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Chefe do exército da Colômbia acusado de promover o assassinato de adversários políticos
Mundo 7 min. 06.06.2019

Chefe do exército da Colômbia acusado de promover o assassinato de adversários políticos

Chefe do exército da Colômbia acusado de promover o assassinato de adversários políticos

Foto:AFP
Mundo 7 min. 06.06.2019

Chefe do exército da Colômbia acusado de promover o assassinato de adversários políticos

O exército colombiano estará envolvido novamente num esquema de assassinatos extrajudiciais para mostrar que está a ganhar a guerra contra guerrilheiros.

 “Tens 24 horas para abandonar a cidade ou matamos-te”. Imediatamente, arrumou as malas e abandonou Santa Marta, na Colômbia, no próprio dia. A chamada telefónica que recebeu em 2010 nunca a vai esquecer porque foi obrigada a exilar-se na Alemanha. Esta é a história de uma investigadora colombiana que aceitou conversar com o Contacto sob anonimato. “Durante alguns meses, tive proteção policial até que decidi abandonar o país”, afirmou antes de explicar que também os seus pais tinham sido ameaçados anos antes. A investigadora de 36 anos fugiu com os progenitores de Barrancabermeja depois de descobrirem que o nome do pai estava numa lista de alvos dos paramilitares de extrema-direita. “Eles controlavam a cidade e alguns amigos e colegas médicos do meu pai já tinha sido assassinados. Decidimos mudar de lugar”.

Uma década depois, com o processo de paz em estado crítico, sucedem-se as denúncias de que as forças militares colombianas podem estar novamente a promover execuções extra-judiciais contra civis com o objetivo de os fazer passar por guerrilheiros. O estranho caso do ex-combatente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Dimar Torres Arévalo, assassinado no dia 22 de abril por um cabo do exército que foi surpreendido pela população a tentar enterrar o corpo, levou o ministro colombiano da Defesa a justificar a ação com uma suposta tentativa do ex-guerrilheiro de se apropriar da arma do militar.

Mas a Semana publicou uma reportagem em que denuncia que os soldados pretendiam vestir o ex-guerrilheiro com o uniforme do Exército de Libertação Nacional (ELN), a segunda mais antiga guerrilha colombiana. De acordo com a revista, o cabo Daniel Eduardo Gómez Robledo, acusado de assassinar Dimar Torres, não terá agido sozinho porque houve um hiato de onze horas antes de que avisassem as autoridades da morte do ex-guerrilheiro. Terão tentado vesti-lo de guerrilheiro do ELN para ser apresentado como mais um combatente abatido em combate. Ou seja, uma execução extrajudicial que na Colômbia se conhece como falso positivo.


New York Times acusa Estado colombiano

Guillermo Botero, responsável pela pasta da Defesa, é um dos braços fortes do presidente Ivan Duque, ao ponto de este lhe ter atribuído funções presidenciais durante a sua recente viagem a El Salvador. O ministro foi alvo de duras críticas depois da publicação de uma reportagem do norte-americano The New York Times que mostra como as altas patentes das forças armadas ordenaram aos militares “duplicarem o número de criminosos e guerrilheiros que matam, capturam ou forçam a render-se em combate (e admitindo a possibilidade de um maior número de vítimas civis)”. 

Os colombianos não esquecem que a existência deste tipo de estímulos aos efetivos militares por mais “resultados” foi o que propiciou os falsos positivos há uma década com a política de Segurança Democrática do então presidente Álvaro Uribe.

Um dos visados pelo trabalho jornalístico como um dos principais responsáveis pelo aumento de vítimas civis do conflito é o general Nicacio Martínez Espinel, chefe máximo do exército, que apesar das polémicas acusações acaba de ser promovido na hierarquia militar pelo senado colombiano com os votos maioritários da bancada liderada precisamente pelo antigo presidente Álvaro Uribe, aliado de Ivan Duque. 

O general é investigado pela justiça colombiana por ter sido responsável por 23 execuções extrajudiciais, os famosos "falsos positivos", quando era o segundo comandante da Décima Brigada Blindada, entre 30 de outubro de 2004 e 23 de janeiro de 2006.  A investigação foi aberta dez dias depois da reportagem do New York Times que denuncia esses crimes e a orientação dada ao exército para liquidar ex-gerrilheiros.  


Poucos dias depois da reportagem, o autor da peça jornalística confirmou numa nota enviada às redações que havia abandonado a Colômbia “por causa das falsas acusações feitas no Twitter por Maria Fernanda Cabal [senadora], repetidas por vários políticos nas últimas 24 horas”. A decisão de Nicholas Casey não é uma novidade num país que encabeçou durante vários anos a lista de países com mais jornalistas assassinados.

Também os relatores especiais da ONU sobre execuções extrajudiciais condenaram o homicídio do ex-guerrilheiro Dimar Torres Arévalo, desmobilizado das FARC, e consideram que representa “um desafio para o processo de paz, já que não cumpre com o acordo final que exige o respeito pela vida de todos os ex-combatentes que decidiram depor as armas”. As declarações dos representantes da ONU são bastante duras e exigem ao governo de Iván Duque que “deixe de incitar à violência contra os desmobilizados das FARC”. Em comunicado acrescentaram que “o aparente desprezo destas garantias a nível estatal é prejudicial para a paz, o desenvolvimento e a estabilidade”.

A verdade é que os homicídios contra ex-guerrilheiros das FARC que decidiram entregar as armas não páram. Desde a assinatura do acordo de paz, em 2016, já foram assassinados 128 ex-membros dessa guerrilha e 600 ativistas de esquerda.


Matar civis em troca de prémios

“Guerrilheiros mataremos, o seu sangue beberemos, as suas mulheres violaremos e os seus filhos queimaremos”, assim obrigavam Omar Rojas Bolaños e outros recrutas a cantar quando corriam na escola militar. Durante 31 anos, trabalhou na Polícia Nacional, um corpo policial militar e retirou-se com o grau de tenente coronel. Hoje é sociólogo e dedica-se ao ensino universitário, à investigação e escreveu vários livros sobre os falsos positivos. Ao Contacto, explica que nunca deixaram de existir. “Uma pessoa que não saiu de um sítio não pode regressar a ele”. De acordo com Omar Rojas, as execuções extrajudiciais “fazem parte da doutrina militar das forças armadas colombianas que consideram que qualquer pessoa pode ser considerada um inimigo e que há que liquidá-la”. Critica duramente a formação que se dá nas escolas militares na Colômbia já que “se afasta dos direitos humanos” e aponta-se como inimigos não só “quem se levanta em armas” mas também “os comunistas, socialistas, líderes sociais, ambientalistas, sindicalistas, estudantes e outros”. Para o tenente coronel da Polícia Nacional já retirado, “aos soldados é fácil obedecer a essas ordens ilógicas dos seus comandantes porque de manhã, de tarde e de noite estão a recordar-lhe quem é o inimigo”.

Na Colômbia, a história das execuções extrajudiciais é longa. De acordo com números divulgados pelo El País, 8 mil colombianos terão sido assassinados, sobretudo, durante o governo de Álvaro Uribe. O jornal espanhol afirma que os dados são “especialmente incríveis” se comparados com o número de assassinatos e desaparecidos durante a ditadura de Pinochet. No Chile, num período de 17 anos, foram executadas 3200 pessoas.

Omar Rojas afirma que em 2015 o Ministério Público colombiano investigava cerca de 4700 casos. Nessa mesma época a Cooperação Colômbia-Europa-Estados Unidos tinha registados 5700. Outras Organizações Não Governamentais projetaram cerca de de 6200. “A nossa investigação chegou ao número de 10 mil mortos em falsos positivos através de uma investigação que envolveu conversar com cerca de cem militares no ativo e na reserva, muitos deles comprometidos com casos de falsos positivos”, conatabiliza Rojas.

O escândalo dos falsos positivos rebentou quando vários familiares denunciaram que militares tinham assassinado civis para apresentá-los como guerrilheiros caídos em combate. Descobriu-se então que as forças armadas premiavam os soldados que mais baixas conseguissem em combate, o que espoletou os falsos positivos.

Vários relatos da época na imprensa denunciaram que muitos deles eram jovens de bairros pobres aliciados para supostas entrevistas de emprego das quais não voltavam. Os corpos apareciam noutras zonas da Colômbia como sendo guerrilheiros abatidos.


Êxodo forçado na Colômbia

Outro dado impressionante é o número de deslocados por causa da guerra. Apesar do acordo de paz, a Colômbia continua a ser o país do mundo com mais deslocados internos. Em 2017, eram 7,7 milhões de pessoas, de acordo com um relatório da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR). Mesmo com a violenta guerra na Síria que provocou uma crise de refugiados internos e externos, a Colômbia encabeçou sempre esta lista. Em 2018, aos 7,7 milhões de pessoas somaram-se mais 30500 deslocados.

Apesar de a ACNUR reconhecer avanços com o processo de paz, considera que coexistem “desafios e ausência de proteção” devido a “um cenário confuso de reconfiguração e reposicionamento de grupos armados ilegais, como consequência da disputa pelo controlo territorial de zonas abandonadas pelas FARC”.


Bruno Amaral de Carvalho

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