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Como é que demorou tanto?
Opinião Mundo 3 min. 12.01.2021

Como é que demorou tanto?

Apoiante de Trump dentro do gabinete de Nancy Pelosi, porta-voz da Casa dos Representantes, após a invasão ao Capitólio na semana passada.

Como é que demorou tanto?

Apoiante de Trump dentro do gabinete de Nancy Pelosi, porta-voz da Casa dos Representantes, após a invasão ao Capitólio na semana passada.
Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 12.01.2021

Como é que demorou tanto?

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Autor de um dos livros essenciais para entender os tempos que vivemos (“Sobre a tirania – Vinte lições do século vinte”, publicado em 2017), Timothy Snyder é um respeitado historiador que desde cedo começou a alertar para as estranhas semelhanças entre “as mentiras de Trump que nos conduzem directamente à prepotência” e o percurso ascendente de Adolf Hitler.

Autor de um dos livros essenciais para entender os tempos que vivemos ("Sobre a tirania – Vinte lições do século vinte", publicado em 2017), Timothy Snyder é um respeitado historiador que desde cedo começou a alertar para as estranhas semelhanças entre "as mentiras de Trump que nos conduzem directamente à prepotência" e o percurso ascendente de Adolf Hitler. Imediatamente após chegar ao poder, o ditador nazi mandou incendiar o imponente edifício do Reichstag (parlamento), deitando em seguida as culpas para cima dos comunistas alemães como pretexto para os prender, obtendo assim o controlo absoluto do Estado. Imediatamente após Donald Trump chegar ao poder, perguntaram a Snyder se achava possível um presidente americano chegar a tal ponto. A resposta foi lapidar: "é inevitável que pelo menos tentem".

Mas a multidão de "deploráveis", para utilizar o adjectivo uma vez usado por Hillary Clinton que talvez lhe tenha custado a eleição, só invadiu e saqueou o Capitólio (parlamento e senado) no estertor final do mandato de Trump. Apesar do absurdo e da novidade daquelas imagens, ninguém se pode afirmar completamente surpreendido. Na verdade, a primeira pergunta que ocorre é: como é que demorou tanto?

Hoje finalmente podemos chamar-lhe aquilo que é – fascismo –, só mesmo os cobardes e os acólitos do trumpismo ainda se recusam a classificá-lo assim.

Durante quatro anos, de forma crescente, choveram artigos, livros e opiniões de vozes sérias como a de Snyder, conceituadas como o Le Monde ou o New York Times, e até mesmo insignificantes como a minha alertando, com todas as letras, para o que estava em causa: o fim da democracia e o regresso do fascismo. E para cada uma destas vozes, apareceram dez comentários no cano de esgoto – perdão, no facebook – a ridicularizar-nos como alarmistas que gritavam "fascismo!" por tudo e por nada, ou acusando-nos de maus perdedores (e outros insultos bem piores).

Hoje finalmente podemos chamar-lhe aquilo que é – fascismo –, só mesmo os cobardes e os acólitos do trumpismo ainda se recusam a classificá-lo assim. Mas neste caso não há qualquer alegria em ter tido razão antes do tempo. Durante este pesadelo americano já tivemos direito a ver repetidos muitos dos grandes êxitos históricos da extrema-direita, desde a "marcha sobre Roma" de Mussolini (5000 pessoas em Washington, enquanto Trump se escapava para jogar golfe) até à demagogia dirigida às massas desempregadas enquanto se distribui benesses pelos amigos milionários, passando pelo encarceramento de crianças imigrantes (e separação dos respectivos pais), pela supressão de votos das minorias étnicas, pelo desejo desesperado de ignorar eleições, tudo terminando em "grande" com final de opereta numa tentativa desajeitada de golpe de Estado – um pouco como Hitler em 1923, mas em versão farsa.


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Trump acabou. Mas o trumpismo continua: nas próximas semanas, talvez mesmo dias, ainda vai provocar ondas de choque com matizes de guerra civil. Além disso, está bem de saúde no Brasil, na Rússia, na Índia... e na Europa. Aviso para quem gosta de vendedores de banha da cobra, um golpe de Estado também pode acontecer aqui; estamos distraídos, moles e ignorantes o suficiente para isso.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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