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Cuba. Praias, mojitos e vacina anti-covid

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Cuba. Praias, mojitos e vacina anti-covid

Cuba. Praias, mojitos e vacina anti-covid

Cuba. Praias, mojitos e vacina anti-covid


por Paula SANTOS FERREIRA/ 01.04.2021

Este país do Caribe vai apostar no turismo de vacinação, oferecendo as suas próprias vacinas, tal como a Rússia. A realidade cubana e as críticas à desigualdade desta nova tendência mundial.

Depois da Rússia, que ainda este mês irá receber os primeiros turistas europeus para uma estadia turística que inclui a toma da vacina ‘Sputnik V’, a maior ilha do Caribe prepara-se também para este novo turismo de vacinação, oferecendo igualmente as suas vacinas ‘made in’ Cuba.

“Praias, caraíbas, mojitos e vacinas. Tudo num só lugar”. É este o slogan publicitário de Cuba para atrair o novo ‘turismo de vacinação’, que alia férias ou curtas estadias com a oferta de vacinação anti-covid para quem tem dinheiro e não quer ter de esperar pela sua vez na ‘fila de espera’ no país onde vive. 

Atualmente, existem quatro vacinas a ser desenvolvidas em Cuba sendo que ‘Soberana 02’ e a ‘Abdala’ se encontram já na fase III dos ensaios clínicos. Serão estas as primeiras vacinas a ser incluídas nos pacotes turísticos propostos a quem deseja imunizar-se contra o vírus da pandemia ao mesmo tempo que desfruta de uns dias de férias no país. Até ao final do ano, as autoridades cubanas querem produzir 100 milhões de doses de vacinas, como diz Vicent Verez, diretor do Instituto Finlay de Havana num video promocional que está a ser divulgado nas redes sociais (ver vídeo). 

 

 

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Onde se pode tomar "uma Cuba libre e ser livre-covid"
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Helen Yaffe, economista da Universidade de Glasgow, na Escócia, e especialista em História e Economia Social de Cuba visitou Havana entre dezembro e janeiro tendo falado com responsáveis dos polos científicos a quem pertencem aos laboratórios de biotecnologia onde estão a ser desenvolvidas as vacinas.

Ao Contacto esta especialista lembra que Cuba “sempre disponibilizou os seus medicamentos e conhecimentos médicos ao mundo”, aliás, “os medicamentos cubanos são utilizados em campanhas de imunização infantil na América Latina”. O avanço do setor biotecnológico do país é conhecido internacionalmente, especialmente entre os latino-americanos.

“Por outro lado, Cuba é um destino turístico apreciável, um país com um desenvolvimento sustentável, e um local seguro com uma cultura calorosa e uma população altamente educada”, vinca Helen Yaffe (foto em baixo). Por isso, esta aliança faz sentido.

 

 No entanto, ainda “não está claro quando e como” a vacinação turística se vai processar, uma vez que a vacinação completa das duas vacinas cubanas mais avançadas “requerem três doses, com intervalos de duas semanas cada uma para a vacinação ficar completa”, referiu esta especialista que planeia voltar ao país de Fidel Castro no verão.

“Teremos de esperar e ver se os turistas poderão ir à ilha para uma Cuba Libre e ser Covid-libre”, vinca Yaffe autora do livro “We are Cuba”.

Em seu entender, o ‘imunoturismo’ em Cuba pode representar para muitos “um atalho para serem vacinados, sobretudo, os milhões de latino-americanos, que irão provavelmente ter à sua frente uma longa espera por estas vacinas que são produzidas por grandes farmacêuticas visando o lucro”.

Apesar da aposta neste turismo, a vacinação da população cubana é uma prioridade, e “até ao final de maio irão ser vacinados dois milhões de cubanos, a maioria da população de Havana, no âmbito de estudos de intervenção”, frisa Helen Yaffe.

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Todos vacinados "até final 2021"
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“Se tudo correr bem, a vacinação em massa será iniciada em junho. No final de agosto, seis milhões de cubanos deverão ter levado já as três doses, ou seja, a vacinação completa. E até ao final do ano, Cuba tornar-se-á um dos primeiros países do mundo a ter a sua população completamente vacinada”, estima esta professora da Universidade de Glasgow que no verão irá voltar a Cuba.

A restauração do turismo ajudará a economia cubana, “que encolheu 11% no ano passado, devido não só à necessidade de fechar as fronteiras ao turismo, mas também em resultado de ações, medidas e sanções introduzidas pela anterior administração Trump, particularmente desde 2019”. Helen Yaffe recorda que, mesmo durante a pandemia, os EUA “adotaram quase meia centena de novas ações, apesar de a ONU, a OMS e outros organismos exigirem o fim das sanções que afetam a capacidade de resposta dos países à crise sanitária global”.

De início, Helen Yaffe sabe que “o número de visitantes será limitado enquanto a maioria dos países de origem dos turistas continuarem a sofrer elevadas taxas de Covid, mesmo depois de Cuba ter vacinado o país”.

O Governo cubano pretende igualmente exportar as suas vacinas para outros países. Atualmente, a fase III dos ensaios das duas vacinas cubanas já conta com a participação de “100 mil iranianos e 60 mil venezuelanos”, vinca a especialista. Resta esperar que as vacinas estejam disponíveis e tudo organizado para que Cuba se imponha como um forte destino do turismo de vacinação. 

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Rússia. Turistas da vacina chegam este mês
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A Rússia quer ser o primeiro país a abrir portas a este novo turismo e ainda, este mês, irá começar a receber europeus que desejem ser vacinados contra a covid-19, oferecendo-lhes a sua vacina ‘Sputnik V’, como noticiou o Contacto a 23 de março. 

O acordo foi feito com o operador turístico ‘World Visitor’ com agências na Alemanha, onde a lista de reserva já tem “centenas de pessoas inscritas”, como declarou ao Contacto Lutz Schönfeld, assessor de comunicação deste operador em terras alemãs. “As nossas viagens estão também disponíveis para os residentes no Luxemburgo e em Portugal, bem como para todos os cidadãos europeus”, vincou este responsável. O pacote mais acessível é de 1990 euros e inclui duas curtas estadas em Moscovo para a toma da respetiva dose. (ver notícia em baixo).


Já pode ir à Rússia levar a vacina anti-covid e ainda passar férias, propõe agência na Alemanha
Por 1.990 euros faz duas viagens curtas a Moscovo, para a toma das duas doses da vacina russa 'Sputnik V', é uma das opções da agência de viagens, na Alemanha, disponíveis também o Luxemburgo e Portugal. O ministério de Paulette Lenert não se opõe.

Também as agências na Índia estão já a preparar pacotes exclusivos de turismo de vacinação para os mais abastados. Isso mesmo anunciaram dois grandes operadores turísticos de Bombai, no final de 2020, divulgando a intenção de oferecer curtas viagens ao estrangeiro, nomeadamente aos EUA (a quem tiver visto) ou Rússia, por cerca de 2000 euros para a toma da vacina. 

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Turismo polémico só para ricos
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Foto: AFP

Este turismo de vacinação que permite aos mais endinheirados “passar à frente da fila” no acesso à vacina tem sido alvo de críticas em todo o mundo.

O ‘imunoturismo’ “não respeita o igual acesso de todos à vacina contra a pandemia, nem respeita a solidariedade mundial que se tem vindo a pedir no combate a esta pandemia”, declara ao Contacto Isabel Wiseler-Lima, eurodeputada luso-luxemburguesa manifestando-se contra esta nova tendência.

Foto: Thierry Monasse


A eurodeputada do CSV tem esperança de que os europeus “não se sintam atraídos” por este novo turismo. Por várias razões. 

 Por um lado, Isabel Wiseler-Lima acredita que o programa de vacinação nos países da UE irá avançar mais rapidamente, “os processos estão a evoluir nesse sentido e vão estar disponibilizadas novas vacinas, como a da Johnson & Johnson que permitem acelerar a vacinação”.

Vacinas sem aprovação da UE

A criação para breve do ‘certificado verde de vacinação’ será outro fator desencorajador do ‘imunoturismo’. “Este certificado pessoal não só inclui se a pessoa já foi vacinada, como se possui anticorpos, porque já esteve infetada, como se tem um teste de rastreio negativo, o que lhe permitirá recuperar uma certa liberdade”, refere a eurodeputada luso-luxemburguesa. No verão, algumas viagens de já deverão ser possíveis desta forma.

Outra grande desvantagem para os cidadãos da UE é a necessidade de aprovação destas e de todas as vacinas pela Agência Europeia do Medicamento (EMA).

Se as vacinas oferecidas nesse turismo de vacinação “não estiverem aprovadas pela UE não serão válidas para o certificado de vacinação, logo não podem constar neste documento pessoal”, alerta Isabel Wiseler-Lima. É o caso da vacina russa ‘Sputnik V’ que aguarda a aprovação da EMA. E o mesmo se passará com todas as outras vacinas, como as cubanas ‘Soberana  2’ e ‘Abdala’.

Ter acesso à vacina no próprio país

“O importante é todos terem acesso à vacina no seu próprio país. A partir do momento em que pessoas sabem que vai chegar a vez delas e serão vacinadas, penso que este turismo de vacinação não tem grande futuro”, vincou a eurodeputada.

Também Helen Yaffe concorda que “tudo o que privilegie o acesso às vacinas por parte daqueles que dispõem de maiores recursos irá exacerbar as desigualdades sociais no acesso à pandemia”. Para a economista, a solução para esbater este problema passa pela isenção de patentes das vacinas.

 “Dada a influência e controlo das grandes corporações farmacêuticas, que são interesses privados à procura de lucro, a única forma de mitigar esta situação é a ONU e a OMS anunciarem que as patentes de vacinas Covid-19 são dispensadas para que todos os países com capacidade de produzir as suas vacinas o possam fazer, incluindo a Índia”, vinca Helen Yaffe. Enquanto a população não estiver vacinada e as esperas forem longas nos países de origem este novo turismo pode vingar.

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