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Conseguir casa em Berlim tornou-se uma missão quase impossível
Mundo 13 min. 03.06.2021

Conseguir casa em Berlim tornou-se uma missão quase impossível

Conseguir casa em Berlim tornou-se uma missão quase impossível

DPA
Mundo 13 min. 03.06.2021

Conseguir casa em Berlim tornou-se uma missão quase impossível

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
A cidade atrai cada vez mais gente de toda a Alemanha e fora dela, e deixou de haver políticas públicas de habitação. O Contacto falou com especialistas e imigrantes portugueses que tentam arranjar casa na capital da Alemanha e se deparam com uma muralha burocrática para além da falta de casas no mercado.

“Cheguei a pagar 750 euros por um quarto”, conta Pedro Vasconcelos, natural do Porto. Mudou-se para a Alemanha há três anos e meio, tendo começado a aventura da emigração em Munique, cidade com a qual não se identificou. Está a passear a sua cadela, Amelie, no Tempelhofer Feld, no distrito de Neükolln, onde finalmente encontrou uma casa só para si. “Desde que cheguei à Alemanha já morei em nove casas”. 

“Quando me mudei para cá tive de saltar de casa em casa”, conta enquanto descreve que a cidade tem demasiada procura para a oferta. “Como é uma cidade bastante concorrida, em que muita malta se quer mudar para cá, muitos querem vir não importa como. Até teres estabilidade financeira e conseguires juntar a papelada, vais ficando em quartos que estão disponíveis por alguns meses, enquanto os donos estão de férias”. 

Pedro explica que “como as contas dos apartamentos se tornam um bocado apertadas para viver sozinho, a malta aproveita-se de ter um quarto extra para alugar e pedem preços ridículos. Numa das casas em que vivi, um t2 que partilhei com uma miúda, fiquei a saber que ela estava a pedir-me 650 euros pelo quarto e ela estava a pagar menos 300 euros. Em todas as casas em que vivi nunca houve a transparência de me mostrarem o contrato e dizer “vamos dividir isto”.

Berlim costumava ter habitações acessíveis nos anos 90 e início dos anos 2000 devido ao equilíbrio entre a procura e a oferta, mas também à percentagem substancial de alternativas não mercantis, impulsionadas pelo Estado. 

Um aumento de preços de 205,2% 

Segundo o relatório "Factos, mudanças e tendências no mercado imobiliário de Berlim 2010 - 2021” da Guthman Estate Reports, as novas rendas contratuais são anunciadas a uma média de 18,95 euros/m². Embora no cálculo existam ainda rendas referentes a contratos “antigos” que são até certo ponto protegidos, os preços solicitados para novos contratos têm uma diferença substancial e explicam as atuais tendências ascendentes de preços no mercado.

Também importante referir que "o segmento de aluguer de 5 - 8 euros/m² está em declínio há anos, enquanto o segmento de aluguer acima de 14 euros/m² é cada vez maior" por isso, para além do aumento global da média dos pedidos de aluguer, torna-se cada vez mais difícil encontrar alojamento acessível. Em dez anos, verificou-se em Berlim um aumento de preço de 205,2% em relação ao aluguer de casas.

Segundo Dimitris Pettas, pós-doutorado e investigador no Instituto de Planeamento Urbano e Regional, da Universidade Técnica de Berlim (TUB), a demografia está a mudar na cidade, impulsionada por jovens profissionais que imigram, bem como por uma população envelhecida que vive cada vez mais sozinha. 

“A paisagem cultural vibrante e alternativa, especialmente a cena artística e musical, desempenhou um fator crucial nos anos 90 e início dos anos 2000, seguindo-se a emergência de Berlim como cidade internacional, funcionando como um centro global de inovação, especialmente para os setores criativos e de tecnologia. Além disso, Berlim também surgiu como um destino turístico muito popular, atraindo visitantes de todo o mundo”, comenta. As estatísticas apontam que a falta de habitações só seria realmente satisfeita com a construção anual de 20.000 novas casas na cidade. Mas esta não é uma solução sustentável. 

“As novas construções não conseguem satisfazer a procura crescente, enquanto as alternativas de habitação social/estatal estão a diminuir rapidamente desde o início dos anos 2000. Ao mesmo tempo, as propriedades são reunidas pelo setor privado, tornando grande parte da população extremamente vulnerável (especialmente porque Berlim tem as mais baixas taxas de propriedade de habitações da UE e os 75% da população está a arrendar. Desde 2010, os alugueres de curto prazo contribuíram ainda mais para a oferta limitada de habitação, especialmente no centro da cidade.

Protesto em Berlim, a 15 de abril de 2021, reuniu mais de 15 mil pessoas que reclamam as condições de habitação em Berlim.
Protesto em Berlim, a 15 de abril de 2021, reuniu mais de 15 mil pessoas que reclamam as condições de habitação em Berlim.
Ana B. Carvalho

Num relatório de 2019 da Statistik Brandenburg Berlin, a população da capital alemã cresceu de 3,4 milhões para 3,7 milhões entre 2008 e 2018 e espera-se que cresça para 4 milhões até 2025.  O crescimento da população é atribuído às 30.000 pessoas alemãs e internacionais que se mudam para Berlim todos os anos, bem como à taxa de natalidade positiva. Este crescimento, bem como um número crescente de pequenos agregados familiares (52% dos berlinenses vivem sozinhos), impulsiona a procura de habitação. A taxa de habitações vagas em Berlim caiu para 0,9%, pelo que mesmo na economia urbana convencional, este fosso crescente entre a procura e a oferta é considerado como um factor que leva ao aumento da renda.

A falta de habitação é particularmente difícil para as famílias de baixos rendimentos, e para as famílias abaixo do limiar de pobreza. Segundo o investigador, apenas cerca de 60% e 25% das habitações existentes são economicamente acessíveis para estes grupos, respetivamente.

Dimitris sublinha ainda que a crise financeira em 2008 levou à falência de muitos dos investidores “altamente alavancados”, havendo uma mudança de propriedade para um “pequeno número de empresas imobiliárias muito grandes” cotadas na bolsa. A nível nacional e internacional, as baixas taxas de juro e a anterior imunidade da Alemanha a uma bolha imobiliária significou que os bens imobiliários alemães fossem considerados uma classe de ativos atrativa, em comparação com os títulos e ações do Estado. 

 Um passo à frente, dois atrás

No final de fevereiro de 2020, o governo da cida-estado de Berlim surgia com uma solução: o Mietendeckel. Tratava-se do estabalecimento de um limite nas rendas e prendeia congelar os preços de quase todos os apartamentos na cidade durante cinco anos, mantendo-os no seu nível de junho de 2019. Não foi permitido que novos contratos de arrendamento excedessem esse limite - e algumas rendas tiveram de ser reduzidas. Na altura, os moradores da capital alemã foram avisados que seria necessário guardarem a diferença desse valor, porque a medida iria ainda ser analisada pelo tribunal constitucional alemão. 

O governo do estado de Berlim afirmou que a medida se destinava a reduzir a pressão sobre os arrendatários e a ganhar tempo para a construção de mais habitações. 

Os senhorios em Berlim puderam festejar em abril de 2021, quando o tribunal declarou que não seria viável estabelecer o limite de renda. “Com cerca de 1,5 milhões de apartamentos sujeitos ao agora extinto congelamento das rendas, uma enorme fatia populacional da cidade foi apanhada na batalha pelo futuro do mercado imobiliário de Berlim. Com o anulamento do Mietendeckel, as pessoas viram as suas rendas aumentadas em centenas de euros por mês, enquanto algumas foram mesmo atingidas com faturas de rendas retroactivas - em muitos casos no valor de milhares de euros”, noticiava o The Local, na altura.

Apesar de, na altura, Berlim estar sob extremas medidas restritivas numa fase em que ultrapassava uma nova vaga de covid-19, a 15 de abril mais de quinze mil pessoas sairam à rua para protestar a decisão do tribunal. A liderar o protesto estava  o movimento Deutsche Wohnen & Co enteignensustentado pelo apoio das iniciativas dos arrendatários, movimentos sociais e partidos políticos, bem como como uma multidão de indivíduos empenhados que há meses recolhem assinaturas para levar as suas exigências a referendo em setembro de 2021.

O movimento aponta empresas imobiliárias como a Deutsche Wohnen, Vonovia, Akelius e Co. como “os principais responsáveis pela insanidade do mercado de aluguer de Berlim” e pretende que “em conformidade com o artigo 15º da Constituição, imóveis privados que possuem mais de 3.000 apartamentos sejam expropriados e os seus stock de habitação transferido para propriedade pública”. 

Protesto em Berlim, a 15 de abril de 2021, reuniu mais de 15 mil pessoas que reclamam as condições de habitação em Berlim.
Protesto em Berlim, a 15 de abril de 2021, reuniu mais de 15 mil pessoas que reclamam as condições de habitação em Berlim.
DPA

Mónica Mussungo, nasceu em Lisboa e morou em Barcelona durante 10 anos. É cantora e compositora e entre trabalhos locais, concertos e dobragens conseguia viver da sua arte, até que “chegou a pandemia de covid-19 e a realidade mudou drasticamente para todos os que vivem de artes performativas”.  Aguentou-se em Barcelona de março até novembro de 2020, mas foi obrigada a arranjar outra cidade alternativa. “Tive de pensar qual seria a cidade que apoiasse as artes e onde eu tivesse amigos, em que sentisse que seria possível algum futuro ainda que com covid-19”, comenta.  

Escolhi Berlim. É uma cidade que atrai muita gente jovem que vem e fica uma temporada, mas querer vir e estar a tempo inteiro e ter as coisas todas em ordem é realmente um martírio.

Quando chegou a Berlim, conseguiu algo temporário mas depois precisou de cinco meses até encontrar um quarto.  variavam entre os 400 e 600 euros, no final encontrei uma casa  “catita” com uma situação  “agradável” e estava feliz porque estava tudo dentro do meu orçamento.  

“No processo de negociação de me mudar para esta casa, a lei de limite das rendas foi rejeitada. Já tinha os preços todos fixo e de repente isto. Há gente com dívidas de dois mil, três mil euros aos donos das casas porque vão ter de devolver a diferença do que a lei previa cobrir. Tenho muitos amigos artistas que receberam ajudas mas mesmo assim, fazendo os cálculos, não eram valores ideais e as pessoas tiveram de se gerir entre essas ajudas e as poupanças que tinham, se as tinham. Pessoas com trabalhos e situações precárias, sem contratos estáveis, foi um abanão”. 

Mónica não tinha sido avisada, na casa anterior, que teria de devolver a diferença. “Ainda assim descontaram-me esse dinheiro, o que me pareceu um pouco histérico. Depois de ter encontrado um conselheiro legal que traduziu tudo e me guiou pelos processos todos, depois de ter encontrado todos documentos  necessários, cheguei ao meio do mês e deparo-me que preço da renda vai ser 100 euros. Surreal. Uma pessoa fica entre a espada e a parede e criou uma situação de tensão entre mim e a rapariga que morava cá. Ela também entrou em pânico, não sabia se conseguia continuar ali e é o nome dela no contrato. Tudo isto numa semana”. 


Rendas em Lisboa e Cidade do Luxemburgo são das mais altas da Europa
"Os aumentos mais pronunciados foram observados em Portugal, Suíça, Eslovénia e Luxemburgo", diz o estudo. O salto em Portugal como um todo foi brutal, ascendeu a quase 70%.

“Depois de meditado, conversado e chegado a um acordo estou a pagar 420 euros por um quarto em prenzlauer berg, que apesar de estar dentro do Ring, é bastante periférico. Queriam-me cobrar 500 euros por um quarto de 11 metros quadrados na periferia de Berlim. Quando há perfeitamente estúdios que valem 500 euros”. 

O filme da burocracia e podem exigir até o Mietschuldenfreiheitsbeschinigung

Para Pedro Vasconcelos, o “filme” que é encontrar uma casa vai além dos preços “exorbitantes” das rendas. “Quando cheguei cá senti logo uma imensidão de impossibilidade”. O nível burocrático em Berlim é “surreal” e há documentos que é impossível obter quando se é recém-chegado, explica.

Segundo a imobiliária Darna-immobilien, as leis de propriedade na Alemanha estipulam que para cada visita a cada apartamento, os potenciais inquilinos têm de entregar uma cópia do seu passaporte ao proprietário do apartamento em questão. Fora isso, acrescenta-se o Schufa Auskunft, um histórico de crédito minucioso, redigido pela empresa SCHUFA Holding AG que detalha “quão bem pagou as suas dívidas ao longo dos anos anteriores e demonstra a sua fiabilidade quando se trata de fazer pagamentos a tempo”. Há ainda a exigência de apresentação de declarações de rendimentos de pelo menos três meses anteriores ao contrato, que provem a capacidade de pagar o preço do aluguer.

“Se acabo de chegar a Berlim para um novo emprego, não vou ter estes documentos”, explica Pedro. Quando o rendimento fixo é inexistente, a probabilidade de conseguir contrato de arrendamento é muito menor, no entanto poderá apresentar-se um Bürge, ou caução, que declare que outra pessoa, normalmente familiar, cobrirá o valor. Mas não fica por aqui. O nome assusta e não é sempre exigido, mas o Mietschuldenfreiheitsbeschinigung é um documento que prova que não existem dívidas pendentes a outros senhorios.

 “Se é estudante, antigo estudante, ou se acabou de se mudar para a Alemanha, então uma carta do seu senhorio anterior declarando que o histórico de arrendamento é irrepreensível servirá”, explica a Darna-immobilien. Será ainda necessário apresentar extratos bancários e, por conseguinte, terá de ter uma conta aberta na Alemanha e ativa, com um fluxo regular de rendimentos.

Pedro Vasconcelos é natural do Porto e está há três anos na Alemanha. Só este ano reuniu condições para encontrar um apartamento em Berlim.
Pedro Vasconcelos é natural do Porto e está há três anos na Alemanha. Só este ano reuniu condições para encontrar um apartamento em Berlim.

“Mas repara, que para teres uma conta aberta no banco, precisas de ter casa, porque precisas de ter o registo Anmeldung, que te certifica a residência na cidade. É uma pescada de rabo na boca”. Pedro conseguiu finalmente encontrar o seu canto, mas teve de recorrer a uma agência imobiliária, à qual teve de pagar três vezes o valor da renda. “Quando me mudei para esta casa paguei 1.700 euros à agência e 1.700 para caução da casa. Quando te metes nestas aventuras ou tens poupanças ou nem começas à procura. Só quando tens cerca de 5.000 euros de lado é que te podes aventurar a procurar uma casa sozinho”, comenta.

Inês (nome fictício) é fotógrafa e já está em Berlim há nove anos. Depois de quatro anos a morar numa zona que “detestava”, conseguiu, em 2016, encontrar um quarto por 300 euros no bairro que a fez apaixonar-se por Berlim. Agora que já tem 31 anos,  achou que estava na altura de encontrar um apartamento para si. No entanto,  considera que o nível de burocracia não está adaptados à realidade laboral da cidade, que está repleta de artistas e freelancers.

“Eu tenho um contrato part-time de 800 euros mensais e uma atividade freelancer que é incerta”. Assim que começou a mergulhar na procura de casa, deu-se conta de que são vários os amigos que forjam documentos para conseguirem participar na competição das visitas a apartamentos. Diz que tendo em conta o seu salário, teria duas hipóteses: “ou concorro com um amigo, como se fossemos um casal, que também é muito benéfico, porque pensam que vais formar família e tão cedo não vais sair de lá, ou então concorres a solo com documentos de um amigo em que colocas os teus dados e usas os números de salário bruto e líquido dele, que são seguros o suficiente”.

Segundo Pedro, o que acontece “é que és convidado para ir ver uma casa, chegas lá e tens 50 pessoas contigo a ver a mesma casa. No final perguntam quem está interessado e tens de preencher um papel. Se tiveres a sorte de ser um dos 20 escolhidos, no final quem tiver o melhor emprego e salário fica. O que é chato para quem tem trabalhos mais precários. Nunca na vida aqui consegues ter casa para ti se não tiveres um contrato fixo, se não tiveres um salário que agrade ao senhorio. Pelo que dividir apartamentos é a única forma que se arranja normalmente. Mesmo que tenhas dinheiro, se não tens os documentos que interessam ao senhorio… não dá”.

 

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