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"Carne mais barata do mercado". Outro homem negro espancado no Brasil, desta vez "até à morte"
Mundo 2 7 min. 20.11.2020

"Carne mais barata do mercado". Outro homem negro espancado no Brasil, desta vez "até à morte"

"Carne mais barata do mercado". Outro homem negro espancado no Brasil, desta vez "até à morte"

Reprodução Twitter
Mundo 2 7 min. 20.11.2020

"Carne mais barata do mercado". Outro homem negro espancado no Brasil, desta vez "até à morte"

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
A Polícia Civil está a tratar o caso como um homicídio qualificado e já prendeu o segurança e polícia militar responsáveis pela morte "filmada" e "divulgada" de homem de 40 anos que foi às compras com a mulher. Esta sexta-feira há protesto. O Carrefour fechou, diz, em respeito com a vítima e a família.

Aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra, que se assinala esta sexta-feira, 2o de novembro, no Brasil. João Adalberto Silveira de Freitas ter-se-à desentendido com uma funcionária do Carrefour de Porto Alegre. "Beto", como era conhecido no bairro, "clamava por socorro e pedia para respirar pois estavam trancando a respiração dele com os joelhos nas costas, bem na parte dos pulmões", denunciam as redes sociais. 

Arrastado até à porta do supermercado onde fazia compras com a mulher, foi espancado pelos seguranças, entre eles um polícia militar. Aos 40 anos, "morreu no local", consta do boletim da ocorrência. 

Assombrada pelas recorrentes denúncias de racismo e violência, a cadeia de supermercados já veio condenar as imagens que desde a noite de quinta-feira começaram a circular nas redes sociais. Os dois suspeitos, um de 24 e outro de 30 anos, foram detidos "em flagrante". A investigação trata o crime como homicídio qualificado. 

Para já, na ressaca da madrugada, os protestos ainda não chegaram às ruas, embora as redes sociais tenham explodido em indignação, no mais recente capítulo do #vidasnegrasimportam. 

Tem menos de um ano, a readaptação do êxito A Carne de Elza Soares. O hino contra a impunidade vai de Tupac a Marielle Franco. Diz que "a carne mais barata do mercado - "a negra", como estabelece a cantora em 2002 - já não está mais de graça". 

Tem mais de 500 anos, a semente do racismo no Brasil.  

"Me ajuda"

"Quando eu cheguei lá em baixo ele já estava imobilizado. Eu tentei me aproximar, mas os seguranças me empurraram. Ele disse para mim: 'Me ajuda, Milena'", contou a mulher do negro à Rádio Gaúcha. 

Embora a Brigada Militar, como é chamada a Polícia Militar no Estado do Rio Grande do Sul, tenha avançado que o episódio começou depois da "vítima ter ameaçado bater na funcionária, que chamou a segurança", como escreve a Globo, Milena Borges Alves desmente. A versão também diverge da das testemunhas,  segundo as quais João Alberto foi seguido e agredido na saída, escreve o diário Metrópole. 

Na primeira aparição pública, a mulher de 40 anos conta que pagou as compras e viu o marido afastar-se em direção ao estacionamento. 

Durante o percurso, acompanhado por uma funcionária do Carrefour, "Beto" teria tentado agredir o polícia militar, segundo afirmou a trabalhadora, em depoimento à polícia. "A partir disso começou o tumulto, e os dois agrediram ele na tentativa de contê-lo. Eles (o PM e o segurança) chegaram a subir em cima do corpo dele, colocaram perna no pescoço ou no tórax", confirmou depois o "delegado" da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, Leandro Bodoia.

Homicídio qualificado 

Detidos em flagrante, o segurança e o polícia militar que não estava ao serviço das autoridades do estado ficaram em prisão preventiva e deverão responder pelo crime de homicídio qualificado, já que a violência da agressão que conduziu à morte do "cidadão comum", e deixou, inclusivamente, marcas de sangue no chão, só foi possível porque um dos elementos segurava "Beto", enquanto o outro lhe desferia variados golpes.

Numa publicação nas redes sociais, em resposta à onda de indignação, a cadeia de supermercado que ainda este verão decidiu manter "a loja aberta" com um trabalhador que morreu de ataque de coração "no interior", demarcou-se da violência que acabou por aumentar a estatística de mortes "além covid", no Brasil.  

Num longo texto de repúdio, o supermercado anunciou que pretende romper o contrato com a empresa de segurança que, em última análise, acaba por responsabilizar pelo sucedido. Em sinal de luto, a gigante da distribuição decidiu, desta vez, fechar a loja para mostrar solidariedade à família. 

http://www.wort.lu/pt/mundo/brasil-carrefour-mantem-a-loja-aberta-com-um-trabalhador-morto-no-interior-5f3d354dda2cc1784e363fad

"O Carrefour lamenta profundamente o caso. Ao tomar conhecimento deste inexplicável episódio, iniciamos uma rigorosa apuração interna e, imediatamente, tomamos as providências cabíveis para que os responsáveis sejam punidos legalmente", começa. "Para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que aconteceu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais". 

Talho 

Na mira dos internautas, a cadeia de supermercados tem sido palco de casos de agressão a negros, com relatos de racismo em todo o país. Ainda nos primeiros dias do mês, um homem apresentou queixa nas autoridades depois de ter sido "tapeado" por um segurança que o acusou de tentar roubar carne. 

O jardineiro de 31 anos diz-se vítima de racismo e aguarda decisão judicial já que o caso foi registado como "calúnia". Pouco antes, em junho, noutro supermercado, outra jovem garante ter sido "seguida" pelo segurança e "enforcada" pelo gerente do Coopbanc em Araçatuba, no Estado de São Paulo.  

Produtora cultural, a jovem denunciou o caso nas redes sociais. "Ele me enforcou. Teve que intervir outras pessoas. Ele poderia ter me matado naquele momento. E ainda só virei o carrinho, porque chamei o gerente, mas ele disse que era para eu fazer compra em outro mercado", recorda em lágrimas. 

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Há pouco mais de um ano, em setembro de 2019, outro jovem negro foi amarrado, amordaçado e chicoteado com fios elétricos, numa tortura que durou 40 minutos, que chocou até as autoridades de São Paulo. 

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

A aguardar sentença do "crime hediondo" que pode ser punido com 2 a 8 anos de prisão, os seguranças nunca se retrataram. Justificaram o "emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental" com o roubo de um chocolate. 

Negro Drama 

Apesar de ter começado na abolição da escravatura, algures em 1888 com a "Lei Áurea", a luta pelos direitos e pela sobrevivência do "povo negro" no Brasil tem ganho cada vez mais visibilidade desde que episódios como o que marcou a noite passada começaram a ser denunciados a uma escala planetária. 

Dados divulgados em agosto deste ano pelo Atlas da Violência 2020 indicam que os assassinatos de negros aumentaram 11,5% em dez anos, enquanto os de não negros caíram 12,9% no mesmo período. Entre a população negra, a taxa de homicídios no Brasil saltou de 34 para 37,8 por 100 mil habitantes entre 2008 e 2018. 

Em 2018, os negros representaram 75,7% das vítimas de todos os homicídios, numa lógica que expõe os versos dos "dinossauros do hip hop brasileiro", Racionais Mc's. Em 1997, praticamente 2o anos antes, naquele que é considerado o seu disco de ouro, já expunham que "a cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras; Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros; A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo". 

"Vidas negras importam"

"Alto astral", João Adalberto Silveira de Freitas alinhava na claque do São José, de Porto Alegre. 

Para já, a primeira organização a convocar um ato de protesto no Carrefour Passo D'areia. "Não vai ficar assim, queremos justiça, fizeram covardia com 1 irmão, agora segurem o Bonde Da ZONA NORTE!". 


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