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Como o Facebook e a Organização Mundial de Saúde estão a juntar-se para combater o sarampo
Mundo 12 min. 11.09.2019

Como o Facebook e a Organização Mundial de Saúde estão a juntar-se para combater o sarampo

Como o Facebook e a Organização Mundial de Saúde estão a juntar-se para combater o sarampo

Foto: Shutterstock
Mundo 12 min. 11.09.2019

Como o Facebook e a Organização Mundial de Saúde estão a juntar-se para combater o sarampo

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Durante o dia de amanhã decorre em Bruxelas a Cimeira Mundial de Vacinas, uma iniciativa conjunta da Comissão Europeia e da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Não é um encontro qualquer. A rainha dos belgas preside à sessão de abertura. E Jean Claude Juncker e o director da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, recebem cerca de “400 pessoas, incluindo líderes políticos, altos representantes das Nações Unidas e de outras organizações internacionais, ministros da saúde, académicos destacados, cientistas, profissionais de saúde, o sector privado, ‘influenciadores’ das redes sociais e ONG’s”, conforme se pode ler no programa. Entre os oradores incluem-se o Surgeon General dos Estados Unidos (um cargo semelhante a um Diretor-Geral de Saúde) e o português Carlos Moedas, Comissário Europeu da Ciência e Inovação. Até aqui nada de novo, uma reunião ao mais alto nível sobre um tema urgente de saúde pública. Mas num dos painéis mais importantes estão também convidados o Facebook, a Mozilla Foundation (criadora do popular motor de busca Firefox) e Heidi J. Larson, diretora do Projecto de Confiança nas Vacinas (The Vaccine Confidence Project). Porque razão esta gente, entre os quais o director de Políticas Públicas do Facebook, é convidada para uma cimeira sobre vacinas?


Sarampo reapareceu em quatro países na Europa, entre os quais o Reino Unido
A Europa atravessa um surto de casos de sarampo e a doença ressurgiu em quatro países, incluindo o Reino Unido, onde tinha sido considerado eliminada, alertou hoje a Organização Mundial de Saúde (OMS), apelando a intensificar a vacinação.

O objetivo declarado da cimeira é precisamente o de “impulsionar a acção contra as doenças evitáveis por vacinas e contra a proliferação de desinformação”. A vacinação deixou de ser nas últimas décadas um problema exclusivamente científico ou de política de saúde, para entrar na arena do debate ideológico, com grupos de céticos ancorados nas redes sociais e até líderes políticos a continuar a difundir uma conhecida fraude científica com 20 anos (ver caixa) de que a vacina tríplice provoca autismo. Trump foi apenas um deles, durante a campanha para as presidenciais, mas está longe de ser o único. A atual desconfiança em relação à segurança das vacinas e a hesitação dos pais em imunizar os filhos é considerada pelos técnicos de saúde como a alavanca para o atual surto que está a percorrer a Europa e onde este ano já houve 38 mortes e mais de 90 mil casos. E as redes sociais são o megafone perfeito das campanhas de desinformação e do alarmismo de que as vacinas são tóxicas.

A tempestade perfeita: 38 mortes na Europa

Numa entrevista ao France 24, a investigadora do Vaccine Confidence Project (Projeto de Confiança nas Vacinas) Emilie Karafillakis refere que enquanto na comunidade científica não paira nenhuma dúvida sobre a importância e segurança das vacinas – com de 2 a 3 milhões de vidas a serem salvas por ano – a desconfiança do público está assente no crescimento dos movimentos populistas: “Os partidos ou movimentos populistas de esquerda e de direita têm tendência a defender posições anti-vacinas e a publicar conteúdos anti-vacinas nas redes sociais”. Um estudo recente concluiu que um em cada três franceses acredita que as vacinas são perigosas. “Há também uma grande ligação entre os grupos que usam homeopatia e os que são anti-vacinas”, comenta Karafillakis sobre os dados de um dos países europeus onde as medicinas alternativas têm mais alcance. Por outro lado, sustenta Heidi J. Larson, “na internet há uma grande distância entre os sites onde o público navega e onde estão os cientistas”. Será preciso aproximá-los.

A desinformação em relação às vacinas foi considerada pela OMS como uma das 10 maiores ameaças para a saúde mundial em 2019, a par do ébola e da epidemia de Sida. A antropóloga Heidi J.Larson, que já foi funcionária de topo da Unicef e também do grupo de peritos sobre estratégias de imunização(SAGE) da OMS, reconhece que “depois de 20 anos neste caldo em ebulição”, estamos agora, em 2019, “na tempestade perfeita” em que doenças de risco quase desprezível se transformam em ameaças sérias. E que quando se previa que fizesse parte do passado, o sarampo volta a provocar baixas na Europa, a uma velocidade galopante à medida que a taxa de imunização das comunidades desce do nível seguro de 95%.


Alemanha aprova multas até 2.500 euros para pais que não vacinem filhos contra sarampo
Em 2018, registaram-se no país um total de 543 casos de sarampo e este ano, até ao momento, já foram contabilizados mais de 400.

“Depois de vários anos de progresso continuado na eliminação do sarampo na Europa, o número de países que eliminaram a doença caiu”. Esta foi a conclusão da Comissão para a Verificação da Eliminação do Sarampo e da Rubéola na Europa (RVC na sigla inglesa), de acordo com um relatório sobre os 53 estados da região europeia. Desde que esta comissão entrou em funcionamento, em 2012, foi a primeira vez que quatro países perderam o estatuto de eliminação da doença. “O ressurgimento da transmissão do sarampo é preocupante. Se a alta cobertura de imunização (vacinação) não for alcançada e mantida em cada comunidade, tanto os adultos como as crianças irão sofrer desnecessariamente e alguns morrer”, refere Gunter Pfaff, presidente do RVC. Os dados deste ano parecem assustadores, até porque de acordo com o Plano Global de Vacinas, a OMS tinha como objetivo a eliminação do sarampo e da rubéola em cinco (das seis) regiões do mundo, já para 2020. E a Europa era seguramente uma delas.

A progressão rápida dos surtos de sarampo na civilizada Europa está a assustar as autoridades. O sarampo é uma doença altamente contagiosa quando encontra ‘buracos’ de imunidade numa população. O especialista português em saúde pública (e antigo Diretor-geral de Saúde) Francisco George sustenta que “a situação atual na Europa é perigosíssima”. “Sendo uma doença exclusivamente humana, o único reservatório do vírus é o doente infetado. No momento em que seria possível erradicar o sarampo com a vacina, que é eficaz e segura, e graças às notícias falsas e à iliteracia em saúde, as pessoas estão a recusar vacinar os seus filhos”, sustenta.

O sarampo é uma doença muito perigosa “mas as vacinas tornaram-se o seu próprio inimigo”, explica. “As pessoas não percebem a gravidade da doença porque graças precisamente à vacinação é muito raro ver alguém doente por perto. E é fácil menosprezar a verdadeira virulência”. O atual presidente da Cruz Vermelha Portuguesa defende a obrigatoriedade da vacinação com o argumento de que “um pai não tem o direito de pôr em risco a vida do filho e tem o dever de o proteger de um perigo real”. E embora, em Portugal a vacinação não seja obrigatória por força de lei, há uma quase completa adesão das famílias ao Plano Nacional de Vacinação (ver caixa).

A eficácia da vacina

Este ano, na Europa, só de janeiro a agosto, houve 90 mil casos, um número mais alto do que o registado durante todo o ano de 2018 – que foi de 84.462 casos. Refira-se que em 2016 tinha havido uma fração: 5.273 casos.

E houve fatalidades: 38 pessoas morreram este ano na região europeia da OMS, que inclui 53 países. Em 2019, a Ucrânia registou um total de mais de 57 mil casos e 19 mortes. E de 2017 até ao momento, só na Ucrânia já morreram 40 pessoas com sarampo, a última, na semana passada, foi um rapaz de 5 anos que não podia tomar vacinas por questões de saúde.

Mas o sarampo não regressou só à Europa. No primeiro semestre do ano, a OMS registou um total de 364.000 casos no mundo. “O valor mundial mais elevado (para um período homólogo) desde 2006”, alertou Kate O’Brian, responsável do departamento de vacinas desta organização. “Vamos continuar a assistir a um aumento, caso não sejam tomadas medidas significativas”, alertou.


UNICEF: 20 milhões de crianças sem vacinas contra sarampo, difteria e tétano em 2018
Quando crescem os movimentos antivacinas, a UNICEF avisa que a redução do número de pessoas vacinadas por opção ou por falta de acesso é responsável pela duplicação do número de casos de sarampo em 2018.

Refira-se que a vacina do sarampo é utilizada desde os anos 60, sendo, de acordo com a OMS, segura, eficaz e barata. A sua aplicação é feita em duas tomas, quer isoladamente quer em conjunto com a inoculação de rubéola; com rubéola e papeira (a tríplice ou na sigla inglesa MMR) ou ainda com a varicela. A OMS recomenda que seja corrente em todos os programas de vacinação pública para crianças e adultos para os quais não existam contra-indicações. Graças à vacinação, a um nível global as mortes por sarampo caíram de 550 mil em 2000 para 89.780 em 2016. São óbitos que ocorrem sobretudo em países em vias de desenvolvimento e em populações empobrecidas.

A responsabilidade do Facebook

A resposta atual dos países europeus está a ser pela via legal. No Reino Unido, onde este ano se registaram quase 500 casos de sarampo, discute-se a obrigatoriedade de vacinar crianças com a MMR antes do ingresso na escola. Na Alemanha, onde se registaram mais de 400 casos em 2019, a partir de Março de 2020 os pais serão multados até 2.500 euros se não vacinarem os filhos.

Mas é nos patrões das redes sociais que a OMS deposita grande esperança, depois de reconhecer que muitas campanhas anti-vacinas ganham velocidade nas páginas do Instagram e do Facebook, onde um mito mil vezes partilhado se torna verdade. A 4 de setembro, menos de uma semana depois do assustador relatório de 2019 sobre o sarampo na Europa, o presidente da OMS elogiou a iniciativa do Facebook de combater ativamente a desinformação sobre vacinas nas páginas e fóruns das suas redes sociais. Os responsáveis do Facebook anunciaram que vão reencaminhar “milhões dos seus utilizadores para as páginas da OMS onde são fornecidas informações confiáveis sobre vacinas em várias línguas, de forma a garantir que a informação vital chegue aos que mais dela precisam. A OMS e o Facebook têm estado a discutir há meses a forma como as pessoas podem aceder a informação segura sobre vacinas e reduzir a proliferação de falsidades”. Ainda segundo Tedros Ghebreyesus, “a desinformação sobre vacinas é um dos maiores riscos para a saúde mundial, que poderá reverter décadas de progresso nas doenças evitáveis”. E as principais companhias digitais “têm a responsabilidade para com os seus utilizadores de assegurar que eles possam ter acesso a factos.” “Estes esforços digitais devem ser acompanhados por passos reais de governos e do sector da saúde para promover confiança na vacinação e responder às preocupações dos pais”, defende Ghebreyesus.

Desde que a vacina contra a varíola foi descoberta, no final do século do século XVIII, quase acidentalmente, por Edward Jenner, até ao desenvolvimento da vacinação moderna no século XX, a inoculação de agentes patogénicos de forma a criar imunidade é uma das maiores histórias de sucesso da medicina e das políticas de saúde pública. Doenças mortais ou que comprometiam para toda a vida a saúde dos afetados, como a poliomielite, a cólera, o sarampo, a difteria, a varíola, foram praticamente erradicadas da face da Terra. E vírus terríveis como os do ébola – cujo atual surto na República Democrática do Congo só não está a ser devastador graças à grande campanha de vacinação em curso – estão a ser debelados à medida que a indústria desenvolve vacinas. 


 Andrew Wakefield: contra argumentos não há factos

 É uma das maiores fraudes da medicina moderna, milhares de vezes desmascarada, mas os seus efeitos continuam a ser reais 20 anos após os acontecimentos. Em Fevereiro de 1998, a revista científica Lancet publicou um artigo assinado pelo médico britânico Andrew Wakefield (e mais 11 co-autores) onde se sustentava que a vacina tríplice (sarampo, rubéola e papeira) provoca autismo. O estudo teve um eco enorme em publicações não científicas em todo o mundo, a notícia caiu como uma bomba nas salas de espera de pediatria.

Em Março de 2004 os co-autores do estudo retiraram o apoio a Wakefield, mas em 2005 - e no meio da indignação da comunidade científica por evidentes falhas na investigação - a inoculação da vacina no Reino Unido cai 20%. Foi o começo da ‘tempestade perfeita’. Em 2010, a Ordem dos Médicos inglesa encontra no trabalho de Wakefield graves falhas éticas na condução da pesquisa ao mesmo tempo que a Lancet retira o artigo do seu portfolio. Em 2010 Wakefield é expulso da Ordem dos Médicos inglesa e impedido de exercer no Reno Unido. Mas a história não acaba aqui. Banido do seu pais, Wakefield já encontrara nos EUA, mais precisamente na capital do Texas, o melhor terreno para espalhar a ideia, já sem nenhum suporte científico. Criou uma fundação que continua a dar apoio a pais de crianças autistas e a fazer campanhas. E alimenta um movimento anti-vacinas com sede em Austin, e muito poder, contando inclusive com apoio de políticos daquele estado. Desde a chegada de Wakefield, no início dos anos 2000, o Texas aumentou, segundo o Guardian, em 1.900% a taxa de crianças que não tomam pelo menos uma vacina.

Globalmente, desde que o mito sobre a perigosidade da vacina nasceu, há mais de 20 anos, os estudos que demonstram a eficácia e segurança destes fármacos não pararam de crescer. Mas, como reconhecem os cientistas, vivemos num mundo ‘resistente aos factos’.

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