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Crise. Manifestantes querem paralisar Luanda sem sair de casa
Mundo 6 min. 11.10.2019

Crise. Manifestantes querem paralisar Luanda sem sair de casa

Crise. Manifestantes querem paralisar Luanda sem sair de casa

Mundo 6 min. 11.10.2019

Crise. Manifestantes querem paralisar Luanda sem sair de casa

Um acto de desobediência civil está programado para o dia de hoje em Luanda, promovido por músicos, artistas, celebridades e até por taxistas, com apelos aos cidadãos para que todos fiquem em casa e não compareçam ao trabalho para paralisarem a capital angolana.

A onda de descontentamento social tem como pano de fundo uma profunda crise económica, desemprego elevado, preços a subir diariamente e extravagâncias dos muito ricos e, também. segundo o Presidente João Lourenço, devido à reacção dos apoiantes do antigo Chefe de Estado, descontentes com a sua luta contra a corrupção.

Estão marcadas novas manifestações para os dias 15, 21 e 28, sendo que no dia 15 João Lourenço profere na Assembleia Nacional o seu discurso sobre o estado da nação.

Nos últimos dias tem circulado panfletos pelas ruas de Luanda a apelar aos cidadãos a participarem num tipo inédito de manifestação e protesto: um acto de não cooperação que consubstancie uma desobediência civil generalizada que paralise a capital do país – “o resto é mato” como dizem.

O panfleto profusamente distribuído é apócrifo, mas alguns dos artistas, actores e Dj´s que tem vindo a público a incentivar os cidadãos a aderirem ao acto de “não cooperação” são tidos como pessoas descontentes com a agenda política do Presidente João Lourenço, no seio do MPLA, o partido no poder.

A gota de água contra esta “insultuosa ostentação” foi a realização do casamento faraónico da filha do Presidente da Assembleia Nacional, Fernando Piedade dos Santos “Nandó”, que escandalizou a população mais pobre a quem falta emprego e até água potável, pelo luxo escandaloso exibido. O Presidente João Lourenço foi o padrinho da noiva.

O luxuoso matrimonio, que custou mais de dois milhões de dólares e que durou três dias, está a fomentar reações de desagrado nas ruas e redes sociais pela sua extravagância jamais vista em Angola.

O casamento decorreu num cenário de castelo medieval montado na Marginal de Luanda por um decorador árabe, contratado para o efeito.

“Ostentação insultuosa”

“É pena que o Presidente da República tenha ido prestigiar tão obsceno acto. Apesar das relações familiares, João Lourenço deveria ter poupado aos angolanos a ideia de que o seu presidente apadrinha a ostentação insultuosa ao país”, escreveu Graça Campos, num editorial, no Correio Angolense, intitulado “Insulto e desdém”.

Para este jornalista, “mesmo nos seus piores deslizes, José Eduardo dos Santos e seus rebentos não ousariam ir tão longe”.

Alguns articulistas na imprensa mais próxima de João Lourenço acusam os promotores anónimos da “manifestação” de serem saudosistas do ex-Presidente José Eduardo dos Santos.

Um jornalista que garante que a crise é a única motivação dos protestos, e que pediu o anonimato, disse ao Contacto: “Até os chineses estão a fugir de Angola, o que dá bem uma ideia da dureza desta crise”, recordando que em 2012 havia em Angola 300 mil chineses e que agora só devem ser 40 mil.

O mesmo jornalista dá como exemplo de uma economia totalmente estagnada e manifesta “estranheza” o facto de, no primeiro semestre de 2019, só ter havido um acidente de trabalho na construção civil. A Inspetora Geral do Trabalho confirmou que não há acidentes, porque não há trabalho.

No mesmo período, a maior agência imobiliária não vendeu um único apartamento, apesar do parque habitacional estar inundado de casas novas por habitar. “Estranho, não?”, questiona.

 Dinheiro "desviado do Estado"- diz João Lourenço

Na abertura do congresso da Juventude do MPLA, na quinta-feira, João Lourenço alertou os jovens militantes do seu partido para a preparação de acções de desestabilização do país com dinheiro "desviado do Estado".

"Não são estrangeiros que querem desestabilizar o nosso país, são angolanos, aparentemente do MPLA - e digo aparentemente porque não se comportam como tal - com o descaramento de falarem em nome do povo angolano", disse.

“Aqueles que andaram a desviar dinheiro do Estado, ligados aparentemente ao MPLA, estão a utilizar esse dinheiro para desestabilizar o país", acusou numa alusão aos apoiantes do seu antecessor.

João Lourenço deixou algumas perguntas no ar: "Quando eles desviaram o dinheiro do nosso país, repartiram com o povo? Repartiram com os jovens? E então como é que agora estão a falar em defesa do povo e dos jovens?"

"Os mesmos que estavam embrulhados na corrupção, os mesmos que desviaram os recursos do país, para fora do país, apenas para eles, são os que estão a utilizar esses mesmos recursos para financiarem a companha de desestabilização".

"Corruptos e avarentos"

"Eu levanto essa questão aqui porque são os jovens que estão a ser pagos para fazer esta campanha. Esses jovens são exemplares? Nós pensamos que não. E penso que estão a fazer esta campanha por 100 euros, nem isso, porque aqueles avarentos não lhe vão pagar muito mais", afirmou.

"Nós vamos continuar porque reconhecemos que os índices de desemprego são altos e precisamos de trabalhar para dar emprego a todos os angolanos, e à juventude em particular. Mas só há emprego se houver investimento e, para isso, é preciso combater a corrupção, pois os investidores já não aceitam investir se por detrás do pano tiverem de dar 20 ou 30 mil ao funcionário do balcão", sublinhou.

“Eu queria sair desta sala com uma posição muito clara dos jovens. Vamos continuar com esta luta? Vamos continuar com firmeza, sem hesitação?”, perguntou. A resposta chegou afirmativa em coro.

“Então parece que saio daqui com o mandato da juventude para continuar a luta contra a corrupção. Vamos cumprir a vossa ordem”, afirmou.

IVA é “castigo ao povo angolano”, diz Bispo

A profunda crise económica em que Angola está mergulhada, a seca extrema em seis províncias, que tem causado inúmeras vítimas, a pompa do casamento da filha do Presidente da Assembleia Nacional, está a ser usada como rastilho para o monumental descontentamento que se vive pelas ruas do país onde, efectivamente, a pobreza atingiu níveis nunca vistos.

Apesar dessa pobreza crescente, o governo decidiu introduzir o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) no país, agravando ainda mais as difíceis condições de vida de uma população sem empregos, para além do da venda de rua, num país em recessão profunda e com mais de 20 milhões de pobres.

O bispo católico da província angolana de Cabinda, Belmiro Chissengueti, considera que a introdução do IVA provocou a “subida exponencial” dos preços e traduz-se num “castigo ao povo angolano sem o salário ajustado”.

“Embora, como se diz, seja o chamado imposto mais justo, na verdade estou com dificuldades em entender a sua aplicação, na medida em que foi dito que os produtos da cesta básica não seriam taxados por esse imposto”, denunciou o bispo.

Segundo o prelado católico, actualmente os preços dos produtos básicos subiram de maneira “exponencial e descontrolada”.

Entretanto, o Chefe de Estado - denominado popularmente como o “exonerador implacável”-  procedeu no início da semana a mais uma vasta remodelação, da qual se destaca a  demissão do ministro das Finanças, Augusto Archer de Sousa, da Ministra da Educação, Maria Cândida Teixeira, da Secretaria de Estado para as Finanças e Tesouro, Vera Esperança dos Santos Daves, e do governador da longínqua província do Namibe, para a qual nomeou o Ministro das Finanças exonerado. S.R.S.

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