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Das vacinas à imunidade. Estas são as armas para vencer a pandemia
Mundo 9 min. 11.12.2020

Das vacinas à imunidade. Estas são as armas para vencer a pandemia

Das vacinas à imunidade. Estas são as armas para vencer a pandemia

Foto: AFP
Mundo 9 min. 11.12.2020

Das vacinas à imunidade. Estas são as armas para vencer a pandemia

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Os estudos contraditórios, a eficácia das vacinas e a imunidade ganha após a infeção. A imunologista Margarida Santos Saraiva explica ao Contacto o que já se sabe sobre as mais importantes ferramentas contra a covid-19.

A imunidade é a grande arma para derrubar a covid-19. E a vacina é a melhor ferramenta para que a população mundial ganhe essa imunidade à doença que já infetou mais de 67 milhões em todo o mundo e matou mais de 1,5 milhões de pessoas.

Já falta pouco para que os residentes no Grão-Ducado e dos outros países da União Europeia comecem a ser vacinados contra a covid-19. E, um ano depois da chegada da pandemia ao planeta, nove meses após aparecer o primeiro caso no Luxemburgo, este será “um grande passo em direção a uma vida normal” como salientou Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.

A cerca de um mês das primeiras doses de vacinas anti-covid chegarem ao Luxemburgo e aos restantes países da UE o que já se sabe sobre a eficácia destes métodos de imunização? E da imunidade criada por quem já esteve infetado com o vírus do SARS-CoV-2?

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Vamos começar pelo princípio. Como é que funciona uma vacina que é um método de prevenção? “As vacinas assentam na ‘programação’ do sistema imunitário para reconhecimento e resposta rápida a um determinado agente infecioso [neste caso o vírus da covid-19]. Ou seja, através da vacinação, ensinamos o nosso sistema imunitário a responder melhor e mais rápido à presença de um agente estranho, logo a controlá-lo de forma mais eficaz”, explica ao Contacto a imunologista Margarida Saraiva, coordenadora do Grupo de Regulação Imunológica, do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), do Porto. A investigadora acrescenta que atualmente, “a modulação da imunidade vai muito além da vacinação, por exemplo, através do desenvolvimento de terapias imunes para cancro ou doenças autoimunes. Daí que o conhecimento dos mecanismos de ação do sistema imunitário em diferentes contextos seja importantíssimo para o desenvolvimento de novas terapias”.

Eficácia das vacinas

Três das vacinas contra a covid que, em breve, vão começar a chegar ao Luxemburgo e aos outros estados membros da União Europeia já divulgaram os dados sobre a sua eficácia.

A Pfizer/BioNTech anunciou que a sua vacina tem uma eficácia de 95%, a da Moderna de 94,5% e a vacina da AstraZeneca/Oxford uma eficácia de 70%, em média, que de acordo com a farmacêutica resulta da combinação de dois regimes de dosagem: um foi 90% eficaz e o outro 62%. Estas três farmacêuticas já estão a fabricar as vacinas. O país irá receber também vacinas da Sanofi GSK, Johnson&Johnson, e CureVac, que estão mais atrasadas.

“Mais de 70% da população deve ser vacinada”, declarou o primeiro-ministro Xavier Bettel a semana passada, sendo que a vacina é facultativa no Luxemburgo, à semelhança de outros países da Europa.

Serão as vacinas realmente eficazes, questionam-se alguns cidadãos, justificando o pouco tempo que demoraram a ser elaboradas e dadas como prontas.

“Segundo os dados conhecidos até agora, as vacinas já testadas em contexto humano apresentam uma boa eficácia. É possível que os números apresentados venham a ser ajustados com a inclusão progressiva de mais indivíduos e mais faixas da população, por exemplo uma maior abrangência de idades. Quando digo ajustados, significa eficácias maiores ou menores, em torno dos valores já apresentados”, explica a investigadora portuguesa, que também faz parte do conselho diretivo da Sociedade Portuguesa de Imunologia.

De acordo com os especialistas para uma população estar imunizada contra uma doença é necessário vacinar pelo menos entre 60% a 70% das pessoas, por isso ainda irá levar alguns meses até que o Luxemburgo esteja imune à covid-19. Assim sendo, há que manter as regras individuais de prevenção, o uso da máscara, a desinfeção das mãos e o distanciamento social.

Como vinca Margarida Saraiva as vacinas “são a melhor solução para travar a epidemia, se pensarmos do ponto de vista de intervenção. Mas há que lembrar que uma solução muito eficaz está no comportamento de todos e de cada um de nós”.

Imunidade após a infeção

Nunca, como até agora, a comunidade científica estudou tanto e em tão pouco tempo uma nova doença como a covid-19, para dotar o mundo de instrumentos de controlo e diminuição da sua disseminação, como é o caso das vacinas.

Um estudo foi já realizado com a vacina da Moderna para verificar qual o grau de imunidade que esta imunização gera. Os resultados da investigação, publicada há dias, na revista científica ‘The New England Journal of Medicine’, trazem boas notícias, revelando que esta vacina é capaz de produzir uma imunidade “duradoura”. De acordo com o estudo, que analisou um grupo de 34 indivíduos de várias idades continuavam a apresentar níveis elevados de anticorpos três meses depois de terem recebido a vacina da Moderna.

Enquanto os laboratórios se lançavam sobre a elaboração deste método de imunização, o mais eficaz para combater a doença, investigadores de todo o mundo centravam-se em estudos sobre a imunidade à covid-19 realizados em doentes recuperados da infeção. Investigações que têm sido também importantes perceber a eficácia das vacinas nesta área.

Um estudo recente de investigadores da Universidade de Freiburg, Alemanha, publicado na revista científica Nature descobriu que, após a infeção pelo novo coronavírus, E 70% dos indivíduos apresentavamno organismo anticorpos contra o SARS-CoV-2, mesmo sem as análises detetarem a presença destas células. Para os autores, esta presença é muito importante na proteção imunológica da infeção o novo co-ronavírus.

Outros dois estudos tidos como importantes e divulgados há menos de um mês, revelaram também que, nos doentes recuperados, esta resposta imunitária pode durar pelo menos sete meses ou mesmo vários anos. Uma investigação do Centro de Pesquisa de Doenças Infeciosas e Vacinas e do Instituto La Jolla, dos EUA, a mais abrangente realizada até agora, revelou que 185 doentes recuperados mantinham altos níveis de anticorpos mais de seis meses passados sobre a infeção. A equipa acredita que a resposta imunológica será duradoura e poderá manter-se durante anos.

Um outro estudo, também nos EUA concluiu que nos doentes recuperados os anticorpos vão aumentando com o passar dos meses, pelo menos até três meses desde a infeção. E que a resposta imunitária se mantém também bastante ativa.

Contudo, estas duas investigações que foram publicadas em sites científicos de pré-revisão, não foram ainda ‘revistas pelos pares’, ou seja, avaliadas por outros cientistas. Só depois de uma avaliação positiva serão dadas como conclusivas e publicadas em revistas da especialidade.

E os doentes assintomáticos terão um grau de imunidade semelhante aos sintomáticos? “São precisos mais estudos para perceber esta questão, pois muitos assintomáticos não são identificados. Mas, o facto é que há uma proporção de indivíduos que apresenta testes serológicos positivos, não tendo tido sintomatologia, apontando para uma possível imunidade mesmo em assintomáticos”.

Muito ainda para descobrir

Como salienta Margarida Saraiva um ano depois do aparecimento da infeção pelo novo coronavírus no mercado da cidade chinesa de Wuhan ainda há “vários aspetos da resposta imunológica à covid-19 que não percebemos completamente”. Contudo, a investigadora defende que “é de realçar que num espaço muito curto de tempo conseguimos atingir um nível de conhecimento verdadeiramente surpreendente, o que é devido ao elevado e imediato envolvimento da comunidade científica a nível global”. “Esta pandemia ilustra muitíssimo bem que o investimento em investigação científica tem, em tempos de crise, um retorno imediato para a sociedade”, acrescenta.

Com o passar dos meses, os estudos sobre a capacidade do corpo humano produzir e manter anticorpos que previnam novas infeções pelo SARS-CoV-2 têm mostrado resultados diferentes. Enquanto os primeiros apontavam uma fraca e breve imunidade, os mais recentes, como os acima referidos, indicam que afinal a resposta imune poderá ser duradoura. A cientista esclarece estas “aparentes contradições”.

“O progresso científico numa determinada área assenta numa série de passos, experiências, hipóteses e conclusões, que naturalmente não são estáticas. Mais experiências, mais investigação, significam mais conhecimento. Nem sempre o que é contraditório em aparência o é na sua essência. Por vezes, acabamos por vir a encontrar respostas para as aparentes contradições. A grande diferença no caso do SARS-CoV-2 é que se tem atingido um nível de conhecimento elevado num curto espaço de tempo, sendo que quase todos os pequenos passos são amplamente noticiados. Ou seja, ainda não demos tempo para a comunidade científica encontrar consensos”.

Por outro lado, a imunologista garante que “nenhum cientista deseja publicar um trabalho que não esteja correto”. E, no caso desta doença, “há muito trabalho feito num curto espaço de tempo e numa doença e num vírus completamente novos. Logo, haverá certamente observações, por exemplo em pacientes, que poderão sofrer alterações há medida que vamos conhecendo mais e melhor”. “A ciência não é, nem nunca foi estática! Muitas vezes é a partir de contradições que se conseguem avanços”, vinca.

Covid-19 vai enfraquecer

Por enquanto, e ainda sem prazo de desaparecimento à vista é bem possível que o vírus da covid-19 vá continuar a modificar-se e adaptar-se às diferentes populações para melhor se disseminar. “Contudo, nesse processo acabará por perder virulência. Acabará provavelmente por atingir uma espécie de equilíbrio com o hospedeiro”, explica a imunologista. A estimativa é que no futuro iremos vencer a luta contra esta pandemia e a covid-19 irá tornar-se numa doença controlável, semelhante à gripe.

E como olha esta imunologista para uma pandemia desta dimensão? “Esta pandemia tem-me feito pensar no que queremos enquanto sociedade, no quanto estamos dispostos a comprometer e no que assenta a nossa vida... Tem-me também feito pensar nas muitas pessoas pelo mundo fora que vivem ‘pandemias’ não globais, mas que acabam por sofrer todos os dias por causa de doenças infeciosas. Faz-me querer dedicar ainda mais ao estudo destas doenças”, respondeu Margarida Saraiva cuja sua investigação incide principalmente sobre outra doença infeciosa, a tuberculose.

No início da pandemia, em abril, a sua equipa teve “um papel importante na implementação de testes genéticos para o SARS-Cov-2 no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3s)”, devido “à nossa expertise em tuberculose e em particular em biossegurança”. 

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