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Brasil declara "desobediência civil" contra Bolsonaro
Mundo 5 min. 27.03.2020 Do nosso arquivo online

Brasil declara "desobediência civil" contra Bolsonaro

Brasil declara "desobediência civil" contra Bolsonaro

AFP
Mundo 5 min. 27.03.2020 Do nosso arquivo online

Brasil declara "desobediência civil" contra Bolsonaro

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Isolado, em confrontos com os governadores do país, Jair Bolsonaro mantém que o "Brasil não pode parar". Nas favelas, há recolher obrigatório "por bem ou por mal". Os traficantes dizem que "se o governo não tem capacidade de dar um jeito, o crime organizado resolve".

"Pessoal, fica em casa". Às 20h da noite há recolher obrigatório na Rocinha, Cidade de Deus, Rio das Pedras, Muzema, Tijuquinha, Morro dos Prazeres e Santa Marta. "Quem for visto na rua depois do horário vai aprender a respeitar o próximo". O aviso às favelas do Rio de Janeiro é do Comando Vermelho. Depois das paredes, a maior organização criminosa do país distribuiu o alerta nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp da comunidade, na semana em que os traficantes, numa declaração de guerra ao governo, assumiram a linha da frente no combate contra a disseminação do vírus nas áreas mais desprotegidas da cidade. "Se o governo não tem capacidade de dar um jeito, o crime organizado resolve". Numa reação violenta à inação do Presidente que trata a pandemia como uma "gripezinha", o crime avisa que "a coisa está ficando séria". 

Depois da Veja, também o The Guardian também replicou as recomendações dos traficantes que zelam pelo universo paralelo das construções inacabadas - muitas sem luz, eletricidade ou condições de higiene básica - que preenchem a paisagem da cidade maravilhosa. Perto do Corcovado, em Santa Marta, o crime encarrega-se da distribuição de sabão e desinfetante. Com o Cristo Redentor em pano de fundo, o cartaz que pede "Por favor lavem as mãos antes de entrarem na favela" é motivo de discórdia entre os moradores. "No topo do morro às vezes não chega água durante quinze dias e se as pessoas não conseguem sequer ter dinheiro para comer como é que podem preocupar-se com limpeza?", indigna-se um morador. Nada feito. A ordem do Comando Vermelho é ficar em casa "por bem ou por mal". 

"O Brasil não pode parar"

A máxima que o Presidente do Brasil deixou clara no início da semana, quando suspendeu o isolamento social no maior país da América Latina, é repetida sete vezes em pouco mais de um minuto na campanha lançada esta quinta-feira contra a quarentena. Em guerra aberta com governadores, apoiantes, opositores, médicos, comunidade internacional e até com o vice-presidente, Jair Bolsonaro voltou à carga com o hasthag amplamente divulgado pelos filhos Carlos, Flávio e Eduardo, nas redes sociais. "O Brasil não pode parar". Mesmo perante a hipótese real de uma greve dos camionistas, que ameaça a distribuição de alimentos básicos, Bolsonaro aposta no caos. "O Brasil poderá viver em breve uma soma macabra: o caos sanitário e o colapso da economia. Uma crise retroalimentando a outra", antecipa o colunista da revista Istoé, Leonardo Attuch. 

Feitas as contas, sabe-se que o vídeo promocional que  "empurra os brasileiros para a morte" terá custado 4,8 milhões de reais aos cofres públicos, equivalente a cerca de 900 mil euros. Sem qualquer concurso público, a campanha que defende a interrupção do isolamento social foi entregue pela iComunicação. Na ausência do assessor direto do Presidente, em isolamento depois de ter sido diagnosticado com Covid-19, a Revista Época conta que o "martelo foi batido por Carlos Bolsonaro". 

Além dos filhos, Bolsonaro conta com apoio público de Regina Duarte, Silas Malafaia da Assembleia de Deus e do evangélico Edir Macedo. O plano é travar a epidemia com uma quarentena "vertical" restrita a grupos de risco e não "horizontal". Numa altura em que mais que meio mundo está dentro de portas, a aposta de Bolsonaro é na saúde da economia que, tal como Brasil, "não pode parar". 

Em oposição direta, a segunda figura de Estado desmentiu a primeira. "A posição do nosso governo por enquanto é uma só: isolamento e distanciamento social", corrigiu o vice-presidente e general Hamilton Mourão. "Isso está sendo discutido  o presidente buscou colocar, e pode ser que ele tenha se expressado de uma forma, digamos assim, que não foi a melhor", amenizou. "O que ele buscou colocar é a preocupação que todos nós temos com a segunda onda, como se chama nesta questão do coronavírus. Nós temos uma primeira onda, que é a saúde, e temos uma segunda onda, que é a questão económica".

Desobediência Civil 

Enquanto Brasília arde, quase em uníssono, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo anunciaram que vão resistir. Em entrevista ao Folha de São Paulo, o governador carioca Wilson Witzel anunciou que a cidade se prepara para entrar em "desobediência civil" e manter o roteiro desenhado a partir das recomendações da Organização Mundial de Saúde. 

"Não vamos suspender isolamento. Se o ministro da Economia não tomar as providências que devem ser tomadas por iniciativa deles, vamos buscar outras ações. A economia não pode estar em primeiro lugar. Em primeiro lugar agora é preservar vidas. Ou o ministro da Economia age ou aqueles estados mais afetados vão agir e vão para o Supremo", ameaçou o governador do Rio de Janeiro.

"O ministro da Saúde vinha cumprindo [o isolamento social], mas ontem mudou seu discurso. Como autoridade da saúde do Brasil, confunde todo mundo, inclusive os governadores, e consequentemente coloca a população contra o governante. Então, nós vamos entrar na desobediência civil", reiterou contra a ordem Presidencial. 

Potencial adversário na corrida presidencial, o governador de São Paulo rejeita "demagogia barata". João Dória convidou Bolsonaro a "dar o exemplo". Diz que um Presidente da República tem de ser "mandatário para comandar, para dirigir, liderar o país, e não para dividir". 

"Santa Catarina Não Quer Morrer"

No Sul, em Santa Catarina, há revolta em curso contra o governador do PSL Carlos Moisés. Eleito pelo antigo partido do Presidente, Moisés autorizou o regresso das máquinas às ruas e desbloqueou as obras públicas, entre elas a construção e a manutenção das estradas. Numa onda de revolta a população criou o hasthag #SCNaoQuerMorrer para protestar nas redes sociais. 


Pernambuco também alinha pelo isolamento social. Esta sexta-feira, numa conjunta com a Ordem dos Advogados e a Confederação dos Bispos do Brasil ligados à Igreja Católica, o PSOL decidiu pedir a destituição de Jair Bolsonaro no Congresso. O pedido de impeachment tem por base "crimes de responsabilidade". 

Desde o pronunciamento do Presidente na terça-feira várias cidades têm aderido aos panelaços noturnos. Voluntariamente em casa, os brasileiros optaram por transformar as janelas e as varandas em palcos de protestos improvisado. Desde 26 de março, que milhares de pessoas exigem a demissão do atual inquilino do Palácio da Alvorada. 



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