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Da Europa aos talibãs. EUA criticados pelo caos no aeroporto de Cabul
Mundo 5 min. 23.08.2021
Afeganistão

Da Europa aos talibãs. EUA criticados pelo caos no aeroporto de Cabul

Afeganistão

Da Europa aos talibãs. EUA criticados pelo caos no aeroporto de Cabul

Foto: AFP
Mundo 5 min. 23.08.2021
Afeganistão

Da Europa aos talibãs. EUA criticados pelo caos no aeroporto de Cabul

O aeroporto da capital do Afeganistão é a última possibilidade de fuga para estrangeiros e afegãos que tentam escapar ao novo governo talibã, mas o caos e o desespero têm levado milhares a ficar em terra e a arriscarem a vida para sair do país.

Os talibãs controlam a cidade de Cabul há mais de uma semana, mas o seu aeroporto ainda está sob controlo e coordenação operacional das forças norte-americanas, que ali ficarão, pelo menos, até ao final deste mês.

O aeroporto de Cabul é a última possibilidade de fuga para estrangeiros e afegãos que tentam escapar ao novo governo talibã. As imagens do desespero e de caos, de aviões cheios, ou com afegãos pendurados tentando embarcar, mães a entregarem os filhos bebés a soldados e de pessoas a serem esmagadas na multidão - já morreram cerca de duas dezenas ao longo da últimas semana - têm chocado o mundo e levado a duras críticas à gestão das evacuações, por parte dos EUA, e ao presidente norte-americano, Joe Biden.


Luxemburgueses em Cabul poderão ir em caravana militar até ao aeroporto para regressar a casa
A família de luxemburgueses com três crianças, e as outras quatro pessoas que desesperam em Cabul para voltar para o Luxemburgo têm agora uma nova possibilidade de sair do Afeganistão disse o ministro Asselborn à RTL.

A gestão americana desta fase do processo de retirada do Afeganistão tem feito correr muita tinta nos Estados Unidos, com acusações tanto da parte de republicanos como de democratas. As críticas estendem-se também à Europa, passando pelos próprios talibãs.

Este domingo, o ministro da Europa e dos Assuntos Estrangeiros de França, Jean-Yves Le Drian, relatou ao Le Journal de Dimanche, as exigências feitas, na sexta-feira, aos EUA na reunião da NATO sobre a crise afegã, insistindo que não deve haver precipitação e defendendo a posição francesa junto dos norte-americanos, para que permitam e facilitem a evacuação dos cidadãos dos países aliados e de todos os afegãos em perigo. 

O chefe da diplomacia francesa reclamou no encontro, que se realizou em Washington, "uma coordenação mais eficaz e mais forte" com os aliados.  

Na mesma entrevista, Le Drian assinala que o problema para a retirada das pessoas ameaçadas do Afeganistão é conseguirem chegar ao aeroporto de Cabul, uma vez que existe controlo talibã, o que gera uma situação de caos à entrada do aeroporto, onde estão concentradas mais de 10 mil pessoas. Por isso, defende que é necessário prolongar a operação no aeroporto e com maior coordenação.

“Precisamos de tempo para cumprir essa obrigação [de retirar as pessoas], que é contada em dias ou semanas, não em meses”, sublinhou.


Sete afegãos morrem esmagados na multidão que tenta entrar no aeroporto de Cabul
São milhares de afegãos que se concentram nos acessos ao aeroporto para sair do país, devido ao regresso dos talibãs. Os EUA alertam para possível ataque terrorista no local pelo estado islâmico.

Também este domingo, numa entrevista à AFP, o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell defendeu, à luz desses acontecimentos e da coordenação americana do aeroporto e das evacuações, que a Europa precisa de desenvolver a sua própria capacidade militar independente dos Estados Unidos, reconhecendo que as potências europeias teriam dificuldade em evacuar os seus cidadãos e aliados afegãos antes dos Estados Unidos terminarem a sua operação no aeroporto de Cabul, o que se prevê que possa acontecer já a 31 de agosto.

De acordo com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, vários países aliados dos EUA pediram na reunião de sexta-feira que os norte americanos adiassem a sua partida, pois sem os 6.000 elementos das tropas norte-americanas destacadas no aeroporto, as operações europeias poderão ter de cessar.   

Bruxelas pede mais flexibilidade aos EUA

A missão diplomática da UE em Cabul conta com 400 funcionários e familiares afegãos que seriam elegíveis para emigrar para a Europa - mas apenas 150 conseguiram partir até agora e alguns dos aviões enviados pelas forças armadas da UE estão a voar meio vazios. Um terço dos passageiros de um voo que chegou a Espanha no sábado eram americanos, disse Borrell à AFP.

Além das dificuldades criadas pelos talibãs, o chefe da diplomacia europeia aponta o dedo também às forças norte-americanas.


Cabul. Uma família luxemburguesa com três crianças e mais quatro pessoas pedem ajuda para voltar para o Grão-Ducado
Sábado de manhã, os nove residentes do Luxemburgo, ainda não tinham conseguido serem repatriados de Cabul. Um deles falou com a RTL e contou o desespero vivido. O ministro vinca estar a fazer tudo para os tirar de lá.

"O problema é o acesso ao aeroporto - os controlos e medidas de segurança dos EUA são muito fortes", que estavam a impedir a passagem do pessoal afegão, disse Borrell, acrescentando que Bruxelas tinha pedido a Washington para mostrar "mais flexibilidade".

"Lamento muito a forma como as coisas correram, mas ninguém pediu a opinião dos europeus", afirmou Josep Borrel recordando as palavras do presidente dos EUA como lição para o futuro da Europa. "Alguns países vão ter de se interrogar sobre um aliado americano que, como disse Joe Biden, não quer travar as guerras de outras pessoas por elas.

"Os europeus não têm escolha. Temos de nos organizar para lidar com o mundo tal como ele é e não com o mundo com que sonhamos".

Popularidade de Joe Biden em baixa

A crise do Afeganistão levou a que a popularidade de Joe Biden atingisse os níveis mais baixos desde que assumiu o cargo de presidente dos EUA.

Na semana passada, três destacados democratas no Senado dos Estados Unidos pediram ao presidente americano, eleito pelo Partido Democrata, explicações para a retirada caótica das tropas norte-americanas do Afeganistão, comprometendo-se a iniciar investigações.  

Do lado dos republicanos, as críticas soaram assim que os talibãs entraram em Cabul. O ex-presidente norte-americano Donald Trump pediu a demissão de Joe Biden, pela "vergonhosa" e "incompetente" retirada do Afeganistão das tropas dos Estados Unidos.

"O Afeganistão é o resultado militar mais vergonhoso da história dos Estados Unidos. Não tinha de ser assim", afirmou o antigo presidente cuja administração celebrou um acordo com os talibãs em 2020, prevendo a retirada das forças norte-americanas.

Talibãs responsabilizam EUA pela situação no aeroporto

Também os talibãs responsabilizaram este domingo os Estados Unidos pelo caos no aeroporto de Cabul.

"A América, com todo o seu poder e equipamento (...), não conseguiu levar a ordem ao aeroporto. Há paz e calma em todo o país, só há caos no aeroporto de Cabul (...) Isto tem de acabar o mais depressa possível", disse Amir Khan Mutaqi, um dos líderes dos talibãs, citado pela AFP.


Guarda afegão morto em tiroteio no aeroporto de Cabul
O guarda terá sido morto durante uma troca de tiros entre as autoridades afegãs e atacantes não identificados.

A crise no Afeganistão e o problema das evacuações vão ser debatidos numa reunião do G7, convocada de emergência para esta terça-feira.

"É vital que a comunidade internacional trabalhe junta para conseguir retiradas seguras, prevenir uma crise humanitária e apoiar o povo afegão para garantir o que foi alcançado nos últimos 20 anos", afirmou este domingo, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson na sua conta na rede social Twitter.  

Com agências 

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O grupo do Estado Islâmico, rival dos Taliban, representa a maior ameaça à retirada após ter levado a cabo um ataque suicida à bomba no aeroporto na semana passada, que ceifou mais de 100 vidas, incluindo 13 tropas norte-americanas.