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Criador da internet anuncia plano para erradicar as ‘forças do mal’
Mundo 6 min. 26.11.2019

Criador da internet anuncia plano para erradicar as ‘forças do mal’

Tim Berners-Lee é considerado um dos pais da WWW (world wide web).

Criador da internet anuncia plano para erradicar as ‘forças do mal’

Tim Berners-Lee é considerado um dos pais da WWW (world wide web).
Foto: Sven Braun/dpa
Mundo 6 min. 26.11.2019

Criador da internet anuncia plano para erradicar as ‘forças do mal’

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Num momento em que as plataformas digitais estão a ser acusadas de promover o ódio e a desinformação, Tim Berners-Lee anunciou ontem um pacto para pôr a web ao serviço da humanidade.

É o chamado "wake-up call". O alerta é este: "Se deixarmos a 'net' como está, haverá muita coisa a correr mal. Podemos acabar numa distopia digital, se não dermos uma volta a isto. Não precisamos de um plano de dez anos, precisamos de dar uma volta à internet agora", disse ao Guardian Tim Berners-Lee, o homem que criou o serviço da world wide web (www), a propósito do plano anunciado ontem formalmente num congresso em Berlim.

O plano é o Contract for the Web (Contrato para a Internet) e está disponível na Web Foundation, uma instituição co-fundada por Berners-Lee e da qual é diretor. Muito claramente, a iniciativa pretende pôr a internet a salvo das forças malignas que nos últimos tempos tomaram o controle - através de 'fake news', venda massiva não autorizada de dados pessoais, violação de privacidade, disseminação de discursos de ódio ou manipulação política em eleições ou ações concertadas contra minorias - e que estão a desvirtuar os propósitos nobres da tecnologia ao serviço da humanidade desde 1991.

O Contract for the Web incita governos, empresas e mesmo indivíduos a comprometer-se a cumprir os valores que estão na base da criação da internet: a democratização do conhecimento e o avanço do bem estar das comunidades, sem discriminação. O documento agora divulgado veicula nove princípios genéricos (com 76 cláusulas específicas), dos quais três destinam-se a governos, outros três a empresas e os três restantes a indivíduos (que podem assinar o contrato no site da fundação). Este contrato é definido como "um mecanismo para que cada parte seja responsável por fazer a sua parcela para criar uma internet aberta e livre".

Propõe-se que os governos signatários assegurem em primeiro lugar que toda a gente possa ligar-se à internet; manter a internet disponível na sua integralidade, o tempo todo; respeitar e proteger os direitos fundamentais, a privacidade e os dados online. Para as empresas, propõe-se que se comprometam a manter a internet a preços acessíveis e disponível para todos; a respeitar e a proteger a privacidade das pessoas e dos seus dados privados, de forma a criar confiança online e, o terceiro princípio, desenvolver tecnologia para promover o melhor da humanidade e dificultar a disseminação do pior. Quanto aos indivíduos que queiram comprometer-se com o Contrato para a Internet, deverão assumir-se como criadores e colaboradores na internet; criar comunidades fortes que respeitem o discurso cívico e a dignidade humana, e, por último, lutar pela web.

Este contrato foi desenvolvido por peritos de governos, empresas e da sociedade civil ao longo de um ano, como plano de ação global para tornar o mundo digital mais seguro e benéfico para todos. No momento do lançamento já tinha sido assinado por mais de 150 empresas digitais, entre as quais o Facebook, a Google, a Microsoft e o Twitter.

Num texto na Web Foundation uma das diretoras, Emily Sharpe, refere que o poder da internet de ser "uma força para o bem está ameaçado e estamos à procura das soluções certas. Os governos lutam para aprovar leis que acompanhem a rápida evolução da tecnologia. As empresas prometem respeitar os direitos dos utilizadores mas depois tomam decisões que dão prioridade ao lucro imediato e prejudicam os consumidores e a sociedade. Os nossos direitos humanos estão em risco. Mas não tem que ser assim. Temos o poder de ultrapassar estas ameaças e lutar pela web que queremos - mas só se arregaçarmos as mangas e trabalharmos para criar soluções que criem mudanças reais".

A Web Foundation acredita, segundo as palavras de Emily Sharpe, que o Contrato para a Internet representa um momento de viragem crucial. "Precisamos de um movimento para a internet tal como precisamos para o ambiente, de modo a que os governos e as empresas sejam muito mais responsáveis".

O sucesso do fact-checking à portuguesa

Entre os maus usos da internet, a manipulação da informação surge como um dos principais. Nos últimos anos, as 'notícias falsas' tornaram-se uma praga, ao ponto de em 2017 a Sociedade Americana do Dialeto ter escolhido ‘fake news’ como palavra do ano. Ao mesmo tempo, começaram a proliferar os projetos jornalísticos de 'fact-checking' dedicados a expor a mentira. Fernando Esteves, diretor do site de fact-checking português Polígrafo, refere que a quantidade de notícias falsas, ou desinformação, é tão grande que é impossível quantificar: "Existem plataformas gigantescas de distribuição que estão sempre a produzir e a reproduzir rumores. Sabe-se apenas que é algo de massivo e perigoso". Outro dos motivos pelos quais é impossível saber quantas notícias falsas são criadas por dia é porque "só depois de desmascarado é que se sabe o que era verdade ou mentira. E isso é uma análise qualitativa", feita em muitos sites de jornalismo como o Factcheck.org, que foi o primeiro, ou o Politifact, o maior de todos e que já ganhou um Prémio Pulitzer [galardão mais prestigiado do jornalismo]. Sendo que a desinformação mais perigosa "é aquela que surge a partir de uma base de verdade" e que normalmente serve para atingir fins específicos, muitas vezes ideológicos ou políticos.

O Polígrafo, diz Fernando Esteves, e um outro meio em Espanha, o Neutral, são os únicos que se tornaram também sucessos televisivos. O site português tem cerca de 1 milhão de espectadores no seu espaço semanal no Jornal da Noite da SIC, à segunda-feira, motivo pelo qual, em Portugal "as pessoas estão muito familiarizadas com o assunto". Por norma, o Polígrafo "não faz verificação de jornais e jornalistas". A procura do erro e da mentira é feita nos textos e afirmações dos políticos, dos influenciadores e também nos posts que se tornam virais nas redes sociais. O critério é o da atualidade "que é fundamental", e o do alcance.

Para explicar como uma mentira mil vezes partilhada se torna verdade, Fernando Esteves costumar contar o caso de um utilizador das redes sociais, Nuno Folgado, que se auto-intitula o Toni Carreira do Facebook. Sendo um utilizador médio do Facebook - com cerca de 300 amigos - decidiu colocar um post emotivo a dizer que um rapaz do Alentejo tinha ganho uma olimpíada de física quântica e ninguém estava a falar disso, só se liga a futebolistas. Pouco tempo depois tinha 90 mil partilhas de pessoas indignadas com a falta de proporcionalidade com que o país trata os seus. Ao ponto de o próprio ter lançado o alerta e ter-se auto desmascarado contando que a 'notícia' era falsa e a foto do rapaz alentejano era a de um ator pornográfico espanhol. Mas, se este caso é apenas divertido e não magoa ninguém, nem sempre isso é assim.

A matéria-prima de que sites como o Polígrafo vivem, mesmo com iniciativas para limpar a net, parece longe de acabar. Mas, diz Fernando Esteves "trocava a utilidade do Polígrafo por uma sociedade mais limpa, por uma democracia plena".