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COP26. O que é e porque anda toda a gente a falar dela?
Mundo 6 min. 30.10.2021
Conferência do clima

COP26. O que é e porque anda toda a gente a falar dela?

Conferência do clima

COP26. O que é e porque anda toda a gente a falar dela?

Foto: Jane Barlow/PA Wire/dpa
Mundo 6 min. 30.10.2021
Conferência do clima

COP26. O que é e porque anda toda a gente a falar dela?

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Perguntas e respostas para perceber a cimeira sobre o futuro da humanidade.

Nesta altura, quem ainda não ouviu falar da COP26 é porque ou está a viver numa gruta sem Wifi ou desistiu completamente de seguir notícias, ver redes sociais e interagir com outros seres humanos. A COP26, que começa dia 31 de outubro em Glasgow e acaba a 12 de novembro, tem sido referida como o momento de esperança para a humanidade, ou mais uma provável tentativa falhada.

O que é a COP26?

O nome é típico da Organização das Nações Unidas (ONU), uma sigla complicada. COP significa “Conference of the Parties”, em português Conferência das Partes, ou seja, a reunião das partes envolvidas, que são as 196 nações que integram a Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. E é a 26ª destas reuniões anuais no âmbito das Nações Unidas que junta líderes mundiais para tentar resolver através de acordos o problema do aquecimento global causado pelas emissões de gases com efeito de estufa.

Foto: AFP

Depois de ter sido adiada no ano passado por causa da pandemia, a COP26 terá lugar em Glasgow, na Escócia, sob a presidência do governo do Reino Unido e em parceria com o governo italiano.   

Porque é importante?

Várias vozes, desde cientistas, a políticos e a ativistas, têm dito que a COP26 pode ser a última e a melhor hipótese de a humanidade finalizar os entendimentos que faltam para reduzir drasticamente as emissões de CO2 e de outros gases com efeito de estufa para a atmosfera e salvar as gerações futuras da catástrofe climática. Segundo o cálculo dos cientistas da ONU, o mundo precisa de cortar pelo menos para metade as atuais emissões destes gases até 2030 e deixar de emitir completamente em 2050, para se manter o clima da Terra minimamente estável. Este é o ano em que os países devem entregar as suas Contribuições Nacionais Determinadas (CND) renovadas, um roteiro concreto e detalhado de como vão atingir as reduções de emissões até 2030 e 2050. Quando assinaram o Acordo de Paris, em 2015, comprometeram-se a renovar as suas CND a cada cinco anos.

Se a tarefa de em oito anos reduzir as emissões para metade parece gigantesca é porque de facto é. Mas ainda é, em teoria, considerada possível, se na COP26 forem tomadas as decisões certas. Essa redução implica mudanças revolucionárias nos transportes, nas fontes de energia (com o abandono dos combustíveis fósseis o mais rapidamente possível), na agricultura e no uso das terras, nos hábitos de consumo e na exploração dos recursos naturais. E também é preciso inovar em tecnologias que permitam, por exemplo, capturar carbono diretamente da atmosfera, reinventar a produção do cimento e do aço, ou ainda tornar a produção de alimentos muito mais eficaz. 


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Diplomacia, liderar pelo exemplo, parceria com Bill Gates para tecnologias revolucionárias e com Joe Biden para cortar no metano. E ajudar os países africanos a rejeitarem o carvão.

E é preciso passar à ação. E, como disse Greta Thunberg, acabar com o blá,blá,blá. A estimativa é que as emissões de gases com efeitos de estufa sejam cortadas 7%, pelo menos, a cada ano desta década para os sistemas terrestres não entrarem em colapso.   

Foto: AFP


Porque se fala tanto em 1.5ºC?

Em 2015, na COP21, que decorreu na capital francesa, foi assinado o Acordo de Paris, que se tornou o tratado de referência para as negociações sobre alterações climáticas. O Acordo de Paris define, a partir de uma base científica proposta pelo IPCC (ou GIEC, em francês) – o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, formado por cientistas internacionais- que os governos devem ter a ambição de manter o aquecimento do planeta até ao fim do século XXI a menos de 1.5ºC em relação às temperaturas pré-industriais. Este é o chamado valor “aspiracional”. 

Porquê? Porque até este valor de aquecimento, haverá certamente alterações nos padrões meteorológicos – cheias, tornados, incêndios florestais, secas prolongadas e derretimento de glaciares, como os que já estamos a ver – mas é ainda possível a humanidade adaptar-se e sobreviver. Neste ano, em que o aumento em média das temperaturas globais é ainda de cerca de 1.1ºC já vimos na Europa como os ciclos das estações nos podem surpreender, com as cheias dramáticas do verão, os incêndios florestais intermináveis na Grécia e as mortes evitáveis que causaram.

Foto: AFP

O segundo valor que o Acordo de Paris defende como limite máximo suportável, é que a Terra não ultrapasse os 2ºC de aquecimento, sendo que a cada décima de aquecimento pode haver uma cascata de acontecimentos imprevisíveis, mais milhões de vidas perdidas e sofrimento humano evitável. Um dos slogans do momento, é o de manter vivo o sonho de 1.5ºC e é para isso que, por exemplo, a delegação da União Europeia, e a norte-americana dirigida por John Kerry, dizem que estão a trabalhar. Os ativistas do clima, desde os miúdos do Friday for Future, e centenas de organizações ambientalistas desde os pioneiros  Greenpeace ou os mais recentes Extinction Rebellion lutam para manter vivo nas ruas de Glasgow e nas redes sociais a ambição de o mundo não aquecer mais do que 1.5ºC.  


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E ainda é possível controlar o aquecimento?

Neste momento, as perspetivas de manter o aquecimento global controlado são sombrias. Segundo o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o Emissions Gap Report -2021, que avalia o que os países dizem que vão fazer (com a soma das CND conhecidas), o mundo irá atingir o valor considerado catastrófico de aquecimento global de mais de 2.7ºC no final do século.

Foto: AFP

Mas as conferências do clima também têm desfechos imprevisíveis. Christiana Figueres, responsável pela organização da COP 21, conta no seu livro O Futuro que Escolhemos como tudo parecia condenado durante as negociações. A conferência esteve quase para ser cancelada por causa dos atentados terroristas em Paris, a 13 de novembro – menos de um mês antes de começar. E durante os dias em que durou houve suspeita de bomba na estação de metro que servia os conferencistas e foi admitida a suspensão total dos trabalhos. Por outro lado, recorda Figueres, as posições dos governos estavam tão distantes que chegar a acordo parecia impossível. E no entanto, a 15 de dezembro, o considerado histórico Acordo de Paris foi assinado.  

Como se pode saber se as alterações do clima são mesmo provocadas pelos humanos?

É cada vez mais difícil ser “negacionista” em questões do clima e apresentar argumentos credíveis de que estas oscilações são “normais”. Se dúvidas houvesse, elas dissiparam-se com o último relatório do IPCC publicado em agosto deste ano: “Alterações Climáticas 2021: A base da ciência física”, aprovado pelos 195 governos que compõem este órgão científico da ONU. Segundo o relatório, a relação entre a ação humana e a subida constante das temperaturas nas últimas décadas é inequívoca. 

Foto: AFP

António Guterres, o político português que é atualmente secretário-geral da ONU, disse a propósito que este documento consiste num “alerta vermelho” para a humanidade. O relatório refere ainda que é possível o mundo atingir o 1.5ºC de aquecimento nos próximos anos, se não forem tomadas medidas drásticas e com muita urgência. Durante todo este ano de 2021, várias organizações ligadas ao clima, mas também à finança e ao mundo dos negócios têm soado as campainhas de alarme. Assumir que as emissões produzidas desde a Revolução Industrial estão a mudar a face da Terra deixou de ser uma posição extremista ou radical. O nosso planeta entrou numa nova era geológica, o Antropoceno, e isso já não é segredo para ninguém.  

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