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Boris ganhou mas aprofunda divisão no Reino Unido
Mundo 4 min. 13.12.2019

Boris ganhou mas aprofunda divisão no Reino Unido

Boris ganhou mas aprofunda divisão no Reino Unido

Foto: AFP
Mundo 4 min. 13.12.2019

Boris ganhou mas aprofunda divisão no Reino Unido

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Independentistas escoceses arrasaram nas eleições legislativas de quinta-feira e pretendem um referendo no próximo ano. Defensores da Irlanda do Norte dentro do Reino Unido perdem força.

A vitória esmagadora dos conservadores nas eleições legislativas de quinta-feira, que provocou a maior derrota dos trabalhistas desde 1935, reforça as intenções de quem defende a saída da União Europeia (UE). Contudo, o retrato que sai do plebiscito é de um Reino Unido ainda mais dividido sobre o brexit e sobre a questão nacional. Boris Johnson, que usou a ruptura com a UE como bandeira, teve um triunfo avassalador em Inglaterra, mas enfrenta agora o perigo de separação da Escócia e da Irlanda do Norte do Reino Unido. 

Se os conservadores arrasaram em Inglaterra, à exceção de Londres, os independentistas esmagaram os adversários na Escócia. A atual líder do Partido Nacional Escocês (SNP), a primeira-ministra Nicola Sturgeon, herdou uma formação política, encabeçada então por Alex Salmond, em depressão depois da derrota no referendo sobre a independência em 2014. Com audácia e uma mensagem forte contra o brexit, que na Escócia foi rejeitado por 62% dos eleitores, Nicolas Surgeon conseguiu a fórmula vencedora que permitiu que esta quinta-feira o SNP conquistasse 48 dos 59 assentos em disputa.

Os independentistas escoceses eram a terceira força no parlamento britânico com 35 deputados e arrasaram agora em praticamente todos os círculos eleitorais do seu território. "Não queremos um governo conservador de Boris Johnson, não queremos o Brexit e queremos que a Escócia tenha o seu próprio futuro nas mãos", afirmou a primeira-ministra escocesa quando foram anunciados os resultados. 

"Dado o veredicto de ontem [quinta-feira], o Governo da Escócia vai publicar na próxima semana os argumentos democráticos detalhados de uma transferência de poder para permitir um referendo sobre independência que possa ser realizado sem hipótese de ser juridicamente questionável", afirmou. No seu discurso, a primeira ministra escocesa insistiu que as eleições de quinta-feira permitem confirmar que "a grande maioria das pessoas na Escócia quer ficar na União Europeia", uma decisão expressa no referendo de 2016, reforçada nas eleições de 2017 e nas Europeias deste ano e "enfaticamente confirmada" na noite de quinta-feira. "Westminster ignorou o povo da Escócia por mais de três anos. Ontem o povo da Escócia disse já chega. É hora de o Governo de Boris Johnson ouvir", disse Sturgeon.

A líder do SNP considera que os votos alcançados pelo seu partido constituem um mandato e um apoio claro ao seu compromisso de voltar a realizar um referendo sobre a independência em 2020. De acordo com o El País, Nicolas Sturgeon esperava uma vitória apertada dos trabalhistas para ter mais poder de negociação mas a maioria absoluta de Boris Johnson deixa a capacidade de influência dos independentistas enfraquecida. 

O primeiro-ministro britânico tinha já deixado claro antes da campanha que não cometeria o erro que David Cameron cometeu no seu mandato quando permitiu o referendo escocês. Mas é evidente que os partidos contrários à independência perderam força na Escócia. Os trabalhistas praticamente desapareceram naquele que foi durante décadas um dos seus feudos e os conservadores regrediram. Tudo aponta para que as tensões com uma eventual saída do Reino Unido da UE possam pôr em perigo a união territorial.

Unionistas perdem maioria

Os defensores da manutenção do norte da Irlanda no Reino Unido foram outra das principais baixas nas eleições legislativas. O DUP, partido que serviu de muleta aos conservadores para governarem, sofreu um severo castigo nas urnas e viu, pela primeira vez, o antigo braço político do IRA, o Sinn Féin (47,1%), e o Alliance Party (9,8%) superarem os unionistas (47,1%). 

No simbólico círculo eleitoral do norte de Belfast, o candidato do Sinn Féin, John Finucane, arrebatou o lugar a Nigel Dodds por menos de dois mil votos. O porta-voz parlamentar do DUP em Westminster não conseguiu assim ser eleito, deixando a líder do partido, Arlene Foster, também primeira-ministra da Irlanda do Norte, em maus lençóis. No condado de Fermanagh, o círculo eleitoral mais ocidental do Reino Unido, a candidata do Sinn Féin colocou-se também à frente do seu rival unionista, Tom Elliott, por uma pequena margem de 57 votos.

A verdade é que a questão das fronteiras entre a Irlanda do Norte, sob administração britânica, e a República da Irlanda é um dos temas mais delicados do brexit. O regresso da separação entre as duas partes deixou as autoridades europeias apreensivas, durante as negociações uma vez que pode destabilizar uma zona que passou por várias décadas de conflito desde a independência da metade sul da ilha com os republicanos irlandeses a defenderem a reunificação de todo o território sob a alçada da República da Irlanda.

Em outubro deste ano, os dissidentes do IRA romperam o silêncio e deram uma entrevista ao Channel 4 afirmando que qualquer infraestrutura fronteiriça que dividisse a ilha seria um “alvo legítimo para atacar”.

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