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Cirurgiões separam com sucesso gémeas siamesas ligadas pelo crânio
Mundo 5 min. 17.07.2019

Cirurgiões separam com sucesso gémeas siamesas ligadas pelo crânio

Cirurgiões separam com sucesso gémeas siamesas ligadas pelo crânio

Mundo 5 min. 17.07.2019

Cirurgiões separam com sucesso gémeas siamesas ligadas pelo crânio

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Nove meses, quatro cirurgias, mais de 100 especialistas e 55 horas de operações. São os números do sucesso da separação de Sara e Marwa, num hospital de Londres. Veja a explicação em video

As paquistanesas Safa e Marwa Ullah, de dois anos e meio, nasceram como um caso raríssimo no mundo: Gémeas siamesas ligadas pelo crânio, ou gémeas 'craniopagus'. Mas estas meninas também são agora conhecidas mundialmente por terem sido separadas com sucesso, após cirurgias muito complexas, por uma equipa de médicos em Londres e ter pela sua frente uma vida independente uma da outra, activa e feliz. Pelo menos, assim o esperam os médicos.

Até fevereiro deste ano, quando se realizou a última cirurgia de separação das duas gémeas,  Sara e Marwa nunca tinham visto o rosto uma da outra. Porque viviam unidas pela parte superior da cabeça, cada uma para um lado oposto.

As gémeas nasceram em janeiro de 2017, na cidade Charsadda, no Paquistão e só depois do parto, a mãe, Zainab Bibi, de 34 anos soube que tinha duas gémeas siamesas, contou um dos cirurgiões londrinos que operou as gémeas.

O pai das meninas faleceu de ataque cardíaco durante a gravidez de Zainab Bibi e a família não tinha posses para poder viajar e pagar a separação de Sara e Marwa. Mas o empresário paquistanês Murtaza Lakhani, dispôs-se a financiar todo o tratamento, segundo escreve o The Daily Mail, citado pelo Expresso.

As gémeas acompanhadas pela mãe, pelos avós e tio viajaram então até Londres, no segundo semestre de 2018, para darem entrada no Great Ormond Street Hospital (GOSH), um dos hospitais especialistas mundiais em cirurgias de 'craniopagus', tendo já separado dois pares destes gémeos em 2006 e 2011. Sara e Mawa iniciavam assim uma longa jornada de nove meses de tratamentos e quatro cirurgias que conduziram ao desfecho esperado: separá-las com êxito.

Realidade virtual ajuda os cirurgiões

A separação destas siamesas tratou-se de um processo deveras complicado que ao todo envolveu mais de 100 especialistas de várias áreas da medicina, e 55 horas de cirurgia. A primeira cirurgia decorreu em outubro de 2018, tinham as meninas 19 meses e a última foi realizada em fevereiro deste ano. 

Para que não houvesse falhas, nestas complicadíssimas cirurgias – as meninas estavam unidas pelo crânio e vasos sanguíneos, mas tinham cérebros independentes - os médicos elaboraram primeiro os procedimentos cirúrgicos em modelos auxiliados por sistemas de realidade virtual e utilizaram até impressoras 3D para criar moldes de plástico das estruturas para treinarem as cirurgias. Nas redes sociais o hospital mostra num vídeo como as equipas separaram os crânios das meninas.

Devido à complexidade das intervenções e do pós-operatório as gémeas só tiveram alta hospitalar no passado dia 1 de julho. Mas, mesmo assim, a mãe, o avô Mohammad e um tio, Mohammad Idrees que acompanham, Zainab Bibi e as meninas em Londres, têm de permanecer nesta cidade até janeiro do ano que vêm, por ocasião do terceiro aniversário das gémeas. Até lá, Safa e Marwa Ullah necessitam de fisioterapia diária necessária à sua plena recuperação.

“Estou muito otimista de que quando fizerem três anos já deverão estar a andar. É o que espero ver”, declarou o neurocirurgião Owase Jeelani, um dos especialistas que operou as gémeas no vídeo que o GOSH divulgou nas redes sociais.

“Estamos muito contentes por termos conseguido ajudar a Safa e a Marwa e a sua família. Para eles foi uma longa e complexa jornada. A sua fé e determinação foi muito importante para vencer os desafios que foram enfrentando. Estamos muito orgulhosos deles”, frisaram o  Owase Jeelani e o cirurgião craniofacial David Dunaway, em comunicado, citado pelo The Guardian.

Também no Twitter, na legenda da fotografia das meninas já separadas e com alta a passearam nos carrinhos, o hospital escreveu: “Quatro cirurgias, 55 horas de operações e um adeus carinhoso! Após nove meses, as gémeas e as suas famílias deixaram o GOSH, a 1 de julho. Safa e Marwa têm um longo caminho pela frente, mas temos esperança que vivam a sua vida, de forma ativa e feliz!” 

Por seu turno, a mãe das gémeas, Zainab Bibi agradeceu ao hospital e à sua equipa. “Gostávamos de agradecer a todos por tudo o que fizeram. Estamos entusiasmados com o futuro".

“Estas são as separações mais difíceis”

Em Portugal, o cirurgião Gentil Martins foi durante anos o único especialista a separar siameses. E conhece bem as dificuldades com que se deparam os cirurgiões.

Para este cirurgião, as cirurgias de separação de gémeos 'craniopagus' “são as mais delicadas e difíceis”, confirma ao Contacto.

“Há que estudar muito bem os crânios, ver o que está unido, os vasos que têm em comum, que parte dos cérebros, se estes estiverem unidos, observar tudo muito bem para saber exatamente o que se irá separar”, explicou. E, no caso destas gémeas, as equipas do GOSH “fizeram tudo muito bem”. Este hospital, adiantou, é famoso pelas cirurgias de separação de gémeos siameses, não só de 'craniopagus', já devem ter realizado “mais de trinta”, conta Gentil Martins.

“Em princípio, pelo que vi no vídeo do hospital sobre as cirurgias, o desenvolvimento cognitivo destas meninas deverá ser normal, pois o cérebro de cada uma está intacto. Deverão, ao que tudo parece indicar, vir a ter, agora separadas um crescimento como o das outras crianças”, perspetiva este especialista português.

Neste caso, como em todos os casos de siameses, há fatores indispensáveis que todo o cirurgião deve ter em conta: “O principal é saber o que a natureza nos dá, ver anatomicamente o que cada um dos gémeos possui e saber o que está unido e como se pode separar”, que permita o paciente sobreviver e viver. Este cirurgião dá como exemplo, os casos de gémeos ligados de frente, pelo tórax, que são os mais comuns. Podem partilhar o fígado, por exemplo, ou um dos rins, e uma pessoa pode viver sem um fígado inteiro e sem um dos rins.

Gentil Martins, já reformado e com 89 anos, realizou separações de gémeos siameses, não só portugueses mas de outros que vieram de Macau e de Moçambique para serem operados por ele.  "Há uns anos uma televisão conseguiu reunir nove crianças de sete apares que separei em bebés e com os quais tirei uma fotografia inédita pelo conjunto. Dos sete pares, um faleceu já após a operação terminada devido a um defeito enzimático congénito muito grave e que leva à denominada "hipertermia maligna". Outro par de bebés, duplo da cintura para cima, faleceu também, sendo que um deles já vinha morto e, finalmente, dos outros cinco pares, um dos bebés acabou por falecer um mês após a separação”, recorda Gentil Martins.