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Reze pelo Haiti
Opinião Mundo 4 min. 14.07.2021
Crise política e social

Reze pelo Haiti

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Reze pelo Haiti

Foto: AFP
Opinião Mundo 4 min. 14.07.2021
Crise política e social

Reze pelo Haiti

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
O Caribe pegou fogo: com os media concentrados em Cuba, continua-se a dizer que o Haiti é "ingovernável". A linha pouco ténue que une golpes de estado a dependência económica e dívida externa pode ajudar a explicar.

Duzentos anos após a sua independência, conseguida a ferros na primeira rebelião de escravos contra uma colónia no mundo, o Haiti está novamente mergulhado num caos político, económico e social, após o assassinato do seu presidente. Jovenel Moïse estava em funções há meses após ter prometido eleições sem as cumprir, e foi assassinado por mercenários americanos e colombianos, com ligações à Administração de Fiscalização de Drogas (DEA) dos EUA, ao exército da Colômbia e ao próprio Presidente Duque.

Na sua análise no Público, Jorge Almeida Fernandes explica tudo muito bem. Continua, contudo, a insistir na falsa equivalência entre uma espécie de destino malfadado do Haiti e sua actual situação. A leitura da ligação umbilical entre as falhas tectónicas em que assenta a ilha de Santo Domingo, as rotas dos furacões e as sucessivas falências do estado haitiano é poética mas não serve para compreender o que continuamos a chamar de “estado falhado” e, sobretudo, como o Haiti chegou aqui.

Claramente, não foi porque há qualquer coisa de genético ou de autóctone ao território para ser ingovernável. Claramente, não foi porque a sua população é maioritariamente afro-descendente. Claramente, não foram por acaso os inúmeros golpes de estado, invasões, chantagens que tanto a França como os EUA durante todo o século XX e XXI impuseram ao país. Também não foi por acaso o envolvimento de norte-americanos e colombianos no assassinato do presidente. O Washington Post trazia também uma curiosa notícia sobre o envolvimento da embaixada do Taiwan no golpe.

Faltou, portanto, o salto necessário de ligar a “falência” do estado com a dívida do Haiti à França, paga em 1825 para garantir a soberania da sua independência, e depois “renegociada” com os EUA quando a ilha (como outros países do Caribe e do continente, com o fim da escravatura) se tornou um “protectorado” mais ou menos oficial dos EUA.

O Haiti deve hoje à França o equivalente a 21 mil milhões de dólares, dívida paga pelas “reparações” aos colonos pela perda das plantações. Esta conversa sobre dívida é necessária porque, precisamente, é na própria França (na Alemanha, Reino Unido ou nos EUA) que hoje se discutem processos de reparação mais ou menos de facto ou simbólicos, como “pedidos de desculpa”, pela escravatura. Esta é a conversa que as economias que beneficiaram dos impérios coloniais e os sucedânios (EUA) não querem ter: é mais fácil criar bolsas para estudantes afro-descendentes nas Universidades como compensação/reparação pela escravatura e assim concluir que se “descolonizou” a história. Ninguém quer desfazer o nó que ata as economias dependentes e subservientes do Sul global ao capital (económico e financeiro) do Norte, com origem nos impérios, no genocídio indígena e no tráfico e escravização de milhões africanos.

É fácil ler o (sub)desenvolvimento à luz de terramotos e furacões. Ou da ingovernabilidade da “natureza humana”. Mas está tudo nos modos de exploração.

O Haiti não está sozinho na dívida acumulada que faz da sua economia absolutamente dependente da “ajuda” externa (e já pediu nova “intervenção” económica e militar dos EUA). A França continua a ter uma relação de neo-colonialismo económico com países em África que ainda pagam impostos “coloniais”. E podem traçar-se ligações claras entre golpes de estado recentes e dívida externa de muitos deles: Benim, Burkina Faso, Senegal, Costa do Marfim, Mali, Níger, Togo, Camarões, República Centro Africana, Guiné Equatorial, Chade, Congo e Gabão.

É fácil ler o (sub)desenvolvimento à luz de terramotos e furacões. Ou da ingovernabilidade da “natureza humana”. Mas está tudo nos modos de exploração. Como sugeria Caetano Veloso, “quando você for dar uma volta no Caribe, trepar sem camisinha e apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba, pense no Haiti, reze pelo Haiti”.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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