Cloroquina. Como o antigo tratamento contra a malária pode vir a ajudar a combater a Covid-19
Cloroquina. Como o antigo tratamento contra a malária pode vir a ajudar a combater a Covid-19
No passado dia 19 de fevereiro, investigadores chineses publicaram um estudo clínico em que revelaram que a cloroquina, substância desenvolvida para tratar a malária e o paludismo, se está a mostrar eficaz no combate ao Covid-19.
De acordo com o artigo, publicado na BioScience Trends e citado pela agência AFP, os três investigadores chineses, Jianjun Gao, Zhenxue Tian e Xu Yang, da universidade de Qingdao e do hospital de Qingdao, concluíram, com base em ensaios clínicos realizados em mais de dez hospitais chineses, nas cidades de Wuahn – epicentro do surto -, Pequim e Xangai, que o fosfato de cloroquina se revelou eficiente no tratamento de pacientes infetados com o novo coronavírus, o Covid-19.
A investigação conclui que os resultados obtidos até agora, em mais de 100 pacientes, demonstraram que aquela droga, usada durante várias décadas para combater a malária, se revelou bem-sucedida "para conter a evolução da pneumonia, para melhorar o estado dos pulmões, e para que o paciente se torne de novo negativo ao vírus e reduzir a duração da doença".
Os investigadores chineses referem que um tratamento diário de 500 mg de cloroquina, durante dez dias, foi o suficiente para curar as infeções provocadas pelo Covid-19.
Ao Contacto, António Mendes, investigador do Laboratório de Estratégias Antimalária do Instituto de Medicina Molecular, em Portugal, e um dos membros de uma dupla de investigadores, que, em 2013, recebeu o financiamento de 1 milhão de dólares da Fundação Bill & Melinda Gates para desenvolver uma vacina contra a malária, comenta estas conclusões e explica que possibilidades a cloroquina pode abrir no combate ao Covid-19.
Por outro lado, o cientista alerta que é preciso pensar a ciência muito para além dos surtos e das epidemias, lembrando que é necessário um trabalho e um investimento de continuidade para desenvolver, com tempo, as armas mais adequadas e eficazes para tratar estes e outros vírus, que ciclicamente afetam a população mundial.
A cloroquina está a ser usada para tratar os doentes com o novo coronavírus Covid-19. Porque é que esta droga pode ajudar a tratar os pacientes?
Em 2004, no seguimento do [vírus] do SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave], viu-se, in vitro, que a cloroquina era uma droga que também tinha efeito anti-viral. Até aí era sempre usada como anti-parasitária, no contexto da malária, e como modelador do sistema imunitário. Basicamente, a cloroquina é um imunossupressor de umas partes do sistema imunitário. Pelo que tenho conhecimento, nessa altura foi colocada como uma hipótese de tratamento, mas nada mais do que isso. Porque a realidade é que há outros anti-virais, esses sim especificamente contra vírus, que têm índices de atividade superiores aos da cloroquina. O que me parece que aconteceu agora é que com que este pânico em torno de coronavírus, as autoridades chinesas lançaram ensaios clínicos, com 100 pacientes, segundo a notícia [da 'BioScience Trends'], com várias possibilidades, a começar nas que já têm algum tipo de indicação, mas também naquelas que são mais baratas e que existem em maior quantidade e em stock. E assim pode-se tratar, de um momento para o outro, digamos, muita gente e tentar controlar a situação. Recentemente, também saiu na CellReports, que é uma publicação científica reputada e de confiança, um estudo, mas novamente com a versão in vitro, que mostra que, além do que já tinha sido revelado com o SARS, a cloroquina tem atividade significativa contra este novo coroanvírus. Daí toda esta expectativa, sobretudo porque depois aparece uma comunicação das autoridades chinesas a dizer que já testaram em vários pacientes, em diferentes hospitais da China, e em que parece que houve uma diferença significativa - mas não consegui encontrar informação com muitos mais detalhes além desses.
Uma das conclusões que reportam no artigo da revista 'BioScience Trends' é que os fosfato de cloroquina foi eficaz para "conter a evolução da pneumonia, para melhorar o estado dos pulmões, para que o paciente se torne de novo negativo ao vírus e para reduzir a duração da doença". Dos seus conhecimentos no estudo e investigação da malária, e da cloroquina, acha que essas conclusões são possíveis?
Acho que é possível, porque o mecanismo que descrevem, inicialmente com o SARS, já foi provado. Ou seja, o mecanismo pelo qual a droga atua num vírus ou no outro é exatamente o mesmo. Além disso, há também este facto de essa droga ter a característica de ser imunossupressora, de também atuar sobre o sistema imunitário. E isso pode levar a melhorias que não são devidas à morte do vírus por si só. O que acontece muitas vezes com esta droga quando se tem uma infeção [pulmonar] - não com este caso específico - é que o vírus vai-se replicando nos pulmões e matando as células. Mas muito do "estrago" que às vezes acontece, resulta do facto do próprio corpo, do próprio sistema imunitário perceber que há qualquer coisa que não está bem e põe o seu exército todo o combater isso. Então acaba por fazer mais dano que o próprio vírus. Muitas vezes o sistema imunitário tem uma reação de tal forma exacerbada àquela infeção, que acaba por matar as células todas à volta na tentativa de controlar aquela ameaça. E o que esta droga tem de bom é que, de alguma forma controla e põe o sistema imunitário sob uma maior contenção. Pode, por aí, também ser um outro factor da eficácia que ela parece ter contra este vírus. Resumindo, acho que pode ser mais uma boa aposta, mais, sobretudo, por ser barata e acessível, do que por ser a cura miraculosa que vai derrotar especificamente o vírus. Muitos dos efeitos que se estão a ver com essa droga são os mesmos que se vêem da droga com vários outros microorganismos, porque ela não é um anti-viral de primeira linha.
Além de ser barata e facilmente produzida, que outras vantagens pode ter a cloroquina?
Uma vantagem da cloroquina é que pode ser dada em doses grandes, sem efeitos secundários, e é uma droga que foi distribuída pelo mundo inteiro desde o século passado. Ou seja, não há problemas de segurança e tem todas as autorizações recomendadas.
Os antigos anti-retrovirais do HIV
Apesar de reconhecer as possibilidades de benefícios da cloroquina no combate ao Covid-19, António Mendes acredita que poderá ser mais eficaz a resposta dos antigos anti-retrovirais, como as drogas contra o HIV e cuja utilização em pacientes infetados já foi notícia em Itália e, no início do surto, na Tailândia, estando também a ser estudada no Japão, segundo o especialista.
A par da cloroquina, os anti-retrovirais contra a o HIV e a SIDA estão globalmente distribuídos e são de fácil acesso, inclusivamente nos países africanos - sobretudo da África subsariana - onde a Organização Mundial de Saúde (OMS) mais temia que o Covid-19 chegasse, devido à falta de condições e de estruturas para evitar o alastrar do contágio e tratar potenciais casos de pessoas infetadas.
Esta sexta-feira, foi noticiado o primeiro caso positivo na África subsariana, depois de a Nigéria ter confirmado uma situação de infeção com o novo coronavírus no seu território.
A OMS acabou por reiterar o aviso de que o vírus pode chegar à maioria, "se não a todos os países".
A confirmar-se a eficácia da cloroquina, e de outros anti-retrovirais já existentes no mercado, no tratamento de pacientes com Covid-19, poderá havar uma luz ao fundo do túnel.
"São soluções que já estão implementadas, por isso é muito mais fácil conseguir que cheguem rapidamente à população", sublinha o investigador, que acredita que a forma de combater o novo coronavírus, que, na sua perspetiva, "tem um padrão de agressividade em termos epidemiológicos como poucos dos que se conhecem", e para o qual ainda não estamos imunes, poderá passar muito por respostas multifacetadas, no que se refere aos fármacos e medicamentos a usar, e que podem ir "dos anti-retroviriais, aos antivíricos normais à cloroquina".
Vacina contra o Covid-19?
"O processo de desenvolver uma vacina é complicado, demora o seu tempo e tem muitos pontos em que pode correr mal", refere, mesmo que na vacinologia, em geral, vírus como o novo coronavírus não sejam dos mais complicados e que nos potenciais candidatos à produção da vacina usem uma base de vacinação já conhecida.
Mesmo assim, lembra que "o organismo tem a sua complexidade e nem todos os seus constituintes são igualmente imunogénicos para nós. Ou seja, nem todos permitem criar uma resposta no nosso sistema imunitário capaz de proteger. Tem de se identificar qual é que é essa pressão que é mais capaz de despoletar uma resposta no nosso corpo que consiga atuar da próxima vez que se deparar com o vírus. E isso exige testes e testes".
Tudo isso tem de acontecer antes de se avançar para a parte da produção.
O investigador dá como exemplo o caso do Ébola, em que a criação de uma vacina em três anos é um facto "extraordinário", acrescentando que há décadas que se está a tentar encontrar uma vacina eficaz contra o HIV e contra a malária.
O investigador lamenta que a importância dada à ciência e o investimento em ensaios clínicos só surja em força quando acontecem estes fenómenos, que, lembra, tendem a ser cíclicos. E crítica que se tentem pressionar os cientistas para obterem soluções rápidas, no momento, quando estas requerem tempo para serem estudadas, desenvolvidas e testadas.
"A investigação e a ciência não são os 1500 metros, são a maratona", afirma António Mendes, queixando-se de não se ter aproveitado o surto de SARS, há alguns anos, para se dar continuidade aos trabalhos e prevenir o aparecimento de um vírus semelhante, no futuro, devendo-se ter começado, nessa altura, a pensar o que é que se poderia fazer para o vir a combater. Ou seja, "manter alguma investigação ativa sobre este tipo de epidemias e sobre este tipo de vírus para que quando ele apareça não seja preciso estar a testar várias drogas ao mesmo tempo para tentar encontrar qualquer coisa que de repente funcione. Esse trabalho de casa deve ser feito ao longo de anos."
Por isso, alerta que é preciso "não esquecer" estes dias em que a emergência face ao desconhecido fez soar os sinais de alerta em todo o mundo, levando à adoção de medidas drásticas, e que os países devem continuar a investir no trabalho de investigação para encontrar uma cura ou a ambicionada vacina, para este vírus ou um semelhante, mesmo depois de o pior já ter passado.
