Escolha as suas informações

Da peste negra ao coronavírus, passando pela gripe espanhola
Mundo 4 min. 04.03.2020

Da peste negra ao coronavírus, passando pela gripe espanhola

a

Da peste negra ao coronavírus, passando pela gripe espanhola

a
Mundo 4 min. 04.03.2020

Da peste negra ao coronavírus, passando pela gripe espanhola

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O governo chinês introduziu o uso de uma aplicação para telemóvel que indica a ficha de quarentena: verde para quem pode sair às ruas, amarelo para quem deve ficar isolado por uma semana e, vermelho, para as pessoas que têm de ficar duas semanas isoladas.

 Todos os anos a 20 de janeiro, os habitantes da aldeia de Vila Grande (Dornelas), em Trás-os-Montes, oferecem a toda a gente que por lá passa uma refeição comunitária. A Mezinha de São Sebastião ou a Festa de Papas como é conhecida assinala, segundo reza a lenda, o fim de uma peste, perdida na imensidão do tempo, que dizimou a região. Desesperadas, as pessoas pediram protecção ao santo, prometeram-lhe que todos os anos fariam a festa em sua honra se os livrasse de tão terrível maleita. Feito o “milagre”, o povo cumpriu a sua promessa.

A peste negra perdida nos séculos, não foi a única epidemia que deixou marcas traumáticas na história da humanidade. Há pouco mais de um século, a chamada gripe espanhola – deve o seu nome não à alegada origem do vírus, mas ao facto de como a Espanha não estar em guerra em 1918, e por isso ter noticiado a doença – fez mais de 50 milhões de mortos em todo o planeta. A gripe apesar de ter matado várias vezes mais gente que a Primeira Guerra Mundial que acabou no mesmo ano de 1918, tem sido afastada da memória das gentes: há poucos livros, filmes e obras que a relembrem, como se fosse demasiado horrível para ser recordada.

Depois da gripe espanhola, quatro pandemias do mesmo tipo eclodiram no planeta: a gripe asiática de 1957, a gripe de Hong Kong de 1968, a gripe A(H1N1) de 2009 e agora esta epidemia, conhecida popularmente como a do coronavírus.

Esta última, teve a sua origem na China, e saltou de 300 casos identificados em 20 de janeiro para cerca de 80.000 em 2 de março.

A primeira medida, que foi tomada com algum atraso pelas autoridades locais, foi colocar em quarentena toda a cidade de Wuhan, local de origem da epidemia com cerca de 11 milhões de habitantes. Uma medida que foi progressivamente alargada às cidades próximas e a mais de 50 milhões de pessoas.

Em fevereiro, o governo chinês introduziu o uso de uma app de telemóvel que indica a ficha de quarentena de cada pessoa: verde para quem pode sair às ruas, amarelo para quem deve ficar isolado em casa por uma semana e, vermelho, para as pessoas que têm de ficar duas semanas isoladas.

“A humanidade usou quarentena para controlar a peste negra na Idade Média, a febre amarela quando ainda não se sabia qual era a causa da doença, a gripe espanhola no início do século XX. Agora aparece um novo vírus. Ninguém está preparado. Ninguém tem experiência com a quarentena porque era algo em desuso”, relembra o epidemologista brasileiro Pedro Vasconcelos, à revista Piauí.

As medidas drásticas de contenção feitas pelas autoridades chinnesas ajudaram o resto do mundo a ganhar tempo, mas dificilmente poderão ser replicadas em outros locais. “Não acredito que nenhum outro sítio do mundo se consiga colocar em prática medidas tão extremas quanto as adotadas pela China”, afirma Benjamin Cowling, chefe da divisão de epidemiologia e bioestatística da Universidade de Hong Kong à mesma revista. Veja-se o caso da Itália em que as autoridades sanitárias locais consideram que o vírus está muito longe de estar contido, devido às dificuldades em restringir a circulação das pessoas.

Apesar disso, um grupo cada vez maior de cientistas defende que todos os locais afetados precisam de implementar medidas coercivas de contenção. “Estas medidas podem infringir liberdades individuais. Mas também podem ser importantes para salvar vidas”, defendeu no Twitter o epidemiologista Marc Lipsitch, diretor do Center for Communicable Disease Dynamics (CCDD), da Universidade Harvard, citado pela revista brasileira.

Um presente dos animais

Como se explica a nossa vulnerabilidade crescente face a pandemias originárias de vírus agressivos transmitidos de homem para homem a partir de mutações que combinam vírus animais e humanos?

Depois de 1949, centenas de micróbios patogénicos apareceram em regiões, em que na maior parte das vezes, nunca tinham sido detetados. É o caso do vírus da imunodeficiência humano (VIH), o Ébola na África Ocidental, ou ainda o Zika no continente americano. A maioria desses vírus, cerca de 60%, são de origem animal, muitos deles provenientes de espécies selvagens.

Apesar de artigos sensacionalistas que “culpablizam” os animais selvagens de serem o ponto de partida de epidemias devastadoras, a verdade é que os animais são pouco responsáveis pelo fenómeno: nós é que invadimos, cada vez mais, o seu habitat. A maior parte desses micróbios patogénicos vivem nos animais sem lhes provocar nenhum mal. O problema é que a desflorestação, urbanização e industrialização selvagem ofereceram a esses micróbios os meios de chegarem ao corpo humano.

Apesar deste fenómeno de mutação dos micróbios animais em agentes patogénicos humanos se ter acelerado, ele data da revolução do neolítico, quando os humanos começaram a ocupar o espaço selvagem com a agricultura e a domesticar os animais para trabalho agrícola. “Em troca, os animais ofeceram-nos algumas prendas envenenadas : devemos o sarampo e a tuberculose às vacas; a tosse convulsa aos porcos; e a gripe aos patos”, explica Sonia Shah, autora do livro “Pandemic : Tracking Contagions, From Cholera to Ebola and Beyond”. 


Notícias relacionadas

Memória. A mulher que derrotou a pneunómica
Há alguns anos a agência Lusa entrevistou Maria Rosa, uma mulher que na altura tinha 101 anos, e que conviveu de perto com a doença que na altura matou mais de 50 milhões de pessoas no planeta.
A Gripe Espanhola seria hoje tão devastadora?
A pandemia de 1918-1919 matou mais de 20 milhões de pessoas no mundo, só em Portugal, mais de 100 mil. Atualmente seria assim tão mortal? Podem os estudos sobre este flagelo ajudar nos planos de combate à pandemia do novo coronavírus? As respostas do especialista.