ziafati também demonstraram coragem - embora de uma forma diferente: longe de casa, construíram a sua própria existência. Como Pouyan escreveu a tese de doutoramento sobre Inteligência Artificial no Luxemburgo, a mulher decidiu ir ter com ele em 2014.

Rapidamente reconheceram o potencial dos robôs no trabalho com crianças autistas. O casal fundou a start-up "LuxAI", que produz pequenos robôs de aprendizagem brancos e agora exporta para 20 países. 

Após oito anos, o Luxemburgo tornou-se a sua segunda pátria. "É um país com uma mente muito aberta. Quando se começa a viver aqui, não se sente realmente como um estrangeiro", reconhece Aida. O casal não voltou ao país de origem, onde vivem todos os familiares, durante cinco anos.

Primeiro foi o stress profissional que os impediu de ir de férias. Depois houve outra razão para evitar o país: "A certa altura, percebemos que já não era seguro, porque o governo continuava a prender pessoas sem motivo algum". Há relatos de pessoas com dupla cidadania a serem detidas sob pretextos para servir de alavanca diplomática.

Duas vidas paralelas

Hoje em dia, também o negócio, que em breve se mudará para instalações maiores, requer um empenho total. Mas há quase dois meses, não só os dias mas também as noites têm sido extremamente intensas. "Levamos duas vidas ao mesmo tempo, o meu marido e eu. Assim que o trabalho termina, a segunda vida começa, e isto é: 'Como estão as pessoas no Irão?'", explica Aida.

Desde a revolução de 1979, o país tem sido efetivamente um estado de Deus em que uma fação islâmica radical governa com uma mão de ferro. Acontece de vez em quando que os mais de 85 milhões de iranianos se revoltam contra os mullahs (clérigos islâmicos). Mas nunca antes os protestos foram tão violentos e generalizados como nos últimos dois meses. 

Todos os dias, algures no vasto país, as pessoas saem à rua; às vezes dezenas, às vezes centenas, às vezes milhares. As mulheres libertam-se dos seus véus. Os casais beijam-se na rua. Para o regime, estes são atos de provocação, aos quais reage frequentemente com extrema violência. Segundo as Nações Unidas, mais de 300 pessoas já morreram, incluindo mais de 40 crianças. Como os telemóveis estão em quase todo o lado, o mundo está a testemunhar o que está a acontecer. 

Na sala de reuniões da sede da empresa, Aida pega no telemóvel. Através de aplicações como o Telegram é informada numa espécie de livestream sobre o que está a acontecer no Irão. "Estou aqui, mas sinto-me como se estivesse lá", assegura. Como sinal exterior de solidariedade, veste uma camisola preta com a inscrição "Mulheres - Vida - Liberdade" nas cores nacionais iranianas. 

A cada poucos segundos, novas fotografias, vídeos de telemóveis e mensagens chegam ao ecrã da médica e empresária. Entre elas estão cenas de violência brutal que são difíceis de suportar: forças de segurança a disparar contra manifestantes indefesos. Pessoas cobertas de sangue.

Se olharmos para as últimas quatro décadas sob o domínio dos Ayatollahs (líderes religiosos), reflete Aida, "vemos que a fundação desta autocracia se baseia na opressão das mulheres, que são consideradas cidadãs de segunda classe". Os protestos atuais também provêm do destino de uma mulher. 

A estudante curda iraniana Mahsa Amini, de 21 anos, tinha sido detida pela polícia de Teerão a 13 de setembro por causa da roupa alegadamente "não islâmica". Presumivelmente, alguns fios de cabelo tinham sido visíveis debaixo do seu lenço de cabeça. É possível que a jovem mulher tenha sido empurrada contra a janela do carro da polícia; talvez tenha sido atingida na cabeça mais tarde. O que é certo é que ela foi levada ao hospital após algumas horas sob custódia policial e morreu três dias depois.

Para muitas não há volta a dar

Como é que Aida Nazarikhorram olha para a jovem estudante que não queria muito mais do que ser ela própria, do que ser livre?

"O interessante é que esta rapariga nem sequer tentou ser livre", responde a médica. Mahsa Amini tinha de facto usado o hijab muito corretamente, de acordo com as diretrizes dos mullahs. "E foi por isso que causou um tumulto tão grande, porque as pessoas perceberam que mesmo que se siga as regras, corre-se o risco de ser morto por essas pessoas".

Inúmeras mulheres iranianas retiraram ou até queimaram publicamente os lenços de cabeça nas últimas semanas. Aida esclarece o que isto significa: "Quando tiras o teu hijab, tens de te despedir do resto dos teus estudos. De um trabalho futuro. Isso é o mínimo. Se não fores presa, espancada, violada, morta". Mas não se deve reduzir os protestos ao véu da cabeça; isso simplifica excessivamente o movimento. O hijab é apenas a ponta do iceberg. 

No cerne, trata-se da opressão das mulheres. "Trata-se de dignidade. Trata-se de direitos humanos. É uma questão de democracia".

Por uma democracia secular

Mas até que ponto é sustentável o protesto atual? Afinal, sempre houve motins no Irão, alguns mesmo muito violentos; as pessoas expressaram o seu descontentamento contra a inflação ou eleições fraudulentas, por exemplo. No entanto, o regime respondeu geralmente ao desejo ardente de reforma com mais repressão.

Trata-se de dignidade. Trata-se de direitos humanos. É uma questão de democracia.

Aida Nazarikhorram

No entanto, para Aida há, desta vez, uma diferença em relação a protestos anteriores. "Cresci com a ideia de que, como mulher, temos de ser extremamente fortes e que temos de exigir os nossos direitos", sublinha. Todas as mulheres que durante anos travaram uma batalha quotidiana pelas liberdades menores ou maiores estão agora determinadas a fazer qualquer coisa; chegaram a um ponto sem retorno.

Todas as que saem para as ruas estão conscientes: "O castigo é a prisão. É violação, é tortura, é morte - ou seremos livres de uma vez por todas".

Aida está convencida de que se trata de uma revolução. O regime opressivo iraniano deve ser derrubado - e, em vez disso, deve ser construída uma democracia secular.

Aida Nazarikhorram apoia esta luta contra o regime, tomando as ruas no Luxemburgo. E por estar presente para a sua família. Todos os dias telefona aos familiares, revela. Porque a situação é muito incerta: "Quando não se tem notícias deles durante um dia, é bastante assustador".

(Este artigo foi originalmente publicado no Luxemburger Wort e traduzido para o Contacto por Tiago Rodrigues)

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