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Ciência indica que chuvas extremas no Brasil são consequência das alterações climáticas
Mundo 3 min. 13.03.2020

Ciência indica que chuvas extremas no Brasil são consequência das alterações climáticas

Ciência indica que chuvas extremas no Brasil são consequência das alterações climáticas

Foto: AFP
Mundo 3 min. 13.03.2020

Ciência indica que chuvas extremas no Brasil são consequência das alterações climáticas

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Os cientistas culpam uma combinação de cidades em crescimento e colapso climático

O jornal britânico The Guardian teve acesso a informação científica que prova o aquecimento global está a ser a causa dos eventos de precipitação extrema no Brasil, dos quais já resultaram cerca de 150 pessoas mortas ou desaparecidas. 

O ano ainda agora começou e as chuvas fortes, deslizamentos de terra e cheias já assombraram três estados brasileiros . Cerca de 150 pessoas foram mortas ou estão desaparecidas como consequência destes eventos que os cientistas alertam poderem tornar-se "o novo normal".

As chuvas desta época do ano, matam os brasileiros todos os anos, com inundações  que enchem ruas e provocam deslizamentos de terra que afligem comunidades mais pobres e favelas construídas em encostas íngremes, muitas vezes sem drenagem ou saneamento adequado.

Porém, as temperaturas globais subiram abruptamente desde os anos 80, e uma atmosfera quente causa mais evaporação, tornando mais água disponível para a precipitação.

Dados oficiais enviados ao jornal britânico mostram que "eventos extremos de chuva" - quando mais de 80mm ou 100mm caem em 24 horas - dispararam nos últimos 30 anos nas capitais dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde as chuvas mortais aconteceram.

Os cientistas culpam uma combinação de cidades em crescimento e colapso climático. “Estamos vendo cada vez mais eventos extremos acontecendo em cidades grandes e importantes", disse Tercio Ambrizzi, professor de climatologia da Universidade de São Paulo. "Há uma relação com o aumento da temperatura média global".

Na semana passada, no Guarujá, uma cidade costeira a 40 km de São Paulo,  os dados indicam que choveram 282 milímetros em apenas 12 horas- mais do que o total esperado para todo o mês de março.

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), uma estação meteorológica do Rio de Janeiro registou 134 chuvas extremas de 1960 a 1990, e 221 de 1990 a 2020. Uma estação meteorológica de São Paulo registou 15 de 1960 a 1990 e 44 desde então.

Em fevereiro, a cidade de São Paulo, a mais populosa cidade do Brasil, registou o maior volume de chuva para o mesmo mês dos últimos 37 anos, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

"Houve claramente um aumento de eventos extremos no sudeste do Brasil", disse Ambrizzi ao The Guardian. O seu próprio estudo sobre São Paulo - capital do estado, onde quatro pessoas morreram em dois dias, em fevereiro, após fortes chuvas - corrobora isso.

Dados de duas estações meteorológicas da cidade mostraram um aumento nos eventos extremos de chuva, segundo um artigo de Ambrizzi e outros cientistas publicado na Academia de Ciências de Nova York no mês passado. Além disso, apontam que a estação seca começou a estender-se de setembro a outubro nas últimas décadas. "Isso, juntamente com a ocupação inadequada de áreas de risco, como encostas e margens de cursos de água, leva à inundação, enchentes e deslizamentos de terra", disse o jornal. "As mudanças nos extremos podem ser devidas em parte à variabilidade climática natural, mas também podem estar relacionadas ao aquecimento global e/ou à urbanização".

Os cientistas referem que as "ilhas de calor urbanas" criadas pelo cimento e a falta de vegetação nas grandes cidades aumentam as temperaturas, assim como a falta de permeabilidade do solo significa mais enchentes. O aquecimento global exacerba o efeito.

"Quando está mais quente, chove mais, e isso piora se houver áreas urbanas, áreas de cimento e asfalto", disse José Marengo, do Centro Nacional de Monitorização e Alerta de Desastres Naturais do Brasil, e outro dos autores do trabalho.

No entanto, nem todos os cientistas consideram o aquecimento global responsável. O Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais disse que as chuvas foram "fenómenos meteorológicos típicos do verão", e os culpou na zona de convergência do Atlântico Sul - "uma faixa de nuvens que canaliza a humidade da Amazónia e do Oceano Atlântico tropical" durante três dias ou mais, produzindo chuvas fortes e frentes frias. Nem a chuva aumentou em todos os lugares: o nordeste tem visto secas mais extremas, argumentam.

"Não se pode generalizar tudo e culpar o aquecimento global por tudo", disse Josélia Pegorim, uma meteorologista do serviço meteorológico Climatempo, ao mesmo tempo em que observou que as chuvas de verão foram excepcionais. "Estamos a bater recordes", disse ela.

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