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Covid-19. Hezbollah mobiliza milhares contra pandemia
Mundo 5 min. 09.04.2020

Covid-19. Hezbollah mobiliza milhares contra pandemia

Covid-19. Hezbollah mobiliza milhares contra pandemia

Foto: AFP
Mundo 5 min. 09.04.2020

Covid-19. Hezbollah mobiliza milhares contra pandemia

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Depois de meses de protestos contra a política tradicional, a pandemia calou as ruas do Líbano. O Hezbollah, considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos, é visto cada vez mais como a bóia de salvação de um Estado endividado e sem rumo.

Quando rebentou a pandemia do novo coronavírus, as ruas de Beirute, capital do Líbano, eram palco de uma revolta popular. Em fevereiro, o governo libanês viu-se obrigado a levantar muros de betão para impedir que os manifestantes chegassem ao parlamento. Agora, essas mesmas ruas estão vazias e os protestos evaporaram-se com a crise sanitária que, como na maior parte do planeta, fechou parte da população em casa.

Hoje, o frágil governo formado por uma ampla coligação de elementos dos xiitas Amal e Hezbollah, dos cristãos do Movimento Patriótico Livre e do Partido Socialista Progressista, entre outros, respira de alívio. Pelo menos enquanto a pandemia põe água na fervura. 

Desde que deixou ser oposição no Líbano, o Hezbollah é mais permeável às tensões internas e aposta agora numa guerra ao novo coronavírus enquanto responsável pela pasta da Saúde dentro do executivo liderado pelo independente Hassan Diab. Segundo o El País, este movimento lançou um ‘exército’ de 25 mil pessoas para a "linha da frente" e alugou quatro hospitais privados no país árabe para ganhar "a batalha contra a Covid-19", uma prioridade declarada pelo partido xiita. 

A gíria militarista é comum nos discursos do líder do partido, o Hasan Nasrallah, só que desta vez não se refere às milícias mais bem equipadas da região, e que combatem na Síria ao lado das tropas sírias, mas antes ao regimento de médicos, enfermeiros e voluntários mobilizados no país mediterrânico.

Em constante metamorfose, o Hezbollah passou do confronto com Israel à luta contra o terrorismo salafista no Líbano e na Síria, com 10 mil milicianos a combater no país vizinho ao lado de soldados iranianos e sírios. Na atualidade, é o Hezbollah que muitos procuram ante o medo da pandemia. "O medo do vírus devolveu os libaneses às estruturas tradicionais de solidariedade baseadas no partido e na confissão religiosa, que competem hoje para servir as suas bases sociais", afirmou ao El País Maha Yahia, diretora do Centro Carnegie para o Médio Oriente, em Beirute. 

O povo perdeu a confiança nas instituições estatais, onde o poder político e económico é partilhado com base nas 18 religiões oficiais. "O Hezbollah é simplesmente aquele que oferece o plano mais elaborado por ter mais recursos", considera. A milícia decidiu transferir a sua capacidade de mobilização militar para a intervenção social, uma receita que já tinha resultado no passado e que fez crescer este movimento entre a população mais pobre.

Nos subúrbios de Dahie, na periferia sul de Beirute e feudo do Hezbollah, encontra-se o hospital St. George, que o partido alugou como centro nevrálgico para o tratamento dos doentes infetados pelo vírus. "Temos mil testes e 80 camas, 16 delas com respiradores", é o inventário feito pelo diretor do hospital, Hasan Oleik, num bairro cuja população, 800 mil habitantes, é na sua maioria xiita.

A complexa rede social do Hezbollah pode ser vista na cave de uma mesquita em Dahie. Dezenas de voluntários com máscaras e luvas estão a embalar fardos de arroz, latas de mortadela e frascos de óleo de girassol em 5 mil caixas para serem distribuídas esta semana às famílias mais desfavorecidas. Eles têm um orçamento de 1,8 milhões de euros "entre os seus próprios fundos e os donativos dos membros", diz uma fonte partidária ao El País. Em Raas el Nabaa, um subúrbio de Beirute, Abu Abed recebe uma destas caixas, "ajuda crítica", diz ele, para a sobrevivência dos seus sete membros da família.

A pandemia atingiu o Líbano a meio de uma grave crise económica. O Banco Mundial advertiu, antes da propagação do vírus, que metade dos 4,5 milhões de libaneses ficariam abaixo do limiar de pobreza. Desde 17 de outubro, quando os protestos anti-governamentais começaram a exigir o colapso da política tradicional, mais de 220 mil pessoas ficaram desempregadas. Agora, estes partidos procuram canalizar o dinheiro para a ajuda no âmbito da pandemia. Os líderes partidários e religiosos prometem milhões em donativos aos hospitais, seguindo o mapa demográfico e religioso, enquanto o governo teve de anunciar o primeiro incumprimento da dívida na sua história.

"Enviámos 1.500 médicos, 3 mil enfermeiros, 5 mil trabalhadores médicos e 15 mil voluntários que vão colaborar com o Ministério da Saúde e as câmaras municipais", disse ao El País o representante do Hezbollah para o distrito de Beirute, Hassan Fadallah, durante uma digressão mediática em Dahie. "Não estamos aqui para substituir o Estado, mas para colocar os nossos meios à disposição do Ministério da Saúde e do país", afirmou.

Os detratores deste partido acusam-no de ser um "Estado dentro de um Estado" e de ultrapassar os poderes do exército nacional. Hoje, acusam-no de o fazer em resposta à crise sanitária. "O coronavírus é um presente de Deus ao Hezbollah", afirmou o especialista libanês Lokman Slim. "Esta crise permite-lhe restaurar a sua legitimidade aos olhos da sua comunidade local, destacar-se das outras partes a nível nacional e apresentar-se como parceiro da comunidade internacional na contenção da pandemia [como parte sob a tutela do Ministério da Saúde]", afirma.

Os Estados Unidos lançaram uma guerra económica com sanções rigorosas contra o Hezbollah, que classificam como um grupo terrorista, tal como a UE faz com a sua ala armada. Na sexta-feira, o Banco Mundial pagou 37 milhões de euros ao governo libanês para combater a pandemia, fundos que deverão ser geridos pelo Ministério da Saúde.

"Ao assumir parte da sua base social, o Hezbollah está simultaneamente a ajudar a descongestionar o hospital público Rafik Hariri [o único hospital estatal do país que recebe casos] e, portanto, o Ministério da Saúde", afirmou Karim Makdisi, professor de ciências políticas na Universidade Americana de Beirute. "Nesta crise e após meses de descontentamento social", continua Makdisi, "terão de decidir se cada partido libanês escolhe unir forças a nível nacional ou se cada confissão decide proteger a sua".

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