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Contagem decrescente
Editorial Mundo 2 min. 02.01.2020

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Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 02.01.2020

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Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Sabemos que, ao contrário dos filmes de Hollywood, não estamos condenados a um final feliz. O mais provável é mesmo as coisas correrem mal.

“Da nossa vida, em meio da jornada, achei-me numa selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada”. Assim começa, na “A Divina Comédia” de Dante, o caminho do Inferno.

Aparentemente o nosso mundo vai nessa direção sem que haja, como na “A Divina Comédia”, uma Beatriz que o leve para o céu.

Estamos numa encruzilhada do ponto vista político, económico, social e ambiental. Temos menos de dez anos para tentar reverter os impactos do aquecimento global. Caso não o consigamos fazer, atingiremos um ponto de não retorno com consequências catastróficas para grande parte da vida no nosso planeta.

A incapacidade que os dirigentes mundiais mostraram ao não acordar nada de concreto na cimeira da COP25 não tem que ver com a sua evidente falta de competência, mas é expressão dos interesses a que estão ligados.

Num dos livros do famoso escritor uruguaio, falecido em 2015, Eduardo Galeano, relatava-se, com ironia, uma inscrição num dos muros da América Latina: “Se as eleições funcionassem, estariam proibidas”... Há uma evidente crise da representatividade e da política. Os eleitores pretendem escolher várias vias e independentemente do que escolham as margens autorizadas da política levam-nos sempre às mesmas soluções económicas.

O menu único tem levado a um enorme crescimento das desigualdades económicas, sociais e a sinais que, um pouco por toda à parte, o sistema político de representação encontra-se em crise. O crescimento dos populismos, dos extremismos é um sinal evidente de todos os descontentamentos.

Em todo o planeta, a insatisfação das pessoas em relação à vida que levam, a frustração que sentem, levou este final de ano a manifestações multitudinárias. Aparentemente, todas essas explosões têm razões específicas que não parecem comuns, mas na realidade todas se alimentam do mesmo sentimento do tempo: as coisas não podem continuar assim.

Na sua encíclica sobre o meio ambiente, “Laudato si” o Papa Francisco colocava o dedo na ferida: “Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuarmos com os modelos atuais de produção e consumo.”, e concluía: hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.”

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