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Boeing: Aviões que caíram não tinham sistema de aviso que era vendido como extra
Mundo 6 min. 22.03.2019

Boeing: Aviões que caíram não tinham sistema de aviso que era vendido como extra

Boeing: Aviões que caíram não tinham sistema de aviso que era vendido como extra

Foto: AFP
Mundo 6 min. 22.03.2019

Boeing: Aviões que caíram não tinham sistema de aviso que era vendido como extra

No espaço de seis meses, dois aviões do modelo Max 8 da Boeing caíram, provocando a morte de 346 pessoas. Companhia indonésia cancelou a compra de 49 aparelhos da mesma gama.

(Notícia atualizada às 15:45.)

Os dois aviões do modelo Boeing Max 8 que caíram no espaço de seis meses não estavam equipados com o sistema de aviso que alertava os pilotos para falhas no sistema automático de estabilização de voo (MCAS, na sigla em inglês) dos aparelhos. Mais ainda, a Boeing vendia este sistema de alarme como extra. Suspeita-se que o o MCAS esteja na origem dos dois acidentes com o modelo Max, um em outubro de 2019 na Indonésia e outro este mês na Etiópia, o que a confirmar-se poderá trazer avultados prejuízos económicos e de reputação à empresa. 

Entretanto, segundo uma fonte ouvida pela agência de notícias France Press (AFP), a Boeing vai equipar todos os aparelhos Max com este sistema de alarme, que passa a partir de agora a ser uma ferramenta base nas aeronaves. De acordo com a fonte anónima, a fabricante vai propor esta medida às autoridades norte-americanas e às companhias aéreas durante os próximos dias. A Agência Federal de Aviação norte-americana (FAA, em inglês) terá mesmo dado um prazo máximo - abril - para proceder às atualizações nos aparelhos Max 8. 

O sistema de alarme luminoso em causa é ativado sempre que há uma informação errónea transmitida pelos sensores AOA (angle of attack, em inglês) ao MCAS. O MCAS mede o ângulo de ataque e faz com que o nariz do avião fique inclinado para baixo de forma a retomar a velocidade e evitar o risco de uma queda fatal. 

Apesar da FAA não ter considerado que o sistema de alerta fosse imprescindível nos aparelhos, um especialista ouvido pela AFP considera que deveria ser a "norma" e critica o comportamento da Boeing. "Instrumentos como os sinais de alerta luminosos deviam ser a normal porque é importante para os pilotos saber quando os sistemas estão em conflito entre si", considera Scott Hamilton, da Leeham Company. "Houve obviamente um excesso de confiança na transição do modelo 737NG para o Max, a Boeing subestimou as mudanças que eram necessárias  (...) subestimou os clientes [companhias aéreas] que queriam poupar dinheiro em todos os níveis operacionais", acrescenta. 

Hamilton considera mesmo que o preço do sistema não seria tão caro quanto isso e que a empresa só quis ganhar dinheiro ao torná-lo um "extra". Mas empresas como a American Airlines ou a Southwest optaram por comprar os aparelhos com o alarme "extra", precavendo-se de possíveis incidentes. Contactadas pela AFP, tanto a Boeing como a FAA recusaram-se a comentar a notícia.

Na sequência destes incidentes, a Boeing não atravessa, naturalmente, uma boa fase com os seus principais clientes: as companhias aéreas. Esta sexta-feira, a companhia aérea indonésia Garuda cancelou a compra de 49 aeronaves do modelo Max 8. "Os passageiros da Garuda perderam a confiança nos 737 Max e não querem voar nesta aeronave", disse Ikhsan Rosan o porta-voz da empresa à AFP. O porta-voz referiu, no entanto, que a Garuda vai continuar a trabalhar com a Boeing, e pondera substituir a encomenda por outros modelos da empresa. Um dos aviões Max 8 já tinha sido, aliás, entregue e a empresa vai agora decidir se também o devolve ou não.

 No sentido contrário, a Ryanair mantém a encomenda de 135 aviões da mesma gama. Na semana passada a norueguesa Norwegian Air Shuttle anunciou também que vai pedir uma indemnização à Boeing para compensar pelos prejuízos financeiros, após ter suspendido os voos das suas aeronaves. 

Também nos últimos dias foi aberta uma investigação criminal ao desenvolvimento do Max 8 a par com uma auditoria exigida pelo Departamento dos Transportes norte-americano.

MCAS poderá ter estado na origem da queda dos dois aviões

Apesar de ainda se aguardar os resultados finais das investigações do avião da Ethiopian Airlines e da Lion Air, as autoridades etíopes, canadianas e americanas suspeitam que há várias semelhanças entre ambos os acidentes.  

No caso do avião da Lion Air, que caiu em outubro de 2018, as primeiras investigações apontam para uma falha em um dos dois sensores AOA. Apesar de ter falhado, o AOA continuou a transmitir erradamente informação ao sistema MCAS. Ao mesmo tempo, suspeita-se que a tripulação do Max 8 da companhia indonésia não saberia que o MCAS teria de ser desativado de forma a poderem retomar o controlo manual do aparelho.

De acordo com a AFP, o MCAS toma automaticamente conta dos controlos do aparelho  em casos de emergência não permitindo o controlo manual da aeronave pelos pilotos, mesmo que estejam a dar indicações contrárias às dadas pelo MCAS. Isto resulta numa situação de divergência entre ambos os sistemas, potenciadora, em casos extremos, de incidentes como a queda das duas aeronaves. 

Hamilton considera mesmo que o preço do sistema não seria tão caro quanto isso e que a empresa só quis ganhar dinheiro ao torná-lo um "extra". 

Contacto/AFP

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