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Boris Macbeth
Editorial Mundo 4 min. 27.06.2019

Boris Macbeth

Durão Barroso e Boris Johnson.

Boris Macbeth

Durão Barroso e Boris Johnson.
Imgagem: Reuters
Editorial Mundo 4 min. 27.06.2019

Boris Macbeth

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
"A ambição leva-o a assassinar o rei e usurpar o seu lugar".

O político ambicioso tinha sido um estouvado membro do MRPP na sua juventude, mas é já como filiado no PSD que chega a secretário de Estado pela mão de Santana Lopes, que convenceu o líder Cavaco Silva a dar-lhe um cargo governativo. A sua trajectória política foi sempre no sentido ascendente: tornou-se ministro, depois líder do PSD (contra o seu antigo padrinho político), e em seguida concorreu às legislativas (que perdeu contra António Guterres). É aí que Durão Barroso, o homem de quem se fala neste parágrafo, lança a sua frase fatalística: “Eu sei que vou ser primeiro-ministro, só não sei quando”.

Na altura, há vinte anos, esta frase soava tão improvável como arrogante, tanto que o director do então melhor diário do país, o inefável José Manuel Fernandes, respondeu num editorial de título igualmente famoso – “O homem que nunca será primeiro-ministro” – com um verdadeiro assassínio de carácter de Barroso; talvez o mais simpático que se escreveu ali foi que Durão não reunia as qualidades necessárias para liderar um país. Curiosamente (ou talvez não) Fernandes é também um ex-maoísta, e mais tarde transformou-se em defensor feroz de Barroso.

Claro, o que Fernandes não teve em conta quando escreveu o seu texto foi que ainda melhor que ter qualidades é ter amigos influentes. Barroso tinha e tem muitos, e o que veio a seguir confirmou-o: primeiro-ministro por dois anos até que uma indecorosa fuga para Bruxelas o alçou a presidir a década mais difícil (e mais mal gerida) da história da União Europeia. A Goldman Sachs aprova.

Há partes desta história que se repetem no que acontece hoje no Reino Unido. Boris Johnson é uma mistura de Barroso e de Macbeth, o personagem encenado por Shakespeare. Na peça sobre a vertigem da ambição desmedida, escrita no início do século XVII, um general do exército escocês recebe a visita de três bruxas (simbolizando a escuridão, o caos e o conflito) que profetizam que ele se tornará rei. A ganância do possível poder cegam Macbeth, que acaba por assassinar o rei Duncan e usurpar o seu lugar. No entanto, a espiral de mentiras e os crimes consecutivos que é preciso cometer para esconder a verdade acabam por levar Macbeth à paranoia, enquanto o seu reino se vai afundando numa guerra civil.

No Reino desunido de 2019, mergulhado em caos, conflito e escuridão, Boris já assassinou politicamente Theresa May e sabe que se tornará primeiro-ministro, só não sabe bem quando. É provável que seja já daqui a duas semanas, quando os membros que restam do dilacerado partido Conservador lhe entreguem as chaves do número 10 de Downing Street (uma morada que previsivelmente ocupará a sós, depois da violenta discussão conjugal de domingo passado com a sua momentânea Lady Macbeth).

A perspectiva de ver Boris Macbeth tomar o poder horroriza muitos dos que com ele privaram ou trabalharam. O seu antigo chefe (no Daily Telegraph, dos tempos em que Boris era um jornalista em Bruxelas) avisa que ele não reúne as qualidades necessárias para liderar um país, até porque “apenas tem como preocupação uma pessoa: ele mesmo”. Outros referem o seu “absoluto desdém pela verdade”. Um correligionário de partido avisa que Boris é um cata-vento: “vê para que lado corre a multidão, mete-se à frente de todos e pede para que o sigam”. E claro, não falta quem se lembre da campanha para o referendo sobre o Brexit, em que Johnson escreveu duas crónicas – uma a apoiar a permanência na UE, outra a favor do Brexit – e esperou até ao último momento para decidir qual dos lados lhe daria mais jeito apoiar, publicando a segunda e acabando por se tornar figura maior de uma campanha repleta de demagogia.

Tudo isto pouco importa. O que interessa é que Boris Johnson tem amigos influentes. Há Robert Mercer, o bilionário americano que detém parte da Cambrige Analytica. Há John Dyson, o magnata britânico dos aspiradores que financiou grande parte da campanha pelo Brexit. Há outros mais russófonos. Mas o mais arrepiante e secreto dos amigos veio à superfície neste domingo, quando foi divulgado um vídeo em que Steve Bannon, entrevistado por uma jornalista que está a fazer um documentário sobre o sulfuroso ideólogo da extrema-direita americana, se gaba da “formação” que está a dar ao próximo primeiro-ministro britânico, inclusive escrevendo-lhe os discursos.

Boris continua a negar qualquer associação ao intelectual neonazi como mera “ficção conspiratória esquerdista”. A espiral de mentiras que se encobrem sucessivamente enredou Macbeth até à loucura que lhe foi fatal; fará o mesmo com Boris Johnson. Só que já é tarde. O reino, fora da Europa, não mais encontrará a paz.


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