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Covid-19. Nova Iorque regista 100 casos de inflamação grave em crianças
Mundo 7 min. 14.05.2020 Do nosso arquivo online

Covid-19. Nova Iorque regista 100 casos de inflamação grave em crianças

Covid-19. Nova Iorque regista 100 casos de inflamação grave em crianças

Mundo 7 min. 14.05.2020 Do nosso arquivo online

Covid-19. Nova Iorque regista 100 casos de inflamação grave em crianças

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Governador dos EUA lança alerta para associação de doença de Kawasaki com coronavírus nas crianças. Pediatra portuguesa pede aos pais para não terem medo de levar filhos às urgências. "Não há razão para pânico", descansa.

O regresso a casa de Jayden Hardowar, um menino de 8 anos de Queens, em Nova Iorque, EUA, que sofreu uma paragem cardíaca devido a complicações da doença de Kawasaki, uma sintomatologia rara pediátrica, associada à covid-19, foi motivo de festa no hospital e na rua onde vive entre vizinhos e os bombeiros que o salvaram.

A criança, após ser salva pelos bombeiros, ainda em casa teve de ser internada nos cuidados intensivos e esteve ligada ao ventilador, mas recuperou e ficou bem. Voltou para casa ainda fraco, mas livre de perigo. O pai chorou em frente às câmaras das televisões norte-americanas e a entrada da sua casa estava cheia de balões e cartazes de boas-vindas a Jayden.

Este foi um caso feliz, no estado de Nova Iorque, onde três crianças já faleceram vítimas da associação desta inflamação grave com a covid-19, seis outras estão hospitalizadas. Neste estado norte-americano, o mais afetado pela pandemia nos EUA foram registados 100 casos de doença de Kawasaki em crianças.

Perante estes números, o governador do estado de Nova Iorque Andrew Cuomo lançou já um alerta sobre esta inflamação rara que se não for tratada a tempo pode ser muito grave ou mesmo fatal.

 “Estas crianças tinham os anticorpos da covid-19 ou testaram positivas para a covid, mas os sintomas que eles apresentavam quando deram entrada no hospital não eram os do novo coronavírus ", explicou o governador Cuomo no sábado passado.

Recentemente, as autoridades de saúde do reino Unido, França, Itália e Espanha mostraram-se preocupadas com os casos pediátricos de Kawasaki. No Luxemburgo registaram-se três casos de crianças que estiveram hospitalizadas, foram tratadas e estão bem, como contaram duas pediatras ao Contacto, quando noticiou os casos. Na altura as especialistas declararam que “não há razão para pânico”. A mesma opinião tem a pediatra intensivista portuguesa Cristina Camilo que conta ao Contacto que não há ainda registo de nenhum caso em Portugal.

 10 crianças em Itália

Um estudo sobre a associação entre a Kawasaky e a SARS-coV-2 realizado em 10 crianças, entre os 5 e os 7 anos com a doença registadas nos hospitais de Bergamo, Itália, e publicado dia 13 de maio na revista científica ‘The Lancet’ conclui que, de facto, existe uma correlação entre as duas doenças, sendo que no geral, primeiro acontece a infeção pelo novo coronavírus, na grande maioria dos casos, sem as crianças saberem, pois tendem a ser assintomáticas.


Luxemburgo regista três casos de crianças com a inflamação grave ligada à covid-19
"Não há razão para pânico mas pais e médicos têm de estar vigilantes", vincam as especialistas Kerstin Wagner e Isabel De La Fuente. As crianças foram internadas, já tiveram alta e estão bem. As médicas explicam os sintomas deste choque inflamatório.

No estudo italiano ‘Um surto de doença grave tipo Kawasaki no epicentro da epidemia SARS-coV-2’ todos os resultados “apoiam a hipótese de que a resposta imune à SARS-CoV-2 é responsável por uma doença do tipo Kawasaki em pacientes suscetíveis”, indicam os investigadores nas conclusões.

“Acreditamos que estas descobertas têm implicações importantes para a saúde pública. A associação entre SARS-CoV-2 e doença do tipo Kawasaki deve ser levada em consideração nas políticas de reintegração social da população pediátrica”, avançam os autores. No entanto, defendem, a doença do tipo Kawasaki descrita aqui “permanece uma doença rara, afetando “não mais do que uma em cada 1000 crianças expostas à SARS-CoV-2. Essa estimativa é baseada nos dados limitados das séries de casos nesta região” de Bergamo.

Portugal sem casos

Também Cristina Camilo, pediatra intensivista portuguesa da Unidade de Cuidados Intensivos pediátricos do Hospital de Santa Maria realça ao Contacto que se trata de uma “doença rara” e que “não deve haver alarmismos” em relação a esta patologia, porque isso só prejudica e assusta os pais.

Em Portugal, ainda não se registou nenhum caso desta associação em crianças, salientou esta pediatra que é também a Presidente da Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos, da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP). No Luxemburgo registaram-se três casos, como o Contacto já publicou.

“Esteve uma criança internada na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Dona Estefânia com um quadro clínico inflamatório pós-infeção com SARS -Cov-2 mas não preenchia os critérios de Doença de Kawasaki”, declarou esta pediatra.


Covid-19. Aumento de casos graves em crianças preocupa médicos
Os ministros da Saúde francês e britânicos anunciaram que estão a ser internadas crianças com inflamações vasculares graves, desconhecendo se serão novos sintomas ligados ao coronavírus.

 Uma pós-infeção viral

Cristina Camilo lembrou que a doença de Kawasaki já é conhecida há muitos anos e que, “apesar de não se conhecer a sua etiologia, sempre se associou a uma possível resposta imunológica pós-infeção viral ou de outro agente infecioso”.

Por isso, como disse, “não é de estranhar que, perante um novo vírus que está a atingir a população infantil em larga escala, surjam casos de doença de Kawasaki”. O que ainda está por explicou esta especialista, é se este vírus “tem maior capacidade para desencadear uma resposta inflamatória/imunológica que aumente a incidência da doença de Kawasaki”.

 Kawasaki surge um mês depois da covid

 Para Cristina Camilo há que analisar “com precaução” os casos de crianças que sofrem com esta inflamação grave, porque elas podem possuir “uma doença crónica que as torne mais suscetíveis a desenvolver a Kawasaki” no quadro da Covid-19.

Por outro lado, estão a ser realizados muitos estudos sobre a associação entre estas duas patologias. “Há um estudo que realça que a infeção viral Kawasaki surge geralmente um mês depois da infeção da SAR, como uma pós-infeção”, explica a pediatra. Outros estudos indicam que “pode haver apetências genéticas para desenvolver a infeção”. No Reino Unido, ela afeta mais os cidadãos afro-caribenhos, o que também pode estar a acontecer no estado de Nova Iorque. “Na China as crianças desenvolveram sintomas muito diferentes dos das crianças da Europa”.

Esta pediatra declarou que quando tratada numa fase inicial a inflamação da Kawasaki é perfeitamente curável ficando a criança sem sequelas. O tratamento é feito com aspirina e imunoglobulina. ”A doença tem mortalidade e internamento baixos”.


OMS investiga possíveis ligações com doença inflamatória infantil
A Organização Mundial de Saúde (OMS) está a investigar possíveis ligações entre a covid-19 e uma doença inflamatória grave que afeta crianças, mas salientou que, por enquanto, os casos são “muito raros”.

 Apelo aos pais para levar filhos às urgências

Neste momento, o que preocupa Cristina Camilo “é o medo dos pais em levar os filhos às urgências” quando suspeitam de algo, por temerem que eles possam ficar infetados com a covid.

“Sempre que notem algo anormal nos filhos que os preocupem, como febre entre três a cinco dias, se a criança estiver prostrada, irritada, com diminuição da sua atividade normal, mais sonolenta, deverá ser vista por um médico”, alerta esta pediatra. E explica que os hospitais têm acessos diferentes para crianças suspeitas de estarem infetadas com covid e afetadas com as restantes doenças. “No caso da doença de Kawasaki é muito importante as crianças serem tratadas na fase inicial para que as artérias do coração não sejam afetadas, e de ficarem com lesões coronárias. Aí sim, é perigoso”, alertou a pediatra intensivista.

 Os sinais de alerta da Kawasaki

Cristina Camilo continuo a relatar os sinais de alerta da possível inflamação viral na criança que justifica a ida às urgências hospitalares. “Se a criança tiver dificuldade em respirar, vómitos ou dejeções diarreicas que duram há alguns dias, cefaleias intensas que não passam com paracetamol (ou que voltam a aparecer), manchas ou "pintas" na pele que não desaparecem com a pressão, que dão comichão, deve ser observada”. Como vinca a Presidente da Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos da SPP “a existência da Covid-19 não modificou as indicações para que uma criança seja observada em contexto de serviço de urgência. As outras doenças continuam a existir e já percebemos que a própria Covid -19 tem um espectro de manifestações clínicas muito variadas”.

 Em Portugal, até agora houve necessidade de internar quatro crianças infetadas pela covid-19, com sintomas ligeiros e infetadas pelos pais, contou esta especialista. Das crianças que recorreram à urgência do Hospital de Santa Maria e que foram testadas, “até à data 25 são positivas” para o novo coronavírus.

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