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Brasil, um país dividido
Mundo 2 17 min. 11.11.2022
Presidenciais

Brasil, um país dividido

Lula da Silva celebra a vitória ao lado da mulher 'Janja'. A tomada de posse como novo presidente do Brasil está programada para o primeiro dia do novo ano.
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Brasil, um país dividido

Lula da Silva celebra a vitória ao lado da mulher 'Janja'. A tomada de posse como novo presidente do Brasil está programada para o primeiro dia do novo ano.
Foto: Carl de Souza/ AFP
Mundo 2 17 min. 11.11.2022
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Brasil, um país dividido

Plínio FRAGA
Plínio FRAGA
Com a vitória de Lula sobre Bolsonaro, o Brasil sai aliviado das urnas, mas a tensão política permanece nas ruas.

(No Rio de Janeiro)

O povo Munduruku vive no coração da Amazônia. A Terra Indígena Sawré Muybu fica no norte do Brasil, protegida pela mata amazônica e pelas águas do rio Tapajós. O centro urbano mais próximo está a 80 quilômetros de distância, quase três horas de viagem pelo acesso mais rápido. É preciso subir o rio Tapajós de barco e depois pegar a rodovia Transamazônica para chegar até Itaituba, cidade de cerca de 100 mil habitantes, no sudoeste do Pará.

A 30 de outubro, cerca de 200 indígenas do povo Munduruku acordaram ainda de madrugada e embarcaram em dezenas de canoas para remar até o acesso à rodovia. Lá, disputaram assentos em três ônibus que os esperavam. Um ônibus havia sido cedido pela prefeitura de Itaituba. Outros dois ônibus foram alugados pelos próprios índios, depois de campanha iniciada na internet por Alessandra Korap Munduruku, coordenadora da Associação indígena Pariri.

Ela conseguiu levantar 8 mil reais em doações para que os indígenas pudessem votar. Todos eles votaram no candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente da República naquele domingo ao bater Jair Bolsonaro, candidato à reeleição pelo Partido Liberal. A diferença entre os dois candidatos foi de 2,1 milhões de votos, apertada num universo de 156 milhões de votantes (50,9% a 49,1% para o petista). Assim duas centenas de votos foram muito importantes.

"Aluguei dois ônibus fiado (sem pagar antecipadamente) pra gente conseguir votar. A gente não podia perder um voto sequer nem um votinho. O nosso maior sonho sempre foi tirar Bolsonaro do poder por conta de tudo o que ele fez contra nós, contra os povos indígenas, contra todos os povos da Amazônia e contra a natureza. Então eu tive que dar meu jeito", disse Alessandra.

O pedido de Alessandra nas redes sociais para obter dinheiro para pagar os dois ônibus correu o mundo. Depois que Lula foi eleito, Alessandra gravou um vídeo agradecendo às contribuições que recebeu. "Muita gente começou a ajudar. Davam dez centavos, dez reais, cinquenta reais, cem reais… Somando cada centavo que foram doando, a gente conseguiu pagar o transporte."

Uma das principais bandeiras da campanha eleitoral do agora presidente eleito brasileiro foi conter o desmatamento da Amazônia e acabar com as violações de direitos aos povos e territórios indígenas no país.

No discurso da vitória na noite de domingo em São Paulo, a 3.000 quilômetros das aldeias dos Munduruku, Lula anunciou que os indígenas brasileiros terão pela primeira vez um representante seu no alto escalão de governo. O presidente eleito disse que criará o Ministério dos Povos Originários, cuja titular mais cotada é a líder indígena Sonia Guajajara, nascida no Maranhão, na terra indígena de Arariboia, do povo Guajajara.

"Essa vitória foi pelos povos que estão no sofrimento, chorando porque perdeu seu filho para uma draga [maquinário utilizado por garimpeiros para sugar o fundo dos rios em busca de ouro], por causa das drogas invadindo os territórios, pela prostituição estimulada pelo garimpo", afirmou Alessandra.

A vitória de Lula em campo nacional, não se repetiu em Itaituba, a cidade mais próxima dos Munduruku. Ali, Bolsonaro conquistou a maioria dos votos, 36 mil votos (62%), contra 22 mil (38%) de Lula.

A sobreposição do mapa de apuração da disputa para a Presidência com as manchas de desmatamento na Amazônia mostra que Bolsonaro conseguiu mais votos onde a destruição da floresta é mais flagrante. Na Amazônia Legal, o candidato à reeleição venceu, por exemplo, em 265 municípios que, juntos, concentram 70% das áreas desflorestadas nas últimas três décadas, segundo revela um cruzamento da MapBiomas, rede formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia.

Para o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, há conexão direta entre o resultado da votação e o discurso e a prática do governo Bolsonaro de redução da fiscalização e da punição ao desmatamento ilegal. "Quando o governo federal reduz ou cancela multas, dá o sinal da impunidade. E, para essa região onde está reinando a ilegalidade, a impunidade é vista como um benefício", disse Azevedo.

No mês da eleição presidencial, o desmatamento na Amazônia voltou a subir, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Foram derrubados 813,2 km² de floresta, a terceira maior marca desde 2015. Significa que foram derrubadas árvores no tamanho equivalente a quatro estádios do Maracanã em apenas um mês.

Os temas ambientais foram os mais mencionados nas mensagens dirigidas ao presidente eleito por autoridades do mundo todo. Ressaltaram a importância do compromisso do governo brasileiro com a questão ambiental lideranças como, por exemplo, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia; Joe Biden, presidente dos Estados Unidos; o chefe de estado espanhol, Pedro Sánchez; e Olaf Scholz, o chanceler alemão.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, colocou o resgate da Floresta Amazônica e de suas pesquisas científicas como ponto número um da agenda mundial com o Brasil. Depois do Brasil, a Colômbia tem a segunda maior área da Floresta Amazônica, que se expande ainda por sete outros países: Bolívia, Venezuela, Peru, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa.

Na primeira semana depois de eleito, Lula tratou de marcar diferenças em relação ao governo Bolsonaro, principalmente na questão ambiental. A mais simbólica delas foi aceitar participar da COP27, conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas, que será realizada em novembro, no Egito.


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No mercado internacional, a vitória de Lula levou à movimentação de investidores para destravar aplicações no país depois de anos distantes por conta do descontrole do desmatamento e da destruição ambiental. A Nordea Asset Management, uma das maiores gestoras de patrimônio do mundo, por exemplo, retirou os títulos de renda fixa do Brasil de sua lista interna de restrições depois que o presidente eleito se comprometeu a combater o desmate e proteger a Amazônia.

Os governos da Alemanha e da Noruega anunciaram a retomada de doações para o Fundo Amazônia, que captava milhões de dólares em recursos para promover projetos para a prevenção e o combate ao desmatamento e para a conservação e o uso sustentável das florestas. As doações estavam suspensas como forma de pressionar o governo brasileiro a conter as ações de desmatamento na região.

Em muitos pontos, pode parecer que a conclusão da jornada eleitoral no Brasil com a vitória de um candidato visto como progressista alterou de imediato uma sensação regressiva dos aspectos civilizatórios mais básicos, como a defesa do ambiente, da cidadania e da democracia. Mas as coisas não estão caminhando tão bem assim, como parecem.

Anular as eleições

Na quarta-feira (2 de novembro), Dia de Finados, o Rio de Janeiro amanheceu sob chuva constante, com céu cinza, um clima pesado, contrastante com a rotina da cidade escaldante, com paisagem azul, de mar e de sol. A chuva e o vento forte não impediram que milhares de cariocas se dirigissem para a praça em frente à sede do Comando Militar do Leste (CML), responsável pelas forças do Exército nos Estados do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Espírito Santo. Grande parte dos 300 mil militares brasileiros está sob o controle do CML.

Manifestações semelhantes se repetiram em frente a quartéis-generais de tropas militares em outras capitais como Belo Horizonte, Cuiabá, Campo Grande e Brasília. Em São Paulo, um centro de estudos calculou em 30 mil pessoas o número de protestantes, a partir do uso de telefones celulares na região em frente ao Comando Militar do Sudeste, que comanda as forças militares terrestres no Estado.

Essas manifestações em torno de instalações militares defendiam que o Exército liderasse uma intervenção que anulasse a eleição da qual Lula saiu vitorioso. "Eu autorizo (o golpe)", era um dos gritos mais frequentes. Muitos utilizavam camisas amarelas da seleção brasileira de futebol, o que se tornou marca dos apoiadores de Bolsonaro.

A mobilização para os atos golpistas ocorreu quase exclusivamente por meio de correntes de WhatsApp e Telegram. Em suas mensagens, os bolsonaristas reclamavam de que "o sistema" havia reagido e fraudado as eleições para derrotar Bolsonaro.

Essas correntes bolsonaristas chamam de "o sistema" uma suposta aliança entre o Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal, a grande mídia, os partidos de esquerda, os interesses estrangeiros de olho nas riquezas nacionais. Todos unidos contra Bolsonaro, visto como um defensor das liberdades econômicas e de expressão, incluindo manifestações racistas, homofóbicas e misóginas.

"Em comum, essas pessoas foram completamente capturadas pelo sistema de comunicação fechado do bolsonarismo. Eles se articulam por meio de aplicativos de mensagens. Não pode ler jornal, nem ver TV. Essa rede não só se vende como suficiente para o público ficar bem-informado, como demoniza qualquer informação que venha de fora _ imprensa, influencers não alinhados. Tudo. Vemos nos grupos que qualquer pensamento independente é reprimido, muitas vezes até com expulsão", descreveu o jornalista Igor Mello, que se infiltrou em grupos bolsonaristas.

"É um comportamento típico de seita: os participantes fazem um pacto de silêncio e são compelidos a se fechar para o mundo. Ao mesmo tempo, é claramente um movimento articulado e com comando central. Não fosse assim, as mensagens não seriam tão coerentes entre si", analisou ele. Grande parte desse movimento era estimulada por notícias falsas que circulavam nos grupos de aplicativos de mensagens.

Um dos muitos vídeos nas redes sociais mostram o momento em que centenas de pessoas gritam eufóricas porque a tal "intervenção federal" teria sido decretada. São centenas de pessoas vestidas de amarelo, em plena Central do Brasil, principal estação de trem e metrô do Rio de Janeiro. Em reação, os bolsonaristas cantam: “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, uma tosca canção patriótica da década de 1950, resgatada pelas torcidas nos campos de futebol.

Imagens de um documento falso eram mostradas de celular a celular entre os grupos bolsonaristas na Central do Brasil. Nessa falsificação, o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, informava ao presidente do TSE, Alexandre de Moraes, que as Forças Armadas tinham decidido anular as eleições. Tudo mentira.

Os boatos se ampliaram quando a chuva havia apertado no Rio de Janeiro, levando muitas pessoas a decidirem ir embora. Com a propagação da mentira na Central do Brasil, muitos bolsonaristas voltaram correndo para frente do Quartel-General do Comando Militar do Leste. Foram feitos de bobos.

Entre as muitas mensagens que se tornaram virais entre os bolsonaristas, estava a do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. Ele estimula que as pessoas vão para as ruas e lá permaneçam. "As pessoas têm de ir às ruas para manifestar o que querem. Não tem como não ir. Tem de ir aos milhões. As pessoas precisam entender o que está em jogo. Faça as pessoas irem às ruas. A maior manifestação da história. Façam crescer o movimento. Só tem que fazer isso agora. Não percam a única oportunidade que temos. Façam crescer o movimento. Não joga a toalha. Não podemos brincar. O sistema vai recrudescer em janeiro", disse Eduardo Bolsonaro, pedindo que o áudio fosse compartilhado o máximo possível.

Foto: Evaristo Sá/AFP

O presidente Jair Bolsonaro demorou 45 horas para dar sinais de que reconhecia o resultado das urnas. Desde a derrota de domingo, só se manifestou em dois momentos. Numa primeira declaração de dois minutos, tratou de justificar o que chamou de "movimentos populares fruto de indignação e sentimento de injustiça" de como se deu o processo eleitoral.

"Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso. Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra. Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição."

A chave do comunicado de Bolsonaro está em duas referências. A primeira ao suposto "sistema", o inimigo indefinido, mas bastante amplo, que continua a servir de aglutinação dos aliados do presidente. A segunda referência está na expressão "jogar nas quatro linhas da Constituição".

Essa é uma referência velada a uma interpretação pessoal do presidente. Ele insiste em que o artigo 142 da Constituição brasileira permite que as Forças Armadas ajam como poder político moderador, intervindo no processo democrático, quando entendem que esse se acha ameaçado. O Supremo Tribunal Federal já rechaçou essa interpretação por diversas vezes, deixando claro que o poder constitucional submete às Forças Armadas aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Assim, não seriam poder moderador de nada.

Na segunda manifestação de Bolsonaro depois de derrotado, ele pediu que caminhoneiros aliados parassem de bloquear rodovias pelo país afora. Em protesto contra o resultado da eleição, caminhoneiros usaram suas carretas como obstáculos em mais de 250 pontos de rodovias em pelo menos 17 Estados brasileiros. O tráfego rodoviário entre Rio e São Paulo, por exemplo, normalmente feito em seis horas, chegou a ser cumprido em 20 horas, com motoristas sendo obrigados a desvios internos para escapar de bloqueios em rodovias federais.

Bolsonaro pediu que os caminhoneiros deixassem as rodovias e parassem de utilizar "métodos esquerdistas" de protestos. O bloqueio pró-Bolsonaro prejudicou muita gente, mas fez principalmente aliados do presidente perder dinheiro em cargas e produtos para exportação. Cargas vivas, como gado e galinha, carne congelada, leite que seguia do campo para as cidades, tudo isso começou a morrer ou estragar em razão dos bloqueios. O chamado agronegócio, uma das forças do bolsonarismo, obrigou que Bolsonaro se pronunciasse, pedindo que as manifestações nas estradas cessassem. O presidente, no entanto, não comentou publicamente as manifestações em frente aos quartéis, o que foi interpretado como sinal de aprovação a elas.

O fato é que, passada as eleições, Bolsonaro está cada vez mais isolado. Os principais partidos e caciques políticos que o apoiavam já conversam com petistas e discutem como se comportarão no próximo governo, cuja posse está programada para o dia 1º de janeiro.

Mesmo entre as lideranças religiosas mais radicais que apoiaram Bolsonaro, há movimentos de aproximação a Lula. O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e que dizia durante a campanha que Lula representava o diabo, já afirmou que decidiu perdoá-lo. Silas Malafaia, um dos maiores líderes evangélicos do país, disse que Bolsonaro não comprovou fraudes na eleição e instigou os evangélicos a abandonar os atos golpistas: “Vamos voltar a trabalhar”, pediu ele.

Entre as Forças Armadas, o silêncio é visto como de aceitação do resultado das urnas. É sabido que a cúpula militar preferia Bolsonaro a Lula. Teme perder cargos na administração pública, benefícios salariais e de aposentadoria com a volta do petista. Mas está disposta a aceitar o resultado das urnas.

Integrantes do Alto Comando do Exército, elite da elite da tropa militar, têm reafirmado, em conversas internas com oficiais militares, que não vão endossar os atos populares que pedem a intervenção militar. Avaliam que os protestos foram representativos, mas têm rejeitado apoiar o que seria uma "aventura golpista".


Os 58 milhões que votaram em Bolsonaro
Continua a ser contraproducente chamar fascistas ou homofóbicos aos milhões que votam na extrema-direita. Porque votam assim? Sobretudo temos de querer realmente responder.

Dessa forma, é possível prever que o Brasil caminhe para a normalidade democrática nos próximos meses. Lula tomará posse, Bolsonaro deixará o governo. Provavelmente, o atual presidente viajará para não ser obrigado a colocar a faixa presidencial em Lula. Deixará a tarefa para seu vice, o general Hamilton Mourão. Será apenas uma birra política, que quebrará 110 anos de ritual democrático em que o presidente que sai transfere o poder para o presidente que entra por meio de uma faixa transversal verde-amarela, criada em 1910.

Tal birra pode gerar uma nova onda de protestos nas ruas. Muitos bolsonaristas trabalham para criar o capitólio brasileiro, numa referência ao 6 de janeiro americano, quando trumpistas invadiram o Congresso que certificaria a vitória de Joe Biden à Presidência. É possível que ocorram conflitos, mas poucos acreditam que ganhem relevância.

Ódio bolsonarista

O problema, no entanto, está no ódio que o bolsonarismo enraizou e cultiva na sociedade brasileira. Um exemplo trágico disso ocorreu na região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, no dia da vitória de Lula no segundo turno. Uma família comemorava o aniversário de um de seus integrantes. Quando cantavam "Parabéns a você", comemoraram também a vitória de Lula, gritando o nome do petista.

O colecionador de armas Ruan Nilton da Luz, 36 anos, saíra de casa com um revólver, revoltado com a derrota de seu candidato. Havia publicado em rede social que poderia "fazer uma besteira", se Bolsonaro perdesse. Luz andou pelas ruas do bairro Nova Cintra descontrolado. Como admitiu à polícia, ele passara o dia todo bebendo e, depois do término da apuração, resolveu sair em "busca de traficantes" que teriam o costume de ficar em um beco da região.

Ao ouvir os gritos de "Lula, Lula" vindo da garagem de uma casa, atirou em direção aos celebrantes. Duas pessoas foram mortas pelos tiros do bolsonarista: Pedro Henrique Soares, de 28 anos, e Luana Rafaela Oliveira Barcelos, de apenas 12 anos.

"A gente estava em uma comemoração entre família. Meu sobrinho estava cantando 'é Lula, é Lula', porque ele tinha ganhado. O cara simplesmente saiu atirando porque o Lula ganhou. O cara já chegou atirando", disse à polícia a tia de Pedro, Amanda Dias de Paula. Além das duas mortes, os tiros do bolsonarista deixaram duas pessoas feridas.

Ruan Nilton da Luz foi preso em seguida ao crime. Com o acusado, a polícia apreendeu duas armas de fogo, uma pistola calibre 9mm e outra calibre 380, além de cartuchos de munição e uma faca. Na casa dele, policiais encontraram outra arma de fogo e mais 500 cartuchos de balas. A advogada do acusado afirmou para a polícia que ele havia sofrido um surto psicótico no momento do crime.

O governo Bolsonaro afrouxou as restrições ao controle de armas e estimulou que os brasileiros se armassem. O número de pessoas legalmente armadas triplicou em quatro anos, com mais de 1 milhão de licenças tendo sido concedidas a colecionadores e caçadores. "Um homem armado jamais será escravizado", costuma repetir o presidente. Como herança, Bolsonaro deixou o país em surto psicótico.

Novo Governo em janeiro

Em 1968, antes da decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5), a medida mais dura da ditadura militar brasileira, que revogava o direito de reunião e permitia que a polícia prendesse qualquer cidadão mesmo sem provas ou acusação de crime, o Brasil era governado pelo general Costa e Silva. Seu vice-presidente, era um civil, o político conservador Pedro Aleixo. Ao ser consultado por Costa e Silva sobre a decretação do AI-5, Aleixo afirmou: "Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país; o problema é o guarda da esquina".

O maior risco de uma diretriz normativa autoritária estaria, segundo Aleixo, na atuação abusiva dos guardas que atuam em cada esquina dos milhares de municípios brasileiros.

O problema do Brasil atual é semelhante. Um governante autoritário perdeu a eleição e deve deixar o poder. Resta saber o que fazer com o bolsonarista da esquina, disposto a rupturas democráticas e violências físicas. Esse é o desafio da sociedade brasileira e do novo governo que se estabelecerá em janeiro.

(Autor escreve de acordo com a grafia portugesa no Brasil.)

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