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Conflito israelo-palestino: "Foram dias de terror em que vivi em sobressalto em Tel-Aviv"
Mundo 5 min. 27.05.2021 Do nosso arquivo online

Conflito israelo-palestino: "Foram dias de terror em que vivi em sobressalto em Tel-Aviv"

Conflito israelo-palestino: "Foram dias de terror em que vivi em sobressalto em Tel-Aviv"

Mundo 5 min. 27.05.2021 Do nosso arquivo online

Conflito israelo-palestino: "Foram dias de terror em que vivi em sobressalto em Tel-Aviv"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
"Vencemos a covid e logo depois vivemos uma guerra", conta ao Contacto, Gabriela Szuchman, a partir de Tel-Aviv, onde reside. Os dias de medo, a fuga aos estilhaços de mísseis e o temor da paz efémera são contados por esta brasileira de ascendência judaica.

Gabriela Szuchman já voltou a dormir descansada na sua casa no bairro antigo de Floretin, em Tel-Aviv, Israel, desde que foi declarado o cessar-fogo entre o seu país e os palestinianos do Hamas, no dia 21 de maio. 

As tréguas chegaram após 11 dias de combates violentos que causaram a morte de cerca de 250 pessoas, 232 palestinianos, entre os quais 64 crianças e 12 israelitas, dois eram menores.

"Para mim foram dias de terror, em que vivemos num sobressalto constante. Agora pudemos voltar a sentir-nos tranquilos, a sair com amigos, a fazer a nossa vida. O cessar-fogo trouxe-nos de volta a liberdade e a tranquilidade", declara sorrindo Gabriela Szuchman, brasileira de ascendência judaica, que também tem a nacionalidade israelita, numa videochamada com o Contacto, a partir de Tel-Aviv.

Gabriela, de 26 anos, nunca imaginou que se pudesse sentir tão assustada na cidade que "ama de paixão" e pela qual trocou o seu Brasil. O primeiro embate aconteceu "logo no início dos confrontos, ainda os media mal falavam dos ataques", lembra. "Uma noite estava numa esplanada do meu bairro com amigos e ouvimos a sirene a tocar. Significa perigo de míssil ou foguete inimigo e temos 90 segundos para encontrar abrigo". 

"Como Florentin é um bairro antigo, os prédios não têm um bunker subterrâneo e estamos mais desprotegidos. Subimos para o segundo andar do prédio em frente. Temos de procurar os andares do meio, os últimos ou os térreos são mais vulneráveis. E ali ficávamos, muito assustados, a ouvir bum, bum, bum! São as bombas a bater contra a barreira antimíssil. Depois do bum parar ainda temos de esperar 10 minutos no local, pois há o perigo de estilhaços das bombas caírem", conta Gabriela Szuchman. Quando o grupo de amigos saiu do abrigo "havia vários pedaços de mísseis na nossa rua. Se estivéssemos lá fora podíamos ter ficado feridos".

Israel possui um sistema de defesa antimíssil, com o seu 'Iron Dome', um escudo de ferro que interceta e destrói entre 80% a 90% dos mísseis e foguetes do inimigo, impedindo-os de atingir os alvos. Contudo, Gabriela vinca que "mesmo com o 'Iron Dome', há foguetes ou mísseis que conseguem passar, embora raros, além dos estilhaços".

Os confrontos entre Israel e Palestina são muito antigos, como vinca a nossa entrevistada e "hoje acreditamos que os dois lados estão a respeitar estas tréguas, porém sabemos que é apenas temporário e que o conflito pode voltar a qualquer momento".

O próprio Estado de Israel acautela a situação e impõe a proteção dos seus cidadãos. "Desde há pelo menos vinte anos, todos os prédios novos construídos em Israel têm de ter não só um bunker subterrâneo de abrigo, mas cada apartamento tem de ter também um quarto blindado, com paredes com um mínimo de 50 centímetros de espessura e uma porta blindada. Lá dentro os residentes estão seguros pois, os rockets não conseguem passar por aquelas paredes", explica a brasileira nascida em Rio Grande do Sul, que há quatro anos voltou, pela segunda vez, a viver na segunda maior cidade de Israel.


"Podem ter tirado a terra aos palestinianos, mas estes nunca deixaram que as suas vozes fossem silenciadas"
Nabil Al-Raee tem duas filhas portuguesas que não vê há mais de um ano. Rami Rmeileh estudou em Portugal. Ambos nasceram como refugiados palestinianos. Nabil dentro da Palestina ocupada militarmente por Israel, Rami no Líbano. Cruzaram-se em Lisboa em janeiro de 2020. De volta ao sítio onde nasceram, vivem intensamente a resistência Palestiniana.

"Vivemos uma guerra"

A partir desse primeiro susto no seu bairro, o toque da sirene passou a fazer parte do quotidiano de Gabriela Szuchman durante os 11 dias do conflito. "O país parou. Aqui já está calor e as pessoas vão à praia. Deixaram de ir. Na praia não há abrigos. Deixaram de sair à rua, só em casos de emergência. A cidade fechou. Na primeira semana, ficamos todos em casa. Voltámos ao teletrabalho. As crianças deixaram de ir à escola. Estavam muito assustadas. Para elas é mais difícil de perceber o que se passa. Os pais ficaram em casa a cuidar das crianças. As lojas, restaurantes fecharam. A cidade que é sempre tão cheia de vida ficou vazia", diz Gabriela, já novamente no seu local de trabalho, uma empresa de high tech, que "desenvolve inovações tecnológicas para o mercado brasileiro". 

Após uma semana de "confinamento total", os residentes em Tel-Aviv recomeçaram a sair à rua, mas apenas se atreviam a ir para o trabalho ou "para locais onde soubessem que havia abrigos próximos".

Gabriela ainda apanhou outros sustos e uma noite teve mesmo de ir dormir na cidade vizinha, em Hertzlia, "pois começou a circular que, nessa noite, o Hamas ia bombardear Tel-Aviv. Fui para casa de uns amigos meus, mas dormimos no bunker. Nessa noite, não bombardearam Hertzlia, mas sim Ramat Gan, outra cidade próxima, em que morreu uma pessoa".

Questionada sobre o número bastante superior de mortes de palestinianos neste confronto israelo-palestino e do sistema antimíssil de Israel, Gabriela Szuchman diz que "não quer tomar um lado político", mas defende que "tal não significa que o Hamas, que é um grupo terrorista, não tivesse atacado Israel".

"Israel sempre avisa quando vai atacar. Gaza não tem sirene, mas o exército israelita sobrevoa previamente a área de ataque e lança papéis para avisar que vai atacar, dentro de dois minutos, para que as pessoas se possam abrigar. Acontece que os terroristas do Hamas fazem lavagem cerebral, e muitas vezes de propósito, não evacuam a área, para dizer com orgulho que estão a morrer pelo país", argumenta esta cidadã israelita. Gabriela diz ainda que Israel "não ataca, defende, como indica o nome do exército, Israel Defence Force (Força de Defesa de Israel). Quem ataca é o grupo terrorista Hamas. Para nós a vida é sagrada, tanto do nosso lado como do da Palestina".

Gabriela só deseja que a paz do cessar-fogo se mantenha. "Vencemos a pandemia. Não usamos mais máscara, nem nos locais fechados. Eliminámos a covid e logo depois vivemos uma guerra. Tive medo e tive de omitir o perigo quando falava com a minha família no Brasil, para não ficaram mais preocupados", admite em lágrimas a jovem nascida na pequena cidade de Erechim, em Porto Alegre, que há quatro anos decidiu cumprir o sonho e voltar para Tel-Aviv.

Tinha 15 anos, quando a Agência Judaica no Brasil bateu à porta da casa dos seus pais a convidá-la para estudar dois anos em Tel-Aviv, com tudo pago, pois é de origem judaica. Os pais deixaram-na ir, e Gabriela e outras 60 adolescentes da América Latina tiveram uma "experiência única". "Apaixonei-me por Israel. Voltei para o Brasil, mas sabia que tinha de regressar. É aqui que quero estar, apesar de ter o Brasil no meu coração".

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