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Bolívia à beira da guerra civil
Mundo 3 min. 20.11.2019 Do nosso arquivo online

Bolívia à beira da guerra civil

Bolívia à beira da guerra civil

Foto: AFP
Mundo 3 min. 20.11.2019 Do nosso arquivo online

Bolívia à beira da guerra civil

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
São já 28 os manifestantes mortos pelo exército na Bolívia quando protestavam contra o golpe de Estado que forçou Evo Morales a exilar-se e pôs Jeanine Añez à frente do país.

Situada no altiplano andino, La Paz é a capital mais alta do mundo e tem sido protagonista nas últimas semanas de violentos protestos contra o golpe de Estado desencadeado pela oposição a Evo Morales com o apoio das forças armadas. Depois de um processo eleitoral que concluiu com mais uma vitória na primeira volta do então presidente, a violência tomou conta de um país habituado ao crescimento económico e à redução das desigualdades em década e meia de governos liderados pela esquerda. 

À proposta de Evo Morales de realizar novas eleições presidenciais para pacificar a Bolívia, o exército respondeu com o pedido de demissão do primeiro chefe de Estado índio no país com mais indígenas da América Latina. Depois do exílio do antigo sindicalista e sem quórum, a oposição impôs Jeanine Añez num parlamento sem a presença de deputados de esquerda, que disseram não estarem reunidas as condições de segurança.

A autoproclamada presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, aprovou, entretanto, através do decreto 4082 4,5 milhões de euros para melhorar o “equipamento” das forças armadas, que têm “a atribuição e a responsabilidade de contribuir, se necessário, para a preservação da ordem pública”.

Num país profundamente dividido, as vítimas das ações das forças armadas não páram de crescer. São pelo menos 524, entre eles, 78 mulheres, 464 homens, 12 crianças, nove idosos, duas pessoas com deficiência, oito jornalistas e 12 polícias. Tanto a ONU como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denunciam “o uso desproporcional da força policial e militar”, ao recorrerem a armas de fogo para reprimir as manifestações. 

A CIDH apontou ainda o dedo ao governo de facto e classificou como “grave” o decreto do governo golpista que autoriza os militares a “controlar a ordem pública”, ao mesmo tempo que isenta os oficiais de responsabilidades penais. Para resolver a crise, Evo Morales pediu, a partir do México, onde recebeu asilo, a mediação da ONU e do papa Francisco.

Mundo dividido

Depois da crise na Venezuela que levou a uma guerra diplomática entre os Estados que reconheceram Juan Guaidó e os que mantiveram o seu apoio a Nicolás Maduro, o retrato das relações internacionais é cada vez mais instável. Donald Trump considerou que a renúncia de Evo Morales “é um momento importante para a democracia no hemisfério ocidental”. Se os Estados Unidos foram rápidos a reconhecer Jeanine Añez como presidente da Bolívia, a União Europeia fê-lo sob a condição de convocar num curto espaço de tempo eleições como já tinha feito, aliás, com Juan Guaidó. 

Ainda assim, o governo espanhol reagiu criticamente e não caraterizou o acontecimento como um golpe de Estado mas deixou-o nas entrelinhas. Num comunicado, condenou a ação dos militares e considerou que “esta intervenção nos leva a momentos já passados na história latino-americana”. Já o líder da oposição britânica, Jeremy Corbyn, candidato às eleições que se realizam em dezembro, condenou o “golpe de Estado contra o povo boliviano” e enviou uma mensagem de solidariedade em defesa da “democracia, justiça social e independência”. 

Também Bernie Sanders, um dos mais destacados candidatos à liderança da corrida democrata à Casa Branca, denunciou aquilo que considera ser “um golpe de Estado”. Mais a sul, o México que desde a tomada de posse de Andrés López Obrador tem evitado assumir posições claras no plano internacional não só deu asilo a Evo Morales como condenou o “golpe de Estado”. Esta posição foi acompanhada pelos aliados do governo de Evo Morales como a Venezuela, Cuba, Uruguai, Nicarágua e a Rússia. 

Dentro de um continente em efervescência, os governos de direita foram cautelosos e apesar do apoio a Jeanine Añez insistiram na necessidade de eleições. Foi o caso do Chile, do Equador e da Colômbia. Já Jair Bolsonaro ironizou e sugeriu que ex-presidente boliviano devia estar em Cuba e não no México.


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