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Impossível jogar em campo neutro
Opinião Mundo 4 min. 08.07.2021
Cuba/Jogos Olímpicos

Impossível jogar em campo neutro

Cuba/Jogos Olímpicos

Impossível jogar em campo neutro

Foto: AFP
Opinião Mundo 4 min. 08.07.2021
Cuba/Jogos Olímpicos

Impossível jogar em campo neutro

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Pela segunda vez em dois meses, Cuba viu a sua participação numa competição desportiva perturbada pela acção dos EUA. Semanas depois da ONU ter votado (de novo) esmagadoramente pelo fim do bloqueio.

Com três medalhas de ouro e duas de prata nas Olimpíadas, Cuba estava até Maio no 7º lugar do ranking de selecções de basebol. Agora está no 11º. Pela primeira vez desde 1992, em que o basebol se tornou desporto olímpico, Cuba não vai participar nos Jogos.

Não será talvez alheio o facto de a selecção cubana ter sofrido para conseguir jogar sem perturbações no torneio de qualificação de basebol para os Olímpicos de Tóquio. Oito países competiam na Florida pelos seis primeiros lugares que lhes dariam o passaporte para o Japão: Cuba, Estados Unidos, Venezuela, Porto Rico, República Dominicana, Nicarágua, Colômbia e Canadá.

A Wikipedia diz que a selecção cubana de basebol "é formada por jogadores amadores" já que "não existem ligas profissionais" no país. Não haver grandes patrocinadores, mercado de transferências e salários milionários é o que a Wikipedia entende por "amador". O basebol é o desporto nacional de Cuba, país que, além de "exportar" médicos, também "exporta" grandes jogadores para os EUA. Sabe que tem de lidar com a competição da toda-poderosa multimilionária MLB, liga de basebol norte-americana, que Cuba tem vindo há anos a acusar de "tráfico de atletas".

Mas o torneio foi um pesadelo. Não só os EUA adiaram a concessão de vistos aos cubanos até à véspera da competição, como o jogo com a Venezuela foi interrompido por protestos. Vários membros da comunidade dissidente em Miami galvanizaram as redes sociais chamando cubanos e venezuelanos no exílio para "encher o estádio contra o comunismo". Protestos nas bancadas é algo a que Cuba estará habituada. Jogos interrompidos por espectadores, não.

Enquanto a selecção de basebol regressava a casa de mãos a abanar (perdeu contra a Venezuela e o Canadá), a de futebol preparava-se para a Copa de Ouro, que começa dia 10, organizada pela Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF), quase sempre nos EUA. Mal sabiam os atletas que devido a obstáculos criados pelos EUA, os vistos não chegariam. Desde Trump que a embaixada dos EUA em Havana deixou de emitir vistos. Cubanos têm de viajar à Nicarágua ou México para realizar trâmites migratórios. No sábado, Cuba deveria jogar a pré-eliminatória com a Guiana Francesa. A CONCACAF emitiu um comunicado explicando que devido a "desafios com vistos" e tipos de testes de Covid-19, o jogo não iria acontecer. A Federação Cubana de Futebol confirmou que os jogadores ficaram em Manágua sem conseguir viajar para a Florida, "porque o governo dos EUA não outorgou os vistos" aos atletas. A Guiana avançou na competição. Cuba foi automaticamente desqualificada. Com os EUA é impossível jogar em campo neutro.

"Questões alheias ao desporto impedem o nosso país de competir em terreno norte-americano em igualdade de condições com os seus rivais", disse a Federação. "Nenhum atleta no mundo deveria enfrentar um ultraje desta natureza". Os jogadores partilharam no twitter a humilhação engolida por serem impedidos de jogar.

O bloqueio imposto a Cuba pelos Estados Unidos permeia todos os aspectos do quotidiano dos cubanos. A questão dos vistos é só mais um exemplo. Não é só um embargo comercial. Não é só, como em casos de sanções económicas, de congelamento de contas no exterior. O bloqueio existe há mais de 60 anos, agravado penosamente nos últimos 30. Há 15 dias, a Assembleia-Geral da ONU voltou a votar (desde 1992 que o faz anualmente) pelo fim do bloqueio. Esmagadoramente a favor. Só dois países votaram sempre sistematicamente contra: EUA e Israel. Excepto em 2016 (Obama) em que se abstiveram. O bloqueio não tem nada a ver com o "comunismo" ou o "Fidel Castro": é tão-só um problema ideológico dos Estados Unidos e da sua fauna reaccionária na Florida.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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