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Catalunha. A guerra no paraíso
Editorial Mundo 7 min. 02.10.2018 Do nosso arquivo online

Catalunha. A guerra no paraíso

Catalunha. A guerra no paraíso

Foto: AFP
Editorial Mundo 7 min. 02.10.2018 Do nosso arquivo online

Catalunha. A guerra no paraíso

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Um ano e um dia depois do 1 de outubro, em que milhões de catalães votaram sob cargas policiais que deixaram quase um milhar de feridos, a violência voltou às ruas. Os polícias foram pintados de todas as cores e os manifestantes tentaram tomar o parlamento. Aqui fica uma crónica datada de uma guerra que não acabou.

O estabelecimento chama-se “O Paraíso”, está na Gran Via de Les Corts Catalanes, o dono chama-se Luis Suárez. Tem 57 anos e vive em Barcelona há 26. Os seus avós morreram na guerra civil. Viveu com os seus pais em Paris onde trabalhou. Diz com orgulho que estudou dois anos de Direito na mítica Sorbonne. Aí quando era pequeno conheceu um refugiado espanhol, que tinha combatido na Guerra Civil de Espanha. Paco, de seu nome, garantiu-lhe que Espanha e a República pela qual combateu tinha só dois cancros: “os bascos e os catalães”.

Fala também catalão, mas diz que não quer ser órfão: “tenho país, sou espanhol”. Viu o referendo como uma “fantochada”. Tem posições apaixonadas e firmes sobre tudo. De tal forma, que diz com um carinho misturado de dureza, “estive dois anos sem falar com o meu filho único, de 26 anos, porque ele é independentista”.

Quando lhe pergunto se lhe agradou a atuação da polícia espanhola no dia 1 de outubro, responde-me com a mesma convicção que põe em tudo: “foi terrível, uma vergonha. Não se bate em mulheres, velhos e crianças. Só serviu para dar mais força aos independentistas”.

Vota Ciudadanos, já votou PP, mas cansou-se da corrupção. “Nisso, eu e o meu filho estamos de acordo, não gostamos de corruptos. Mas a minha diferença é que eu acho que aqui na Catalunha também houve muita gente que se encheu, como o senhor Pujol [antigo presidente do governo da Catalunha e fundador da Convergência i Union] e a sua família. O exemplo vem de cima, o rei Juan Carlos e os Bourbons são outros que tais. Mas eu orgulho-me em ser espanhol. E é isso que quero ser”.

O seu discurso apaixonado, nem sempre é ausente de contradições, ao mesmo tempo que garante não gostar nada do que a Policia Nacional e a Guarda Civil espancassem, em 1 de outubro, gente desarmada, afiança-me que “tudo se resolvia com dois meses de Guarda Civil aqui para pôr toda a gente na ordem”. E o que se deve fazer agora, pergunto? “É fácil, basta dissolverem a autonomia. Agora o que não se pode fazer é permitir a continuação da ilegalidade”.

Como é possível Luis ter um filho Fermín que é independentista? Fala com muito orgulho do filho, que se formou numa das universidades mais difíceis de Barcelona e que é jornalista, mas com o qual se desentende na política, e tem para a divergência uma explicação curial: “é a influência da mãe, ela é professora e sempre foi independentista. Aliás, discutíamos muito, tanto que nos separamos”. Mas se discutiam tanto, como é que fizeram família? “Estava muito apaixonado por ela, é uma mulher linda e inteligente”, sorri o homem, para quem Franco era um ditador, mas desenvolveu muito a Catalunha.

Horas depois, encontro-me com Fermín Suárez. Jornalista de profissão, explica o seu “independentismo”: “Eu não sou independentista desde sempre, tornei-me. Há independentistas históricos e emocionais e eu sou pragmático. Isto assim não pode continuar. Nada de bom vem de um governo corrupto e inepto como o do PP”. Fermín nega que tenha sido influência da mãe, “nenhum dos meus pais é independentista, o que acontece é que o meu pai é de direita e a minha mãe de esquerda, mas sempre votou no PSC (o ramo catalão do PSOE)”.

Para ele, foi um percurso comum na sua geração: “do meu grupo de amigos da faculdade, somos 15, apenas um vota em partidos não independentistas, vota nos socialistas”. Para ele, o seu pragmatismo, que o leva a votar na CUP e na ERC, é feito de não querer ver mais os banqueiros serem resgatados com os dinheiros públicos, como foram em Espanha, nem a corrupção sistémica dos governos espanhóis. Quando lhe contesto que há partidos em Espanha, como o Podemos que denunciam isso, e que há também políticos catalães que foram corruptos, diz-me: “O Podemos não irá a lado nenhum. No máximo da força que teve, e já está a decair, não conseguiu fazer nada. E aqui, ao contrário de em Madrid, essa corrupção tem consequências: a Convergencia i Unión acabou, e nunca mais ganhará eleições”.

Aquilo que o fez mudar foi ver, nos últimos cinco anos, milhões de pessoas nas ruas a defender a independência. “Ao contrário do que querem fazer querer, nós não somos manipuláveis. Ter tanta gente na rua significa que há uma ideia comum de fazer um país melhor. Isso não significa que depois de termos a nossa República não haverá divergência ideológicas, mas elas vão expressar-se num marco em que decidimos nós, e não sustentando uma família real e banqueiros com milhões”.

Luis Suárez certamente não fará greve geral e o seu filho Fermín fará. A paralisação convocada pelas confederações sindicais anarquistas, e os setores independentistas englobam também as confederações profissionais, os movimentos sociais e as Comissiones Obreras e a UGT, que contra as suas direções de Madrid também querem expressar o seu repúdio a repressão que se viveu, e o direito dos catalães a decidir.

Sim com mais de dois milhões Segundo os dados oficiais fornecidos pelo governo da Catalunha, participaram no referendo 5.343.358 catalães, com o bilhete de identidade registado para poderem votar, o que equivale a 56,75% da população. Só foram considerados válidos 2.262.424 votantes. Destes, 2.020.144 votaram no sim e 176.566 no não. Brancos e nulos atingiram 65.715 votos. A diferença, entre os votos válidos e os votantes deve-se a que a Guarda Civil e Polícia Nacional apreenderam 770 000 votos, nas secções de voto que destruíram.

Segunda-feira foi dominada por dezenas de manifestações pró-independência, numa situação política em que se fala de três cenários base: o governo catalão informa, provavelmente na quarta-feira, o parlamento da Catalunha dos resultados e os deputados independentistas proclamam a independência, como era o compromisso assumido pela Generalitat com o movimento que promoveram o referendo, e aquilo que relembrou a CUP no último comício de campanha. Este cenário será provavelmente acompanhado, ou até antecipado, pela dissolução da autonomia por decisão do senado espanhol, onde o PP é maioritário, invocando o artigo 155 da Constituição, como defende o líder dos Ciudadanos, Albert Rivera. Esta decisão pode ser acompanhada pela prisão, pelo crime de sedição, do presidente do governo autonómico Carles Puigdemont. Essas medidas aumentarão a tensão na Catalunha e a desobediência civil e mobilizações, e poderão não ser acompanhadas pelo parlamento espanhol, que poderá demitir Rajoy, com os votos de Unidos Podemos, PSOE, e partidos independentistas, solução que o líder socialista, Pedro Sánchez, não rejeitou, mas que os setores do Podemos e a presidente da câmara de Barcelona, Ada Colau, que recuou no seu independentismo, pede que seja acompanhada pela formação de um novo governo que negoceie com os catalães.

O “El País” afirma que o parlamento espanhol se pronunciará sobre a Catalunha até 10 de outubro. Entretanto, enquanto escrevo, o panelaço, das 22 horas, na cidade continua, com os catalães a baterem tachos nas janelas pela independência, um problema sonoro que deixou de incomodar os 200 guardas civis que estavam alojados no Hotel Vila de Calella (Maresme). Depois de terem reprimido a população local, durante o referendo de 1 de outubro, foram expulsos pela gerência da unidade hoteleira e viram as suas malas serem colocadas à porta.

Assim acabava a minha peça há um ano. Este ano as manifestações pró-independência deram cor aos polícias de choque, multiplicaram-se os confrontos e acabaram com uma tentativa de invasão do parlamento catalão. Os independentistas catalães continuam presos e a população da região continua proibida de votar para decidir o seu futuro. Pode-se tirar o corpo de Franco do Vale dos Caídos, mas é difícil enterrar o franquismo.

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 / AFP PHOTO / PAU BARRENA