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Brexit. A negociar até à última milha
Mundo 4 min. 16.12.2020 Do nosso arquivo online

Brexit. A negociar até à última milha

Brexit. A negociar até à última milha

Mundo 4 min. 16.12.2020 Do nosso arquivo online

Brexit. A negociar até à última milha

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Após nove meses de negociações e os últimos encontros entre Ursula von der Leyen e Boris Johnson, o pós-Brexit será adiado até ao fim. A 1 de janeiro a separação é total, com ou sem caos.

As negociações sobre as futuras relações comerciais entre a União Europeia e o Reino Unido têm sido em dezembro como o calendário do advento: a cada dia que passa uma nova surpresa, sem que nada mude e, provavelmente, até ao último dia.

No passado domingo, quando Ursula von der Leyen avisara que a paciência dos negociadores europeus se esgotava nesse dia 13, os dois lados do Canal da Mancha decidiram, apesar de tudo, continuar a negociar enquanto fosse possível. Num comunicado conjunto, os dois líderes escreveram: "Tivemos uma conversa ao telefone muito útil, esta manhã. Discutimos os principais tópicos onde não há acordo. As nossas equipas de negociadores têm trabalhado dia e noite. E apesar do desgaste após quase um ano de negociações, apesar do facto de os prazos terem sido falhados sem cessar, achamos que a nossa responsabilidade neste momento é ir até onde for possível. Por isso concordámos em mandatar os nossos negociadores para continuar as conversações e ver se nesta fase avançada um acordo ainda pode ser alcançado". 

No original, em inglês, a presidente da Comissão Europeia e Boris Johnson, escreveram que os negociadores iriam dar tudo por tudo com a expressão 'go an extra mile'. Michel Barnier, pelo lado europeu, e David Frost, do lado do Reino Unido terão mais alguns dias para tentar chegar a bom porto.

Planos de contingência

Após o acordo do Brexit, que entrou em vigor a 31 de janeiro de 2020, e que permitiu ao Reino Unido deixar a União Europeia, os dois blocos passaram os últimos nove meses a negociar as futuras relações comerciais, quando acabar, a 31 de dezembro de 2020, o período de transição e o RU deixar também o mercado único e a união aduaneira.

Durante grande parte do período das negociações, e sobretudo depois do verão, a hipótese de um 'no deal', uma saída sem acordo, tem ganho cada vez mais consistência. Os diplomatas e negociadores da União Europeia veem essa hipótese como catastrófica sobretudo para o lado de lá. Mas o primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, tem dito que não vai abdicar "da soberania nacional" por causa de um mau acordo.

Este domingo, Boris Johnson admitiu que o fracasso em chegar a acordo será o mais provável, apesar da decisão de continuar as negociações entre as duas equipas. Internamente, o primeiro-ministro quer dar ideia de que não cedeu às pressões europeias enquanto que dá aos eurocratas a imagem de boa vontade. Mas entre a linha dura do Partido Conservador a saída sem acordo, tem diversos apoiantes.

Foto: AFP

Num comunicado à BBC, o atual ocupante de Downing Street salientou que o Reino Unido terá que se preparar para adotar os termos da Organização Mundial do Comércio nas relações com a União Europeia. A hipótese de um não acordo cresce, uma vez que apesar da decisão de continuar, um eventual acordo depois de assinado entre os dois lados teria que ser ratificado pelo Parlamento Europeu, antes de entrar em vigor, a 1 de janeiro de 2021.


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Sem acordo, o que os europeus dão como garantido nas trocas com o Reino Unido acaba. Haverá aplicação de taxas aduaneiras e quotas de importação, para além de mais controlos alfandegários e regulatórios. Enquanto decorrem as negociações em fase desesperada, com Michel Barnier, do lado da EU, e David Frost, por parte do Reino Unido, as duas partes estão a preparar-se para o cenário de ausência de acordo, com o desenho de planos de contingência.

A Comissão Europeia publicou na passada quinta-feira planos de contingência para que não sejam interrompidas a circulação rodoviária entre os dois lados do Canal, o tráfego aéreo e as atividades de pesca. O Reino Unido já tem preparados quatro navios da marinha para proteger o acesso às águas britânica por parte de frotas de pesca de países da União Europeia.

Peixe ao jantar

Na quarta-feira anterior, no dia 2, Boris Johnson tinha sido recebido por von der Leyen para um jantar na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas, durante o qual foi servido uma entrada de peixe. Algo que não terá passado despercebido ao líder inglês, mas que não teve efeitos nas negociações. A questão da soberania sobre as águas territoriais britânicas é um dos pontos mais importantes.

O Reino Unido quer voltar a controlar as suas águas territoriais não permitindo o acesso indiscriminado à sua zona económica exclusiva e quer negociar quotas de acesso numa base anual.

Outra dos dossiês que têm vindo a atrasar as negociações são as questões de concorrência. Bruxelas não quer que as empresas da UE sejam prejudicadas nos negócios com o Reino Unido por se regerem por padrões ambientais, regulamentações de segurança alimentar e sociais que são mais exigentes do que do outro lado da fronteira. Sobretudo quando a União Europeia está a criar regras ambientais e sociais mais estritas, não quer que as empresas da União Europeia entrem em desvantagem com o mercado britânico.

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