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Cada país tem os governantes que merece
Opinião Mundo 2 min. 26.01.2021

Cada país tem os governantes que merece

Milhares de brasileiros saíram às ruas em 20 cidades (na foto, em Brasília) em protesto contra a gestão da pandemia pelo Governo liderado por Bolsonaro.

Cada país tem os governantes que merece

Milhares de brasileiros saíram às ruas em 20 cidades (na foto, em Brasília) em protesto contra a gestão da pandemia pelo Governo liderado por Bolsonaro.
Foto: AFP
Opinião Mundo 2 min. 26.01.2021

Cada país tem os governantes que merece

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Acabou o oxigénio nos hospitais de Manaus, capital do Amazonas. Cenas apocalípticas todos os dias. O farsante ministro da Saúde oferecendo, como "pré-tratamento", o falso remédio cloroquina. Centenas de mortos, asfixiados, perante o desespero de familiares e profissionais de saúde.

Protestos este sábado nas 20 maiores cidades brasileiras. Antes limitados a gritar das suas varandas e bater em tachos e panelas, os manifestantes desta vez meteram-se nos carros e foram em caravana pelas ruas. Gritavam pela destituição do presidente Bolsonaro, responsável pela criminosa gestão da pandemia: 218 mil mortos, em segundo lugar mundial no macabro ranking (apenas atrás dos EUA). No mesmo dia, surgiram notícias de que Bolsonaro pode vir a ser julgado por crimes contra a Humanidade – a destruição da Amazónia e matança dos seus habitantes indígenas – no Tribunal Internacional da Haia.

Abrindo tardiamente os olhos para a total incompetência, a malvadez, a proto-ditadura, ou a crise económica que já criou 15 milhões de desempregados (com tendência para subir), muitos dos que exigem hoje o despedimento imediato do presidente são seus ex-apoiantes. Há pouco mais de dois anos, com plena consciência de quem era Bolsonaro, 58 milhões votaram num neofascista. Em Manaus a percentagem que obteve foi de 65% dos votos; em Rio Branco, outra capital estadual da floresta, chegou aos 83%. É um pouco difícil sentir pena por quem só está a colher as ervas daninhas que semeou.


Brasil. 60 euros por quatro horas de oxigénio em Manaus
Já morreu meia centena de pessoas sem oxigénio porque as reservas dos hospitais não chegam para todos.

Dizem que o Brasil é uma espécie de Portugal à solta, o que significa que tudo ali é amplificado: as coisas boas são muito boas, as más são radicalmente más. Em vez de eleger uma sátira neofascista, os portugueses são um pouco menos tontos – apenas insistem em votar em políticos que mantêm o status quo da corrupção e do marasmo.

Já tinha acontecido nas últimas legislativas, onde nem a avalanche de casos de desvio de fundos públicos, evasão fiscal, subornos, tráfico de influências e lavagem de dinheiro (a lista é longa: Face Oculta, operação Marquês, operação Montebranco, operação Lex, saco azul do BES, caso BPN, Vistos Gold, Orlando Figueira, operação Fizz, e-toupeira, etc.) impediu os contribuintes de reeleger de forma confortável o antigo número 2 de José Sócrates como primeiro-ministro. 

No domingo, no pico de uma pandemia gerida de forma totalmente irresponsável, com uma crise económica brutal ao virar da esquina, os portugueses reelegeram (com mais de 60% dos votos) o outro máximo representante deste lamentável pântano em que o país se encontra (enquanto outros 12% desperdiçaram o seu voto num imitador de Bolsonaro que ajuda criminosos ricos a esconderem o dinheiro em off-shores).

Marcelo e Costa estão bem um para o outro. Entenderam-se para substituir a incómoda procuradora-geral, e assim terminar de paralisar a justiça. Aficionados dos jogos políticos, entenderam-se para que cada um assegurasse a reeleição do outro, mesmo contra os seus próprios parceiros de partido. O filão do turismo secou, e nem assim se conhece de um deles alguma ideia estratégica, um rumo para o país.

Agora vem aí uma bonança de dinheiros europeus, concedidos a Portugal pela Europa na ingénua convicção de vão servir para a recuperação e a reinvenção da economia. Na verdade serão distribuídos pela meia-dúzia de amigos lisboetas do costume... e mesmo assim, a cada oportunidade, os portugueses dizem nas urnas: "mais do mesmo, por favor".

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